O padre Miguel Lopes Neto disse ontem na defesa da sua tese de doutoramento ser necessário que a Igreja em Portugal “aposte numa alfabetização mediática dos cristãos”, em particular do clero. “Só assim pode haver uma presença cristã e ética no digital”, considerou o sacerdote da Diocese do Algarve na sessão que decorreu na Universidade de Huelva, em Espanha.
O sacerdote apresentou a defesa da sua tese de doutoramento, intitulada “Os Católicos e Redes Sociais: Competências Digitais para uma Vivência Judaico-Cristã no Digital: o Caso do Clero Português”, tendo recebido a classificação máxima de Summa Cum Laude por parte do tribunal constituído pelos professores Nelson Costa Ribeiro, da Universidade Católica Portuguesa; Marisa Ester Ruiz, da Universidade de la Matanza (Argentina); e Ángel Hernando Gomez, da Universidade de Huelva.
“Há obstáculos práticos e formativos para passar de uma compreensão instrumental do digital para a compreensão como espaço de presença humana e isso acontecerá com um esforço de alfabetização mediática do clero”, afirmou o doutorado, que integrou o Programa de Doutoramento Interuniversitário em Comunicação das Universidades de Huelva, Málaga, Sevilha e Cádis, considerando que “o grau de alfabetização mediática do clero só pode aumentar com a importância que se dá à formação, sobretudo de base, nos Seminários e nos cursos de Teologia”. “Em Portugal, os cursos de Teologia não têm qualquer disciplina de alfabetização mediática”, lamentou.
O sacerdote começou por explicar que o seu trabalho de investigação académica, levado a cabo nos últimos quatro anos, procurou “pôr fim à lacuna existente no quadro de competências digitais para a vivência cristã no ambiente digital” e ajudar a definir “como se pode transpor para ele os valores humanistas e cristãos que norteiam a sociedade ocidental e que foram inculturados pela Igreja Católica”.
“É necessário que o Cristianismo passe para o ambiente digital os valores que colocou na sociedade”, afirmou, considerando que “a Igreja tem de integrar as linguagens virtuais, digitais, participativas, promovendo essa participação ética e culturalmente boa para trazer para o digital os valores cristãos”.
O padre Miguel Neto disse ser necessária a formação do clero e das comunidades para não haver manipulação de algoritmos, bolhas, tendências extremistas e para que haja uma alfabetização mediática para os valores, centrada em conhecimento, compreensão e expressão para promover um diálogo genuíno no digital.
O sacerdote disse que entre as “áreas-chave para desenvolver a alfabetização mediática do clero”, “a principal é combater a desinformação e o discurso de ódio”. Por outro lado, salientou ainda a necessidade de “promover a dimensão ética e o conhecimento dos algoritmos”, a “alfabetização dos dados” e o “conhecimento do que é a política e indústria mediática”, ou seja, “o que está por detrás da indústria, quem são os donos das plataformas, como é o processo de produção, qual a linguagem específica para o digital e como se pode obter boa informação”.
“Temos de ter a capacidade de interpretar os conteúdos mediáticos, analisar as ideologias, segmentar as audiências. O clero precisa dominar as ferramentas tecnológicas e as linguagens mediáticas para desenvolver habilidades críticas para identificar o que é bom e o que é mau”, disse com base no estudo sobre o clero português, realizado em 2021 e 2023, cuja taxa de resposta obtida ao questionário correspondeu a 25% da amostra.
O padre Miguel Neto, que procurou obter evidência empírica sobre o grau de alfabetização digital e mediática do clero católico português, começou por lamentar que o conceito de alfabetização mediática seja “muitas vezes confundido pela Igreja como respeitante ao uso e conhecimento de software e hardware”, explicando que “a alfabetização mediática não é só o acesso funcional aos meios”. “É também a capacidade critica para analisar, evoluir e produzir conteúdos em múltiplos formatos e plataformas”, sustentou.
“Temos de pensar numa estratégia de comunicação com reflexão sobre as implicações éticas para promover este ecossistema digital em que nos movemos com vista ao humanismo e a uma presença ética e cristã no digital”, aconselhou, defendendo: “só esse uso responsável das tecnologias é que nos permitirá ajudar a distinguir a informação verdadeira da desinformação”.
O doutorado evidenciou assim que “a alfabetização mediática é uma condição essencial para uma participação de cidadania nos ambientes digitais, para lidar com o crescimento das redes e plataformas e para reconfigurar a prática da expressão, de informação, comunicação e compreensão da realidade social atual”.
“Não é só a dimensão instrumental ou técnica, mas o desenvolvimento das competências analíticas que nos permitem interpretar as linguagens, os algoritmos, os filtros personalizados do tribalismo digital e as câmaras de eco para fazer frente à desinformação e aos discursos de ódio que muitas vezes existem com vista à formação dos prosumers [indivíduos que, simultaneamente, consomem e produzem] conscientes, bons cidadãos que é algo imprescindível à participação democrática e para a manutenção da democracia e a um uso ético do digital”, acrescentou, aludindo à defesa da “autonomia das pessoas” e à promoção de uma “cidadania digital humanista e cristã”.
O sacerdote alertou que “a comunidade digital redefiniu toda a noção de comunidade no ambiente físico e no ambiente digital porque deixou de ser uma comunidade geográfica, territorial para passar a ser uma comunidade relacional, simbólica, interativa, com vínculos emocionais muito fortes, interesses partilhados e uma participação online com sentido de pertença”.
“Isso favorece os laços sociais, a construção de identidades, uma democratização do acesso ao conhecimento e uma troca das dinâmicas de socialização e aprendizagem”, prosseguiu, acrescentado ter havido “uma passagem do catolicismo de massas, de grupo, para um catolicismo de multi-indivíduos conectados que pode levar a um processo de individualização e haver uma tensão comunitária”.
O sacerdote advertiu, por isso, que “tem de haver discernimento para a construção de ligações sociais e comunitárias no digital” e falou da exigência de uma “presença testemunhal”, alertando que “uma exposição de fé não é só a difusão de conteúdos religiosos”. “Exige autenticidade, coerência de vida e capacidade de construir comunidades no ambiente digital”, reforçou.
O padre Miguel Neto defendeu ser “necessária uma educomunicação cristã no digital, não só para a Igreja, mas para o mundo” e desejou que este seu trabalho de investigação contribua “para que a Igreja possa ajudar o digital a ser mais humano”.
O padre Miguel Neto é o terceiro sacerdote doutorado no clero algarvio, depois do padre António Manuel Martins e do cónego Mário de Sousa.










