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Obra de Nossa Senhora das Candeias quase há 45 anos no Algarve a recuperar menores em risco

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Nascida no Porto em 1958, a Obra de Nossa Senhora das Candeias (ONSC) chegou ao Algarve há quase 45 anos e tem sido a família de várias gerações de crianças sem família.

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Chegou à diocese algarvia pela mão do bispo que a ajudou a fundar na cidade invicta e que mais tarde, entre 1972 e 1977, veio a ser também bispo do Algarve.

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D. Florentino de Andrade e Silva tinha apoiado três senhoras – ligadas profissionalmente ao ensino e pertencentes à Ação Católica através da Juventude Escolar Católica Feminina (JECF) – a abrirem na Diocese do Porto um lar para acolher raparigas sujeitas a situações de risco por estarem longe da família e não terem onde ficar quando iam estudar para a cidade. Em 1963, a instituição passou a acolher crianças sem suporte familiar de ambos os sexos que ali começaram a ser entregues e assim nasceram os núcleos familiares que constituem o trabalho mais expressivo da ONSC.

Ao vir para o Algarve, D. Florentino de Andrade e Silva pediu que a instituição abrisse cá uma casa. “Pediu-nos para abrirmos uma creche em Olhão porque havia muitas conserveiras e, com as mães a trabalhar, os meninos ficavam todo o dia fechados numa sala com uma das mães a cudar deles”, conta ao Folha do Domingo Maria de Fátima Moreira, educadora de infância, que veio do Porto para abrir a creche e trabalhar com Maria de Lurdes Leite e Erika Leucht, responsáveis pela abertura do núcleo familiar do algarve, o terceiro no país, depois de Aveiro e Águeda.

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Embora não fazendo parte do grupo central das fundadoras da ONSC, esta professora de ascendência alemã, formada em Física e Química, depois de chegar ao Porto com apenas três anos com a família refugiada da II Guerra Mundial, conheceu mais tarde, no Liceu Rainha Santa Isabel daquela cidade de acolhimento, uma delas: Maria Carolina Furtado Martins. Integrou a seguir, e até ao seu falecimento em 2008, o grupo das responsáveis da obra, partilhando, como todas as outras, não só o seu ordenado para benefício daquele serviço de apoio a crianças em risco, como todos os seus bens, incluindo quintas.

A instituição – que além do Porto, Águeda e Olhão, está hoje também presente em Braga e Pinhel – até 1973 viveu do património e dos vencimentos das suas responsáveis e de donativos de amigos e beneméritos e só a partir desse ano começou a receber subsídios da Segurança Social.

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Maria de Fátima Moreira e Maria de Lurdes Leite, respetivamente de Paredes e de Ovar, tinham sido alunas de uma das fundadoras e acabaram por se tornarem também elas leigas consagradas da Sociedade de Vida Apostólica que a sustém e que começou por ser uma “Pia União”.

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“Vinha só por 15 dias para pôr as salas direitas”, recorda com graça sobre a vinda para Olhão, Maria de Fátima, que na altura tinha 24 anos e que ficou como responsável do núcleo algarvio, após a morte de Erika Leucht, que assegura ter sido “uma mulher muito boa, muito piedosa, muito amiga dos miúdos”. “A gente sentia que aquela era uma mulher de Deus”, acrescenta sobre a professora que fez estágio no Algarve para se poder efetivar em Olhão e chegou a dar aulas em Tavira, antes de pedir destacamento.

Primeiramente estiveram numa casa antiga na Avenida da República, em frente ao tribunal, destruída por um incêndio há cerca de 21 anos quando não estavam em casa. Depois passaram para outra, também antiga, perto dos correios, onde estiveram mais 23 anos até as construções de prédios contíguos começarem a abalar a estrutura da casa, o que levou a procurarem outra habitação.

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Encontraram então nos arredores da cidade o terreno, com 5.000 metros quadrados, onde construíram parte da casa que hoje acolhe o Núcleo Familiar de Nossa Senhora da Esperança, também designado como Lar de Infância e Juventude Casa de São Francisco, situado na Encosta do Brejo, em Brancanes. “Arranjámos esta casa que era muito mais pequena, mas vivemos aqui dois anos muito apertados porque éramos 30. O terreno estava todo abandonado e fomos construindo esta casa durante 10 anos porque não tínhamos dinheiro”, lembra Maria de Fátima, acrescentando que a construção, para além seu ordenado e do de Erika Leucht, contou ainda apoios particulares de “muita gente”. “O cónego Gilberto trabalhava na paróquia de Almancil e conseguiu muito”, sustenta, dando como exemplo a piscina e a relva oferecidas pelo filho do empresário André Jordan e a cozinha paga integralmente por um casal de estrangeiros. “Um dia um casal de alemães telefonou porque queriam oferecer a cozinha. Pagaram-nos a cozinha, uma câmara frigorífica e imensas coisas que foram surgindo”, lembra.

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Maria de Fátima recorda que o cónego Gilberto Soares Santos, falecido em 2012 e natural de Olhão, para além de ter sido um dos mentores do atual edifício da instituição, foi um dos seus grandes apoiantes e lembra que essa relação começou logo após a sua chegada a Olhão, particularmente à paróquia. “Estivemos à frente da catequese durante 30 anos”, conta, explicando que Gilberto Santos e João Chaves dos Santos, seu cunhado, recentemente ordenado diácono permanente, para além de serem acólitos, faziam parte do seu grupo de jovens. “Eram amigos como se fossem irmãos e todos os dias, depois da escola, iam à nossa casa tomar um chá. Nós fomos a família dele”, sustenta.

