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Após a Eucaristia na capela do Seminário de Faro e o jantar que se seguiu na unidade hoteleira, a noite teve continuidade com a conferência de Nuno Fernandes Thomaz, vice-presidente da ACEGE e membro do Conselho de Administração da Nutrinveste, a segunda maior empresa do mundo no sector do azeite.

Nuno Thomaz veio ao Algarve deixar uma mensagem de esperança, mostrando-se confiante quanto à capacidade do povo português para ultrapassar as actuais dificuldades. Aquele empresário defendeu por isso uma “cultura de exigência” “sem contemporização com o facilitismo que grassa por aí”. “E é nesta cultura de exigência que tem de ser compreendido o nosso dever de responsabilidade”, disse, acrescentando que “Portugal tem futuro com uma condição: se nós todos formos capazes”. “E se olharmos para a nossa história, ao longo dela, em períodos tão ou mais difíceis do que este, fomos capazes. Houve sempre uma reserva de responsabilidade e coragem que permitiu aos portugueses reinventar-se e refazer o seu destino. É por este desafio que seremos julgados, não apenas como empresários mas como cristãos. Estou muito confiante que iremos ultrapassar isto tudo”, afirmou.

Como solução para se ultrapassar a crise defendeu que esta deverá basear-se na “verdade, seriedade, responsabilidade e vontade”. “O dever de participação não significa ser ministro, mas tomar posições e traçá-las na vida da comunidade. Não é o Estado que tem de resolver a pobreza, somos nós”, defendeu.

Nuno Thomaz defendeu ser preciso “saber agarrar os quadros pós-graduados”, “melhorar a gestão do ensino”, e “alargar a base da qualificação”. “A organização falta, mas não a entreguemos só ao Estado, pois esta cultura começa nas nossas casas e empresas”, advertiu, considerando também que “a sociedade tem registado uma perda de valores éticos gravíssima”. “Induziram nas pessoas um facilitismo e um consumismo que o país não suportava e que não é o melhor alfobre de formação”, denunciou.

Nuno Thomaz criticou ainda as políticas públicas de combate ao desemprego que “têm falhado sistematicamente” e um Estado que “consome e delapida recursos imensos sem contrapartidas que justifiquem isso”, “onde só têm voz os grupos que têm poder”. Com base neste contexto apelou para as “obrigações” de cada português para “contribuir para atenuar esse estado de sofrimento social” .

O conferencista lamentou ainda a actual lei laboral existente. “A conjugação da rigidez da lei laboral com a situação actual que temos no mercado não nos dá condições a nós, empresários ou gestores, para garantir paternalisticamente o emprego a todos”, disse, considerando que a precariedade no trabalho “é consequência precariedade dos próprios mercados”. “Os mercados hoje são precários. Hoje as fábricas estão num sítio e amanhã estão noutro, hoje este produto custa um preço e amanhã custa outro. E tudo isto passa-se a uma velocidade instantânea”, constatou, acrescentando que “a rigidez laboral sobre o funcionamento da economia mede-se entre nós pela dificuldade de ajustamento das empresas às conjunturas, quer para aumento de trabalhadores, quer para reduzir trabalhadores”. “Como cá não se pode reduzir ou aumentar, as empresas, quando têm problemas, fecham. Temos de combater isso”, defendeu, consciente de que “as formas de dispensa de pessoal são decisões extremamente difíceis”. “Aquilo que o dever da responsabilidade nos obriga é a tomar as decisões em consciência. Muitas vezes essas decisões em consciência são tomadas para que a sobrevivência de muitos não seja posta em causa com uma utópica garantia de todos”, disse.

A propósito do Fundo Bem Comum da ACEGE, um fundo de capital de risco, destinado a apoiar a projectos de quadros médios, com mais de 40 anos, em situação de desemprego, lembrou que o caminho passa por “atenuar a gravidade do problema do desemprego” com o “incentivo à empregabilidade e empreendedorismo”. A intenção é, segundo Nuno Thomaz, a de “obviar a um problema que é dos maiores paradoxos do mundo actual: quanto mais cresce a expectativa de vida, mais diminui a expectativa de vida profissional”. “Hoje vive-se facilmente até aos 80 anos, mas ai de quem fique desempregado aos 40”, denunciou, lamentando que se delapide pessoas quando estão no “pico da sua vitalidade”.

O orador denunciou também a “cultura laxista existente entre nós”, em que “o Estado é que tem de fazer tudo, o Estado é que é o culpado de tudo o que está mal e o Estado é que tem de pagar os prejuízos”.

Por outro lado, lamentou que sejamos o país que tem “os prazos de pagamento mais longos dentro da União Europeia”. “Há municípios em Portugal que têm seis anos de atraso no pagamento de facturas. Já imaginaram o que é que isto se presta à corrupção e as consequências gravíssimas sobre tesourarias de empresas que já estão estranguladas”, advertiu.

O orador lamentou igualmente a complexa legislação. “Entre decretos-lei, leis e infra-legais são 550 leis por ano, fora as resoluções dos conselhos de ministros, os despachos, as portarias, entre outras. Como é que querem que alguém do estrangeiro invista aqui?”, questionou.

Nuno Thomaz criticou ainda que o Estado esteja a “cortar subsídios a uma série de instituições que ninguém conhece pelo nome e que representam a continuidade da vida no acompanhamento e combate à solidão de milhares de pessoas que não têm qualquer condição de viver por si” e lamentou a modéstia da Igreja nesta questão. “Se [a Igreja] mostrasse melhor o que isso é, certamente que algumas empresas estariam atentas”, afirmou.

Samuel Mendonça

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