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FOLHA DO DOMINGO – Porque é que ficou mais tempo em Moçambique?
Daniela Luz – Era um sonho de criança… Com a sensibilização da comunicação social para os problemas em África e também pela educação dos meus pais, que sempre me alertaram muito para estas questões, comecei desde pequena a querer ser missionária. O meu curso, na área da cooperação para o desenvolvimento, também foi escolhido nesse contexto, de poder ajudar o outro.
Comecei a trabalhar mas sempre à procura de alguma instituição que me pudesse enviar para fazer voluntariado. Achei que esta era a melhor altura para aceitar este desafio de deixar tudo e decidi agarrar esta oportunidade de braços abertos. Por isso não me importei de ficar sem trabalho porque este era o sonho da minha vida. Daí achar que um mês não era suficiente. Optei por cinco meses por ser a primeira experiência, mas acho que foi pouco tempo.

Apesar de ter tido propostas de trabalho antes de ir, manteve a decisão.
Sim.

Porquê?
Porque era o sonho da minha vida. Acho que devemos fazer o que ambicionamos porque havemos de ter sempre a recompensa, mais tarde ou mais cedo. Gosto da minha profissão e acho que também podemos ser úteis cá em Portugal ou em qualquer sítio, pois o que interessa é a nossa atitude para com o outro. Achei que estava na altura de fazer uma auto-descoberta e estender a mão ao outro de uma forma mais forte. Visto que sou jovem e ainda não tenho grandes responsabilidades, como uma casa ou carro para pagar, achei que era a altura certa. As oportunidades de trabalho hão de vir.

Como é que conheceu as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria?
Fui em 2007 a Taizé, integrada na Peregrinação da Diocese do Algarve, e participei num workshop sobre missões. Falei então com o senhor Bispo, expliquei-lhe a minha situação e perguntei-lhe se ele conhecia alguma instituição missionária onde me pudesse dirigir. Ele aconselhou-me a participar nas Jornadas Missionárias Nacionais e nessa ocasião apresentou-me à irmã Alcinda. A partir daí marcámos reuniões às quais levei até algumas amigas que também estavam interessadas em trabalho voluntário. A partir de então iniciei uma caminhada.

Já tinha então prática cristã e não a intensificou por causa desta experiência…
Já tinha.

Colaborava com a paróquia de Lagoa?

Ultimamente estava um pouco mais desligada, embora frequente a igreja de Vale Del Rey, da paróquia de Lagoa.

E a experiência em Moçambique também serviu para reforçar um pouco mais a fé?
Serviu, sem dúvida.

O que é que fez, concretamente, durante o tempo em que esteve em Moçambique?
Trabalhei no Centro de Saúde local, no Gabinete Psicossocial com meninos com HIV, onde fazíamos atividades pedagógicas no sentido de os preparar psicologicamente para a doença. Procurávamos também dar apoio formativo ao psicólogo que acompanhava essas crianças. O nosso papel foi levar as pessoas locais a autonomizarem-se. No Centro de Saúde trabalhámos também no Centro Nutricional Maria da Paixão.
No Internato Pio X promovemos um curso de formação informática para as meninas utentes. Fizemos também algumas ações pedagógicas com elas sobre educação para a saúde e também fizemos alguma formação informática com as irmãs franciscanas para que ficassem aptas a preencher formulários para concorrem a projetos internacionais.
No Jardim Infantil da Manga fizemos formação com os educadores de infância.

Como é que está o projeto de construção do Centro de Moagem para o Centro de Saúde?
Está a correr muito bem. Aqui, sentimos que estamos a fazer um trabalho muito útil de angariação de fundos, de venda de postais e de sensibilização das paróquias e das escolas. As pessoas estão bastante sensíveis e a colaborar bastante. Tem havido uma ajuda constante, desde a entrega de donativos à compra dos postais. Temos também várias pessoas que estão a ajudar na organização da construção da moagem e de um plano de angariação de fundos. De dia para dia sentimos uma pequena evolução no nosso projeto Esperamos para o ano já termos tudo o que é necessário para a construção. Estamos em constante contacto com as irmãs de Moçambique para saber como vai o projeto Os nossos amigos também estão muito disponíveis para nos ajudar. Isto é quase uma rede.

A Daniela, desde que chegou, também tem feito parte dessas sessões de esclarecimento?
Sim.

O projeto ronda os 10 mil euros. Quanto é que já angariaram?
Cerca de 17%.

No dia 6 de fevereiro realizou-se, em Odiáxere, o I Encontro de Formação para Novos Missionários. O que é isto?
Tal como nós sentimos falta de alguém que nos pudesse encaminhar e orientar, pensámos que seria bom promover esse serviço, também para dar continuidade a este projeto Sabemos que há muita gente que também tem a ambição de ajudar porque muitas pessoas vêm ter connosco. Muitos querem, não só partir, mas ajudar aqui. Então, achámos que seria útil termos mais pessoas a colaborar para que outros possam, através da experiência que já temos, partir com uma certa orientação. Queremos reforçar aqui a formação ao nível das áreas educativa, social e religiosa. Em conjunto com as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria iremos promover essa formação para preparar novos missionários.

A vossa preocupação é também garantir a vossa sucessão e a continuidade de outros jovens que possam dar seguimento a esta colaboração missionária?
Sim. E também incentivar à ajuda e ao amor ao próximo.

Vão haver então mais encontros deste género?
Sim, pelo menos uma vez por mês, conforme a disponibilidade dos formandos.

É para um grupo já fechado ou os participantes podem ir começando a participar à medida que tenham conhecimento e disponibilidade?

