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“Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.”
7», Mário de Sá Carneiro, 1914)

E eu, por minha desgraça,
não sou eu nem outro nem ninguém …
Mestre», Fernando Pessoa – Álvaro
de Campos, 1928)


Abro com este título Futurista, uma pesquisa e crítica literária, logo depois de não ter conseguido ler na totalidade o «Evangelho segundo J. …» Saramago, escusando-me de fazer a sua análise para não cair noutra sátira a “Outro” judeu português. Descobri neste polémico livro, a importante dedicatória a Pilar, sua mulher. Vislumbrei um conto autobiográfico, nunca um romance.

Lembrei-me mas, positivamente, do Padre António Vieira e Fernando Pessoa, de Alberto Caeiro e «O Guardador de Rebanhos», e através deste poema na ligação paralela com a religião cristã, sobretudo, com “Jesus Cristo” pela Sua evocação, e ainda na dedicação a outro poeta parnasiano, Cesário Verde. É do “maior poeta” (1) modernista (A. Caeiro) a frase extraída desta sua “VIII ” “sinfonia” poética, e que transcrevo a parte fulcral do mesmo poema de 1914, quase titular: “Esta é a história de meu Menino Jesus.” Mas, conjuntamente, no trecho mais pessoal: “A Criança Eterna acompanha-me sempre.” E, ainda a referência intempestiva: “Um velho chamado José, que era carpinteiro, …”. Recordou-me José “serralheiro mecânico” (Saramago) mas, também S. José e Jesus, e naturalmente “Eu-Outro” Fernando Pessoa-Alberto Caeiro: “E há poetas que são artistas/ E trabalham nos seus versos/ Como um carpinteiro nas tábuas!…” (“XXXVI”).

Fernando Pessoa Futurista vive “geminado” com Alberto Caeiro, para além do seu íntimo amigo Mário de Sá Carneiro que lhe dedicou o poema em epígrafe («7»), também de 1914, e que é simultaneamente uma criança, um carpinteiro-poeta, enfim, outro imitador de Cristo e de Deus … . «O Guardador de Rebanhos», para além de ser outra magistral ode impressionista aplicada à “Natureza”, e ao poeta-deus-pagão “Orpheu”, traduz o mito panteísta pessoano de ser “Tudo” e “Todos”: “Deus é as flores e as árvores/ E os montes e sol e o luar, …”. Uma lição de teosofia sincretizada do paganismo oriental, e relativo ao jogo magistral e vibrantemente criativo entre Tempo-Espaço-Luz (Futurismo).

Apesar do heterónimo Alberto Caeiro traduzir uma incerta descrença em Deus, intimamente, Fernando António Nogueira Pessoa também “medita”, “pensa” e, finalmente “anda” “com Ele a toda a hora” (“V ”). Esta relação teológica nele “mesmo” Caeiro mas, também em Álvaro de Campos, ou dele “próprio” Fernando Pessoa, foi brilhantemente levantada em Tavira no «I Encontro Internacional Álvaro de Campos» em meados de outubro de 2010. E abriu-se outra nova fonte de estudo exegético acerca do poeta da «MENSAGEM», numa ligação religiosa cristã através do Futurismo, e que é de extrema importância para a história da literatura. Mas, também pela íntima relação bíblica ao seu “Christismo” e, por via do neo-paganismo pessoano. É a “ninguém” que Pessoa escreve o “Terceiro” poema, da “Terceira Parte”, em “Os Avisos” de «Mensagem» (sem não antes dedicar outros 2 poemas a “O Bandarra” e ao Padre “António Vieira”), e consagrados ao ignoto “Senhor” e “Rei”, revelando ser outro sebastianista messiânico. E, patenteando nesta forma literária, a condição estilística profética Futura de um Messianismo cristão latente.

A «BÍBLIA», tema sempre presente de “Arte Futura” (Futurismo) mas, “em português (coisa curiosa!) …” e, através doutro heterónimo ortodoxamente futurista (Álvaro de Campos), foi com certeza O Livro de cabeceira de Fernando Pessoa. 1934 é o ano em que Lhe dedica um extraordinário poema (“Ali não havia electricidade …”), e acerca da “Primeira Epístola aos Coríntios”.

A sua educação cristã e, no princípio da sua formação, no tal “Colégio de freiras” em Durban (África do Sul) é um facto, para além de ter frequentado muitas missas com a mãe, avó e tias, e por Lisboa também. Seria ainda outro facto “histórico” religioso, se não fosse invenção, a de um “tio padre” e que o “educou” no classicismo, quando encarnou A. de Campos algarvio. O “poeta é um fingidor…” mas, igualmente, o maior criador artístico. Álvaro de Campos, e na opinião crítica de Gaspar Simões, é “discípulo de Caeiro na aparência, reproduz a lição de Marinetti e de Walt Whitman” e, estes sim, também considerados poetas futuristas.

Vale a pena transcrever textualmente a sua “própria” confissão, e justificação interpretativa cristã, acerca da assembleia poética in «O Guardador de Rebanhos»:

Escrevi com sobressalto e repugnância o poema ´VIII` do «Guardador de Rebanhos», com a blasfémia infantil e o seu anti-espiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com quem vivo social e objectivamente, nem uso de blasfémia, nem sou anti-espiritualista. Alberto Caeiro, porém, como eu o concebi, é assim: assim pois tem ele de escrever, quer eu queira, quer não, quer eu pense como ele ou não.” (2)

Vitor Cantinho
Análise crítica e literária

Nota de rodapé: As passagens em “itálico”, e a cores, são expressões, termos poéticos ou excertos de poesias de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, e Ricardo Reis.

(1) Ricardo Reis do "Prefácio a Alberto Caeiro" in "FERNANDO PESSOA E O IDEAL NEO-PAGÃO", 52, II, p. 72.
(2) Fernando Pessoa in "Obra Poética e em Prosa", V.I, p.710.

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