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Oliveira Martins salientou que João XXIII quis “uma Igreja aberta ao mundo e atenta aos sinais dos tempos”

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Conferência de Guilherme d’Oliveira Martins.
© Samuel Mendonça

«João XXIII surpreendeu todos e foi o Papa que afirmou ser necessário “abrir de par em par as janelas da Igreja e não ter medo das correntes de ar”» recordou Guilherme de Oliveira Martins, no passado domingo, na última conferência do Simpósio Vaticano II – 50 anos, organizado pela Diocese do Algarve.

Convocando um concílio, João XXIII garantiu, na opinião de Oliveira Martins, a renovação da Igreja, já que em causa não estava a conclusão do concílio anterior, mas a reflexão sobre uma nova ordem de trabalhos, como ficaria claro na declaração de convocatória da reunião. «Era preciso compreender as novas circunstâncias e perceber que a Igreja já não era eurocêntrica e teria de ser pensada como universal, uma Igreja aberta a todo o mundo, ao hemisfério sul, ao terceiro nundo», tendo havido por parte do Sumo Pontífice a «compreensão de que estávamos prestes a entrar na globalização», salientou Oliveira Martins. Houve a necessidade, sentida e afirmada pelo Papa na intervenção de abertura dos trabalhos conciliares, de «dar resposta aos sinais dos tempos» e de procurar refletir sobre «a relação da igreja com o mundo contemporâneo», disse. Esses sinais dos tempos «não eram apenas os que estavam ligados à relação de Deus com os homens», explicou o comunicador, «mas também os que implicavam compreender os acontecimentos do mundo contemporâneo, ter a perceção que a Igreja não pode ser indiferente ao que são os acontecimentos e que estes não nos podem ser indiferentes enquanto cristãos».

Este tema gerou alguma resistência e desconfiança nos primeiros tempos do Concílio. «Há um esquema de trabalho, o esquema nº 17, que é bastante controverso e o texto proposto é recusado na sua primeira versão», contou Oliveira Martins. «Mas o Papa subscreve uma encíclica – Pacen in terris –, que cai como uma bomba sobre o Concílio que dava os primeiros passos», revela e prossegue: «Ela vem dizer que é indispensável pronunciarmo-nos sobre a relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo», falando da fome, das guerras e conflitos, de problemas que a Organização das Nações Unidas (ONU) não conseguia (e não consegue) resolver. «Cada capítulo», salienta, «termina com a referência aos sinais dos tempos» e nela fica patente a ideia de que «direitos e deveres são faces da mesma moeda, não podendo uns ser mais valorizados que outros».

Esta encíclica introduziu, ainda, uma revolução na metodologia usada na escrita destes textos, já que não é dirigida somente aos cristãos, mas a todas as mulheres e homens de boa vontade. «A cidade grega era uma cidade em que apenas alguns tinham direitos de passagem», explicou o conferencista. «Com o cristianismo», concluiu, «essa conceção passa a ser inclusiva, ou seja, ninguém fica de fora dos direitos de cidade e de participação na cidade; a dignidade humana é de todos e para todos». Era necessário garantir, na perspetiva de João XXIII, que o Concílio buscaria a compreensão da «cidade contemporânea, das pessoas de carne e osso».

Este texto, que segundo o Presidente do Tribunal de Contas «está atual» e em relação ao qual «50 anos depois continuamos cegos, surdos e mudos», afirmaria o pensamento de João XXIII, impossibilitando a não inclusão destas temáticas na agenda de trabalhos. «O esquema 17 deu lugar ao 13 e a sua análise permitiu o surgimento da Gaudium et spes (Constituição resultante do Concílio)», que em conjunto com outros textos (como a encíclica Populorum progressio, redigida pelo Papa Paulo VI), nos faz compreender a relação da Igreja com o mundo, bem como as suas propostas de «promoção de uma justiça distributiva e que permita uma equidade na distribuição de recursos»

«Estes textos continuam profundamente atuais», destacou Oliveira Martins, pois apesar desta análise que fazem, «a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres agravou-se 20 vezes nos últimos anos e a crise o agravamento das desigualdades prejudica o desenvolvimento da economia, já que não há economia que funcione bem sem ter em consideração o respeito pela igualdade das pessoas».

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