Podem ir participando conforme tenham disponibilidade. Já temos mais pessoas interessadas que vão sabendo através de outras.
Vamos também fazer voluntariado em algumas instituições, de forma a que as pessoas se possam ir preparando na prática. Existem ainda formações organizadas, a nível nacional, por exemplo pela FEC – Fundação Evangelização e Culturas (em Fátima), nas quais incentivamos a participação.

Há muitos jovens no Algarve interessados por este tipo de experiências?
Sim. Por incrível que pareça até há. Estamos com 10/11 pessoas. Há muita gente que se interessa.

Está a crescer o entusiasmo por este tipo de iniciativas?
Sim. E quando sabem que fizemos este tipo de experiências ficam muito interessadas em saber como é que também podem participar.

O facto de a Ana e o Miguel terem vindo primeiro do que a Daniela foi uma vantagem?
Foi bastante útil porque eu continuei lá a consolidar as nossas atividades Houve tempo para eu conseguir encontrar e preparar os líderes para ficarem com o desenvolvimento do projeto que foram ganhando a confiança que num mês não se consegue. Enquanto isso, a Ana e o Miguel iam fazendo cá o trabalho ao nível da organização de fundos, de pesquisas e havia sempre uma interligação. Eles cá deram um grande avanço para que, quando eu chegasse, as coisas já estivessem todas orientadas. Conseguimos atingir os nossos objetivos de forma a contribuir para o desenvolvimento local. É muito difícil conseguir mudar uma realidade num mês. Não fomos para mudar alguma coisa, mas contribuir para que as pessoas se pudessem autonomizar e potencializar o que têm de bom.

Para além dos projetos do Centro de Moagem e dos Encontros de Formação para Novos Missionários, de todo o trabalho feito nas escolas e nas paróquias, há ainda outros projetos que pensam realizar?
Estamos com estes e vamos realizando-os por etapas. Com o primeiro impacto queremos ajudar tudo e todos porque toda a gente nos vem pedir ajuda. Queríamos dar essa ajuda, mas é difícil fazer tudo ao mesmo tempo com resultados. Depois deste projeto, virão outros. O próprio Centro de Saúde está envolvido com a construção de uma maternidade e aí também poderemos continuar a colaborar com material. Também vamos tentar arranjar mais algum equipamento tecnológico para o Instituto de Deficientes Visuais. Priorizamos agora este projeto e depois faremos uma nova análise até porque queremos voltar lá (risos)…

E pensam voltar quando?
Quando saí de lá, pensei voltar logo em março… Penso voltar lá o mais breve possível, nem que seja por um mês ou dois.

Voltando ainda aos projetos…
…Sim. Começámos agora um projeto de apadrinhamento de crianças que pertenciam ao Centro de Nutrição. As crianças frequentam o Centro de Nutrição por um determinado período, mas assim que têm alta provavelmente voltarão ao mesmo. Se eram subnutridas por passarem fome, não é de um dia para o outro que essa realidade se altera. Quando a Ana e o Miguel já estavam cá eu fui visitar as casas das crianças para tentar perceber quais as que tinham mais necessidades e quais as carências. Organizámos então o projeto em conjunto no sentido de encontrar padrinhos que subsidiem mensalmente o acesso a bens essenciais (como farinha, arroz, feijão, óleo, açúcar ou sabão) para a família da criança apadrinhada. Já conseguimos arranjar cá, por meio do trabalho do Miguel e da Ana, padrinhos para todos.

Funciona através de quotas mensais?
Optámos por quotas trimestrais para que os padrinhos não estejam em constante preocupação, mas o envio é mensal.

Qual é o valor trimestral?
75 euros que asseguram a alimentação de uma criança, com idade de 1 a 5 anos, e da sua família por três meses. Os responsáveis pela gestão desta verba também recebem um pequeno incentivo para que possam trabalhar com entusiasmo no projeto

Quantos padrinhos já têm?
Temos cerca de 10 crianças apadrinhadas. Como as coisas estão a correr bem, brevemente vamos arrancar com um outro tipo de apadrinhamento, para mais 10 crianças, que visa o apoio escolar. Serão cerca de 15 euros mensais para ajuda de outras crianças.
De três em três meses recebemos um feedback dos responsáveis acerca do modo como está a decorrer o projeto Relatam-nos como está cada criança e enviam-nos fotografias, também para os padrinhos poderem ir acompanhando e sentirem entusiasmo com o projeto Formalizamos um contrato de um ano renovável no final do mesmo.

A paróquia de Lagoa, nomeadamente a comunidade de Vale del Rey, está a aproveitar essa experiência que a Daniela adquiriu?
A paróquia tem conhecimento mas eu ainda não fui lá. Ainda não tive tempo para ir falar com o pároco. No entanto, pretendemos ir à paróquia até para fazer uma sessão de sensibilização.

O que achou a sua família dessa experiência?
No princípio tiveram algum receio mas quando perceberam que era realmente algo que eu queria, apoiaram-me bastante. Senti que, quer a minha família quer os meus amigos, estiveram lá, de corpo e alma, comigo. Cá, ajudaram sempre na sensibilização das pessoas e no envio de apoios para lá. Lá, nunca me senti sozinha. Senti sempre um amor constante.

A ida agora à Austrália é pessoal, profissional ou como voluntária?
(Risos) É pessoal. No entanto, como soubemos que a responsável mundial pelas irmãs Franciscanas Missionárias de Maria é australiana, contactámos as irmãs franciscanas da Austrália para eu ir lá fazer uma sensibilização para o projeto Quero angariar algum apoio e fundos. Vou tentar também sensibilizar a comunidade portuguesa em Sidney. Vamos, por isso, fazer uma tradução do nosso blogue para facilitar esta internacionalização do projeto

O apoio que vão tentar angariar é para que dimensão do projeto?
É para o Centro de Moagem.

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