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O padre Frederico de Lemos destacou, na sua reflexão sobre os desafios para a Igreja do atual tempo pandémico, que este “evidenciou a carência de adequação do estilo pastoral face à situação presente e futura”.

“Se calhar tínhamos uma pastoral pouco adequada ao tempo que estávamos a viver”, considerou, na Assembleia Diocesana do passado sábado para apresentação do Programa Pastoral deste ano 2020/2021, o sacerdote da comunidade jesuíta a trabalhar no Algarve.

Assembleia Diocesana da Igreja no Algarve na igreja de São Pedro do Mar, em Quarteira, para apresentação do Programa Pastoral 2020/2021

Posted by Folha do Domingo on Saturday, 19 September 2020

“Podemos dizer que está a acontecer uma espécie de apocalipse ou revelação. Ou seja, no meio de situações tão dramáticas como as que estamos a viver a nível universal, algumas coisas ficam mais claras sobre aquilo que estávamos a viver e, neste caso particular, a nossa fé”, prosseguiu no encontro que teve lugar na igreja de São Pedro do Mar, em Quarteira, com participação presencial reduzida a cerca de 70 responsáveis por causa da pandemia e transmissão em direto na página do jornal Folha do Domingo na rede social Facebook.

“Esta situação de pandemia revelou-nos algumas debilidades das nossas comunidades, das nossas formas de agir pastoralmente”, reforçou, considerando que os cristãos, embora “não inativos”, estiveram “muito tempo parados”. “Talvez nos falte mais reflexão de fundo sobre aquilo que poderá ser o futuro, com pandemia ou sem pandemia”, acrescentou.

O orador disse ter constatado a “fraca ligação”, mesmo em “comunidades aparentemente dinâmicas”, sobretudo a nível de crianças e de jovens. “Esta sensação agravou-se quando voltámos a ter eucaristias presenciais e durante os últimos meses vimos pouquíssimas famílias com crianças e com jovens. Isto foi tão óbvio que nos devia fazer pensar como é que estamos a lidar com as crianças e com os jovens”, alertou.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O sacerdote considera que, “pastoralmente, houve um esforço, real, significativo e com alguns frutos, de adaptação das várias comunidades paroquiais a continuarem com o contacto através dos meios digitais e afins”, mas defendeu que “em geral, a criatividade foi pouca” e que “talvez tenha havido uma desproporção naquilo que foram os esforços nestas comunicações”. “Parece que foi uma transposição do que já se fazia para novos meios de o fazer. Pareceu-me mais uma transposição do que uma renovação, aquilo que se fez”, lamentou.

“Pergunto-me se tivemos capacidade e imaginação para ter outras propostas de oração e comunhão sem ser a partir da liturgia eucarística. A desproporção dada à eucaristia em relação a outras formas de oração e de comunhão com Deus, mas também comunitária, deu-me que pensar”, prosseguiu, aconselhando, no futuro, a “dar mais importância a outras formas de pastoral” e desafiando a investir mais no trabalho com a juventude.

“Talvez a nossa pastoral já não possa ser a pastoral dos grandes números, mas uma pastoral dos pequenos números, onde as pessoas se reconhecem umas às outras”, sustentou, considerando “estes tempos revelaram dificuldades graves” na Igreja “com as lideranças de grupos e de comunidades”. “Tem a ver com o envelhecimento dos líderes e alguma rotina e pouca capacidade de reagir a situações que são radicalmente novas”, acrescentou, interrogando-se se, não obstante as “muitas reuniões canceladas”, estruturas eclesiais como os conselhos pastorais “continuaram a ser consultados, mesmo que à distância”.

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