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É também da “Patrologia” (Vida e obra dos “Pais da Igreja”) e do tempo dos principais apóstolos, com “Fílon” de Alexandria do século I, que tenho conhecimento da exegese bíblica através do “método alegórico”, e da fundação das primeiras escolas teológicas no ocidente. A “Didascália” em Alexandria (Egipto), é uma das primeiras “Scholae” ou “Collegiae” juntando-se à de Roma.

E perguntam os leitores para que nos servem estes conhecimentos? Naturalmente porque foi em “Ossonoba” (Faro) do século III, que o “primeiro” e não só “único” Bispo Vicente teve “continuação” evangelizadora, chefiando a nossa mais antiga “diocese” e, numa sucessão mais ancestral de outros Bispos, e relativa aos primeiros cristãos, do tempo de Diocleciano na vetusta Lusitânia. Porque paralelamente e no sítio de Milreu (Estoi), nascera também a primeira congregação cristã, muito anterior à época “bizantino-visigótica” do século V.

Teriam sido do século II, e segundo os nossos historiadores mais conceituados, que as primeiras comunidades cristãs aqui (Portugal) se estabeleceram. As suas assembleias fundaram-se também nas mais vetustas arquitecturas, que terão atingido “milagrosamente” os nossos dias. Seriam elas estabelecidas, quer em Basílicas (Basilicae) nas cidades, quer nas múltiplas “Domus-Ecclesiae” (Casas-Igreja) em aldeias, e desde muito cedo nos finais do século III? Hoje sei que a “Cidade” mas, também o “Campo”, foram testemunho do Evangelho nesses tempos, e ao mesmo tempo.

Não teria, seguramente, nascido o “Ovo” antes do “Galo”. Ambos são, curiosamente, símbolos bíblicos marcantes e determinados no contexto literário e alegórico.

Vicente de Ossonoba (atrás mencionado), assina um documento canónico importante resultante de “outro” concílio, desta vez em “Elíberi” (Elvira, Granada) e sem datação concisa, e que faz do nosso território junto com a Hispânia, uma das mais antigas e “principalis” comunidades protocristãs mundiais. O Bispo Ósio de Córdova chefia o Concílio de Eliberis na época da tetrarquia de Diocleciano, e é o segundo a assinar esse testemunho escrito histórico importantíssimo. Teve o ensejo muito depois, de ser “tutor” espiritual do “segundo” imperador cristão, Constantino o Grande, no primeiro quarto do século IV. Anteriormente, este ilustre cordovês ter-se-á encontrado com Vicente, e ainda em finais do século III e do tempo do imperador Diocleciano.

As “Assembleias”, traduzido do grego “Ecclesiae” (Eclésias), mais não são que as primeiras e “originais” unidades de fiéis, que se reuniam para o ensino exegético e filosófico, também de “origem hebraica”.

É através de Fílon judaizante, que conheceu pessoalmente em Roma o apóstolo S. Pedro, e ao princípio deste texto referenciado, que tenho conhecimento da fundação da Eclésia em Alexandria com relação, por sua vez, a S. Marcos evangelizador por essas paragens africanas. Este insigne hebreu (Fílon), de grande erudição, dedicou-se à vida e obra da(s) “Ecclesiae”, enquanto instituição, através de um conjunto de livros impar. As suas palavras e os títulos dos diversos volumes, referidos na principal obra de Eusébio, a «História Eclesiástica», e a partir deste meu texto assinalados em “itálico”, são bem elucidativos. “A Vida Contemplativa” e “Os Orantes” denunciam desde muito cedo uma existência monástica “fora de muros”, passando “a vida nos campos isolados e em jardins”. Os primeiros cristãos, para Fílon, tomavam as “suas refeições em comum” e, adoptavam um “estilo de vida” meditativo, e “entre a aurora e a tarde é todo ocupado” em “exercícios” de reflexão bíblica (ascese).

Não tenho dúvidas que, estas primeiras “seitas” religiosas têm um conteúdo pagão e gentio herdado do mundo helénico, e são ainda descritas utilizando a “alegoria” como “símbolo da natureza” e, necessariamente “oculta”. “Utilizam-nos como modelos de comportamento a imitar”, e essencialmente transmitidos através de magníficas parábolas, para propagar os ensinamentos das Santas Escrituras. “A exegese das Sagradas Letras faz-se entre eles por figuras ou alegorias” e, as Eclésias mais não são que o espaço físico e arquitectural de reunião, para essas prelecções de base retórica.

(continua)

Vítor Cantinho,
arquitecto e ensaísta

Bibliografia consultada:
Pe. António Vieira, "A Terra dos Homens".
B. Altaner e A. Stuiber, "Patrologia".
Eusébio de Cesaréia, "História Eclesiástica".

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