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Paço Episcopal de Faro abriu as portas ao público

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O Paço Episcopal de Faro abriu ontem as portas ao público para visitas.

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Na cerimónia, que teve lugar ao final da tarde no edifício que é um dos mais representativos da arquitetura chã no Algarve, o bispo do Algarve explicou a decisão de abrir a sua casa ao público. “A abertura do Paço a visitas obedece a um imperativo de ordem cultural, possibilitando a quem o desejar o conhecimento deste património que acompanha a cidade de Faro nestes últimos 340 anos. Não fazia sentido continuar a verificar-se um empobrecimento cultural provocado pela impossibilidade de o conhecer e de o desfrutar”, afirmou D. Manuel Quintas.

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“Para nós, Igreja do Algarve, este é também um modo genuíno de anunciar o evangelho a partir deste património que nos legaram os que nos precederam, dando a conhecer o seu modo peculiar de ser Igreja através da sua vivência e do seu testemunho da pessoa de Cristo”, prosseguiu o prelado, que apresentou o historial do edifício.

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D. Manuel Quintas lembrou que o propósito de disponibilizar o Paço Episcopal para visitas foi por si manifestado publicamente aquando da abertura da “Exposição para a Difusão do Conhecimento – Núcleo Histórico da Imprensa de Gutenberg e do Pentateuco de Faro”, patente na antiga capela do edifício em novembro passado. “Não foi um caminho fácil, nem de pouca monta, pelas intervenções que foi necessário realizar no sentido de criar as melhores condições para acolher os visitantes, atendendo ao cuidado, ao respeito e quase veneração, que esta casa secular nos merece”, considerou.

Aspeto dos azulejos antes do restauro

Nos últimos meses, o edifício esteve em obras de restauro ao nível da caixilharia e do gradeamento das janelas e também dos pavimentos que foram recuperados, mas há uns anos já tinha sido alvo de uma intervenção mais complexa de recuperação dos painéis de azulejo, paredes e cantarias muito danificados no primeiro piso devido a humidades e ao salitre. A cobertura e as fachadas também tinham sido recuperadas no ano 2000.

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Após admirar o átrio com os seus painéis recortados de azulejos, o painel alusivo à virtude teologal da caridade na sala à direita e o painel tardo-barroco, alusivo às restantes duas virtudes teologais – Fé e Esperança – e às virtudes cardeais – Prudência, Justiça e Fortaleza – no patamar de descanso das escadarias de acesso ao piso nobre, o visitante entra nas três salas superiores designadas “Sala da Unidade da Igreja” (primeira), “Galeria dos Bispos” (segunda) e “Antiga Sala do Trono” (última).

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Na segunda, para além de um conjunto de pinturas de alguns dos bispos cuja ação foi mais significativa, desde a transferência da sede do bispado para Faro (1577), é possível admirar, uma mitra e um báculo centenário, que D. Manuel explicou ter pertencido a D. António Barbosa Leão, bispo do Algarve entre 1907 e 1919, e uma maquete de uma estátua de D. Marcelino Franco, seu sucessor entre 1920 e 1955. Na terceira sala, estão expostos, para além de um conjunto de pinturas da coleção de arte sacra do Paço Episcopal, alguns exemplares de imaginária de pequeno porte, nomeadamente de Cristo, São Gonçalo de Lagos, São Sebastião e Santo António.

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“O que pusemos nas salas não é para distrair dos azulejos. O mais importante são os azulejos. Quisemos compor o ambiente”, justificou o bispo do Algarve, destacando a importância do conjunto azulejar do século XVIII de enorme riqueza cromática, mandado fazer por D. Frei Lourenço de Santa Maria, bispo do Algarve entre 1752 e 1783, quando reedificou e ampliou o edifício construído entre 1581-1585 por D. Afonso Castel-Branco, bispo do Algarve durante aquele período.

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“A temática destes azulejos deve-se, em meu entender, a dois acontecimentos ocorridos durante a vigência episcopal de D. Frei Lourenço de Santa Maria: o terramoto de 1755 – que obrigou à reedificação do Paço Episcopal, da qual estes azulejos são testemunho – e outro a que eu chamaria «terramoto» também, «terramoto» pessoal, sofrido por este bispo nos seus confrontos com o Marquês de Pombal”, afirmou, lembrando que o prelado chegou a estar exilado da diocese durante quatro anos e que os azulejos, de autoria atribuída a Domingos de Almeida, “refletem a comunhão do bispo do Algarve com o papa”.