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A par da creche e da casa de acolhimento de crianças em risco, a ONSC criou também um jardim-escola, após ter chegado a Olhão. Maria de Fátima realça que também a creche e o jardim-escola, a funcionarem num diferente edifício em plena cidade de Olhão, contaram com importantes apoios de particulares como o de Antónia do Carmo Provisório, benemérita residente na freguesia de Benafim, no concelho de Loulé.

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Hoje, a instituição com 40 funcionários no total, tem 80 crianças no pré-escolar, 55 na creche e 35 no apoio ao estudo e 30 na casa de acolhimento. “Estamos aqui há mais de 40 anos a servir Olhão”, destaca Maria de Fátima, afirmando que a instituição é mais conhecida pelo trabalho social no jardim-escola e na creche que este ano teve mais de 60 inscrições e que precisa de sair do apartamento onde está para um espaço mais amplo. “Neste momento estamos em negociações para vermos se conseguimos passá-la para outro sítio”, contou.

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A estas valências acresce ainda um ateliê que “neste momento não faz nada para fora”. “Fazíamos cortinados, colchas e vendíamos em feiras”, conta Maria de Fátima, explicando tratar-se de uma fonte de angariação de fundos. Aquela responsável garante que as restantes valências ajudam a casa de acolhimento, a única que “tem sempre prejuízo”, não obstante o apoio da Segurança Social.

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Para além disso, a diretora explica ainda que as outras valências permitem gerar emprego para muitas das ex-utentes da instituição. “Na creche, no jardins-escola e na casa de acolhimento, as nossas raparigas são as primeiras a ser empregadas”, testemunha, realçando que o apoio da instituição se estende às famílias dos antigos utentes, sendo garante do seu sustento. “Em Olhão temos mais de 40 famílias já formadas”, refere, acrescentando que muitos dos jovens educados na instituição são hoje “profissionais competentes e úteis à sociedade”, alguns professores, enfermeiros, educadoras de infância, bancários, sendo que a ligação à instituição nunca se perde. “São pessoas que têm famílias normais e nós continuamos a ajudar os filhos. Quando eles nascem vão para a nossa creche”, conta, acrescentando que durante estas quase quatro décadas e meia “centenas de miúdos” passaram pela instituição, sendo que “alguns estão espalhados pelo mundo”. “Esta foi sempre uma parte positiva da vida deles”, testemunha Maria de Fátima sobre o trabalho da instituição na descontinuação de um ciclo de delinquência e degradação.

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Quando a ONSC veio para Olhão serviu para acolher crianças do Porto. Hoje acolhe praticamente só crianças algarvias. Institucionalizadas por ordem do tribunal, chegam com um historial de criminalidade e violência, vítimas de algumas das situações mais dramáticas da sociedade como violação, abusos sexuais, prostituição, maus tratos, negligência, tráfico e consumo de drogas, roubos, entre outras. “Estes miúdos, alguns deles, já tiveram uma vida que a gente só vê nos livros”, atira Maria de Fátima.

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“As famílias de hoje já não são as famílias de há 15 anos atrás”, garante, explicando que quando as crianças/jovens ali chegam já trazem muitas sinalizações e um processo de “muita gente a tentar trabalhar” com as suas famílias. Maria de Fátima lamenta, por isso, a falta de celeridade na institucionalização. “Quanto mais tarde, mais difícil é recuperar estes meninos”, adverte.

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Maria de Fátima salienta que a estabilidade, formação e segurança dos menores passa pelas rotinas e pela criação de hábitos e regras. “Estamos aqui não só não é para lhes dar de comer, nem vestir. A nossa instituição é para trabalhar a autonomia deles, para se integrarem na sociedade e serem pessoas bem formadas e felizes”, refere, acrescentando que esta autonomia é apoiada com atividades na comunidade, como a catequese paroquial, os escuteiros, o Conservatório, a banda filarmónica, a dança e o futebol. “Os jovens podem permanecer na instituição até aos 25 anos para finalização dos seus estudos. O importante é sentirem que pertencem a esta «família»”, salienta.

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Aquela responsável sublinha ainda que as crianças, adolescentes e jovens têm acesso aos cuidados básicos de saúde, tendo a instituição estabelecido um protocolo com o Hospital de Loulé e parcerias com especialidades clínicas como medicina dentária ou oftalmologia. “Temos vários miúdos que são seguidos na pedopsiquiatria. Temos cá psicólogo, mas muitas vezes há casos em que eles têm que ser seguidos fora”, observa.

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A vivenda que acolhe estes menores em risco nem parece uma instituição. Ainda que, com quartos divididos em duas zonas – uma para raparigas e outra para rapazes –, mesmo no seu interior o aspeto e ambiente é o de uma casa particular de uma qualquer família numerosa e a direção faz questão sublinhar que quer que seja assim.

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A diretora regozija-se com o apoio da Segurança Social, mas suspira por outros patrocínios que ajudem a instituição a realizar a sua nobre missão. “Temos imensa falta de uma carrinha”, garante, explicando que também aguardam a compra de um autocarro em melhores condições do que o antigo, entretanto vendido.

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