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Conferencista sobre o tema “Os adolescentes de hoje – compreendê-los para lidar com eles”, o psicólogo e docente no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, afirmou na palestra, promovida pelo Colégio de Nossa Senhora do Alto em colaboração com o Centro de Formação Ria Formosa, que a adolescência, mais do que um “período conturbado do desenvolvimento humano”, “pode ser vista como um período, cada vez mais longo, de maturação psicológica”.

O orador defendeu ser natural que nesta fase da vida exista uma “rebeldia saudável”. “É normal que os adolescentes sejam mais ou menos rebeldes. Aqueles que não são nada rebeldes é que não é tão normal. É normal e é saudável existirem clivagens, afastamentos e divergências”, afirmou, lembrando que “muitas das dificuldades de comunicação que existem, resultam da comunicação paradoxal”.

Nuno Marreiros defendeu também que, “para mudarmos o outro, a melhor forma é mudarmo-nos a nós primeiro”. “Se nos mudarmos, o outro muda de forma quase espontânea, enquanto que, se exigirmos a mudança do outro, compramos uma guerra e nunca acaba bem”, justificou, apontando à negociação. Quando em causa está a repreensão aconselhou a “não generalizar” e a escolher o “sítio”, o “momento” e as “palavras” certas.

O psicólogo referiu-se ainda à importância do testemunho coerente de vida. “Quanto mais concordante for aquilo que eu digo com o que o meu corpo comunica, menor margem de erro tenho relativamente ao que o meu interlocutor perceciona e entende”, disse, lembrando que “toda a comunicação tem uma componente de conteúdo e uma componente de relação”.

O terapeuta lembrou, a propósito, que um pai não é um amigo. “Um pai é um pai. Amigos, os filhos têm muitos, mas precisam de um pai e de uma mãe. Se queremos garantir uma relação verdadeira, então devemos tentar que a comunicação seja simétrica, situando-nos ao mesmo nível do nosso interlocutor”, aconselhou.

Nuno Marreiros lembrou aos educadores que “a adolescência marca o nascimento de uma identidade”. “Na adolescência deixo de ser o filho dos meus pais para passar a ser eu. Tenho de me conseguir afastar para descobrir quem eu sou, construir a minha identidade, para depois poder regressar para perto dos meus pais de uma forma tranquila. Isto implica alguma clivagem. É isso que o adolescente faz muitas vezes”, sustentou, lembrando que “o grupo é um fator determinante na cultura adolescente”.

Considerando que o “sistema” da sociedade está “todo montado para o consumo fácil”, o orador lamentou os valores transmitidos aos adolescentes. “O que a sociedade transmite aos adolescentes é que é tudo muito relativo, que, com alguma sorte, perspicácia e oportunismo, conseguem-se as coisas”, afirmou, constatando que “a sociedade está organizada de um modo que induz confusão e é paradoxal”. “Temos dificuldade em lidar com frustrações, mas é bom que a gente aprenda a viver com a frustração”, acrescentou.

A terminar deixou alguns conselhos aos pais. “Ouçam-se uns aos outros; estejam a atentos uns aos outros; partilhem estados de ânimo de cada membro da família; partilhem opiniões regularmente; façam férias juntos, sempre que possível; procurem não viver como estranhos dentro da mesma casa; mandem quando necessário, exerçam a vossa autoridade sem autoritarismo; conheçam os vossos filhos, os seus gostos e ambições; deem-se a conhecer aos filhos; digam o que pensam, como se sentem, o que gostam; não «comprem» bons comportamentos; não «afoguem» os filhos em dinheiro ou outras ofertas; promovam a relação; deem atenção ao estudo dos vossos filhos; deem a conhecer aos filhos vossos amigos; procurem conhecer os amigos dos vossos filhos”, pediu.

Samuel Mendonça

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