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O vigário geral da Diocese do Algarve destacou que a abertura do edifício aconteceu primeiramente “por vontade do bispo” com apoio de uma equipa técnica da Câmara e do Museu Municipal de Faro. “Entendeu por bem, de há uns anos a esta parte, preparar esta casa para a abrir ao público, mesmo pondo em causa a sua privacidade”, realçou o cónego Carlos César Chantre, destacando que a iniciativa ocorreu num contexto de disponibilização do património diocesano ao público. “Começou com a abertura da antiga capela, agora passa para a própria residência do bispo e o atual bispo sonha que a antiga Tipografia União há de ser um dia o Museu da Imprensa. Queiram os responsáveis que mandam, ajudar-nos para que esse sonho se torne realidade”, afirmou.

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“Para pôr um património destes de pé e abrir ao público não é fácil. É preciso conservar e para isso é preciso gastar dinheiro, dinheiro que a diocese não tem. Gostaria a diocese e o bispo que as pessoas pudessem entrar livremente na casa, mas a verdade é que não temos dinheiro para manter. Então os turistas vão ter de pagar qualquer coisa para que isto continue aberto ao público”, prosseguiu.

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O ingresso para a visita de segunda a sábado, das 10h às 13h e das 14h às 18h, custará 2,5 euros, sendo a visita gratuita até aos 14 anos. Para grupos superiores a 15 pessoas, o valor é de 2 euros por pessoa e os estudantes até aos 25 anos e os visitantes com mais de 65 anos pagarão o mesmo valor.

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O vigário geral lembrou que “o Estado usurpou” o edifício em 1913 – entregando-o à Marinha que chegou a instalar no espaço da antiga capela um ginásio militar – e que a sua devolução à diocese ocorreu apenas na década de 1960.

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A diretora regional de Cultura lembrou que a etimologia da palavra bispo aponta para “alguém que guarda e preserva”. “O que estamos aqui a ver é precisamente essa preservação e esse cuidado que houve em guardar esta casa”, destacou Adriana Nogueira, regozijando-se com a sua “abertura a todos”. “Não está aberto apenas aos católicos, aos cristãos. Está aberto a todos aqueles que entendem que esta cultura é uma cultura nossa”, sustentou, considerando que “esta generosidade é um passo muito grande porque a Igreja tem um património muito grande, muito rico”. “E eu sei que, muitas vezes, não têm aquele dinheiro. Acima de tudo é rica em património, mas depois é preciso muito para o manter”, acrescentou.

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O presidente da Câmara de Faro também reforçou o mesmo aspeto. “Todos nós, que temos património, somos ricos, o problema é manter esse património. E o que estamos aqui a ver é exatamente isso. Foi feito um esforço muito grande, não digo de recuperação com este fim, mas para manter este edifício”, afirmou Rogério Bacalhau, lembrando que a manutenção do património edificado “não é fácil” e “implica um investimento e um cuidado muito grande”.

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Por isso mesmo defendeu a implementação de ingressos para a visita e criticou o “preconceito” nacional relacionado com a cobrança de entradas nos monumentos. “Vamos ao estrangeiro e pagamos 10, 15 ou 20 [euros], às vezes mais, para ver coisas que têm muito menos importância. Temos sempre este preconceito de que tudo o que temos deve ser gratuito. Ser gratuito significa não ter valor e nós temos de deixar de pensar dessa forma. É preciso ver que tudo isto tem custos e que quem visita tem que contribuir para esses custos”, considerou.

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O autarca regozijou-se assim com a abertura ao público do Paço Episcopal. “É mais um equipamento cultural que temos no concelho e isso deve-nos alegrar”, afirmou, considerando que “este é mais um passo para a afirmação cultural do concelho de Faro”.

A cerimónia, participada por largas dezenas de pessoas contou com a interpretação de duas peças de música sacra pelo coro de câmara da Sé de Faro, ‘Cantate Domino’.

Abertura Paço Episcopal de Faro

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