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Foto © Samuel Mendonça
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O escritor José Tolentino de Mendonça recebeu ontem o Grande Prémio de Literatura Associação Portuguesa de Escritores/Câmara Municipal de Loulé, na sua primeira edição, pelo seu livro “Que coisa são as nuvens” que reúne crónicas publicadas na coluna que assina semanalmente no jornal Expresso.

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Na cerimónia de entrega, que decorreu no salão nobre da Câmara Municipal de Loulé com a presença do presidente da Câmara de Loulé, Vitor Aleixo, e da diretora regional de Cultura do Algarve, Alexandra Gonçalves, o sacerdote afirmou que escrever crónicas “é aceitar um confronto com a própria realidade”. “É muito necessário fazer o gesto de levantar os olhos daquilo que nos parece o confuso da materialidade dos próprios acontecimentos, dos factos brutos da nossa pequena história e procurar outros pontos de vista, uma grandeza que, muitas vezes, se oculta no fragmento, no insignificante, naquilo que aparentemente não tem qualquer valor”, frisou.

Foto © Samuel Mendonça
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O escritor madeirense disse ser preciso “levantar os olhos e perguntar: «que coisa são as nuvens?»”, ou seja “ser capaz de abrir pausas para uma contemplação mais profunda, para os lugares que não têm resposta”. “O dever humilde de um escritor é também testemunhar a beleza possível, hipotética, latente e arrepiante que é nossa companheira de todos os dias, mesmo quando nos parece que, historicamente, estamos afundados na lama, no conflito e nos bloqueios históricos”, considerou Tolentino de Mendonça, acrescentando que “o escritor tem de dar ao seu tempo a emoção, o arrepio, que não é apenas uma coisa de pele, mas uma coisa muito mais profunda”. “O exercício da crónica é um momento de respiração muito curiosa porque me permite ser transfronteiriço. A crónica é o lugar para acolher o incidente e para partir dele com uma pergunta para descer mais profundamente e depois terminar rapidamente”, complementou.

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Manifestando a sua “grande gratidão” e “humildade” por esta distinção, o autor, que contou ter sido estimulado pela escritora algarvia Lídia Jorge para a escrita, disse que o prémio é também “um encorajamento para continuar”. “No fundo, este exercício que, muitas vezes, acontece na mesa da minha casa, uma tarde por semana, afinal é um exercício que interessa aos meus contemporâneos. Por isso, eu é que estou muito agradecido”, afirmou.

À comunicação social Tolentino de Mendonça disse ser “uma riqueza muito grande poder observar a vida na sua complexidade e encontrar fios inesperados para recontar o presente a partir de outros pontos de vista e perspetivas”. “Nesse sentido penso que a presença da literatura no mundo dos jornais e da comunicação social pode ser um contraponto muito interessante”, afirmou. “Cada vez mais, o que me define é ser um humano entre os outros humanos e essa singularidade de trazer uma pergunta. Como escritor, como teólogo, como cidadão aquilo que me define é transportar uma pergunta e abrir-me a uma pergunta. Até mais do que as respostas provisórias que fui encontrando, o que me fascina mais é a persistência dessa pergunta”, destacou.

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Dália Paulo, chefe da Divisão de Cultura e Património da Câmara Municipal de Loulé, explicou que o Grande Prémio de Literatura Associação Portuguesa de Escritores/Câmara Municipal de Loulé “pretende tornar-se numa referência nacional na divulgação da literatura e dos seus autores” e “destina-se a galardoar, anualmente, uma obra em português e de um autor português publicada em livro e em primeira edição em Portugal no ano anterior ao da sua entrega”. “Este ano abrimos uma exceção. Como era o primeiro prémio, concorreram livros de 2014 e 2015”, explicou sobre a distinção que teve um júri constituído por Casimiro de Brito, escritor algarvio, José Ribeiro Ferreira, professor catedrático da Universidade de Coimbra, e José Cândido Oliveira Martins, professor associado da Universidade Católica Portuguesa.

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O presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE) adiantou que o prémio surgiu “dada a proximidade das relações entre a APE e a CML” e que a “ideia” do mesmo nasceu do “engenho e capacidade” do jornalista algarvio Carlos Albino.

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“Na total liberdade da decisão, foi de forma unanime que se chegou à distinção que recai, pesadamente, sobre os ombros de José Tolentino de Mendonça”, afirmou José Manuel Mendes, considerando o galardoado uma “grande figura” da cultura nacional, “um poeta, um filósofo, um teólogo, um cronista, um pensador, uma pessoa singularíssima, rara”. “O conjunto de crónicas que se encontra reunido neste livro é exemplar pela grandeza e diversidade dos temas, pela profundidade da análise e pela qualidade e singularidade da escrita”, frisou.

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O presidente do júri destacou que o livro contém em si a “profundidade”, a “simplicidade” e a “seriedade” das matérias que o autor trabalhou. “O nosso município premiou um grande livro que pode ser lido com carinho, com entusiasmo e que pode ter a função máxima de um livro que é dar a um amigo”, considerou Casimiro de Brito, adiantando que houve cerca de 50 obras, algumas “de grande valor”, candidatas ao prémio.

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