O padre Pedro Manuel, sacerdote da Diocese do Algarve, concluiu o Mestrado em Discernimento Vocacional e Acompanhamento Espiritual da Escola de Formadores da Universidade Pontifícia Comillas, em Salamanca (Espanha), tendo apresentado e entregue a memória final (dissertação), respetivamente nos passados dias 10 e 18 de junho.
O sacerdote matriculou-se em 2011 no curso composto por três etapas. Entre 2011 e 2013 teve de realizar 80 horas de acompanhamento pessoal de psicoterapia – 40 no primeiro ano e 40 no segundo – para ser admitido. De seguida completou a segunda etapa, a componente académica, ao longo de três verões (2012, 2013 e 2014) a terceira foi constituída pelos acompanhamentos que fez.
Foi exatamente a esta fase derradeira que se dedicou neste último ano. “Cada relatório é escrito, apresentado e defendido. Depois é entregue como resposta final, uma informação verbal de acompanhamento à pessoa acompanhada”, explicou ao Folha do Domingo, acrescentando que a memória final de síntese do curso incluiu “algumas áreas da psicologia evolutiva, de desenvolvimento moral e também de dinâmica familiar, tudo isto para apresentar qual é o itinerário que um jovem vocacionado segue até uma resposta consciente e livre”.
“O contexto daquilo que faço é a partir da entrevista de crescimento vocacional e da aplicação de testes projetivos, procurar ajudar a pessoa a fazer um caminho de discernimento. Por exemplo, o trabalho pode levar a que, neste acompanhamento, façamos um relatório prático de 60 páginas sobre uma pessoa. E depois, com base nesse relatório, procuramos ajudá-la a que se conheça melhor, partindo de uma dinâmica criada por um jesuíta, o Luigi Maria Rulla”, desenvolveu.
“Foi muito com base nessa antropologia da vocação cristã que trabalhei e me dediquei, sobretudo este ano, a analisar casos concretos para ajudar pessoas concretas, nomeadamente de outras dioceses e de congregações religiosas no discernimento vocacional que é previsto por altura da etapa da formação”, acrescentou.
“O curso ‘Escola de Formadores’ objetivamente mudou a minha vida como homem e como padre e acho que me pode ajudar a ajudar outras pessoas”, referiu ainda o padre Pedro Manuel, explicando que tenciona publicar a memória final. “A partir de setembro vou trabalhar nessa publicação porque acho que está ali uma síntese de pistas que podem ajudar formadores no acompanhamento vocacional de rapazes e raparigas”, considerou, explicando que ficou “encantado” pelo curso quando há 14 anos teve hipótese de o iniciar.
Na sua dissertação explica que a sua reflexão e estudo aprofundado tiveram “um objetivo claro”: “olhar a pessoa na sua totalidade e caminhar na direção de uma liberdade cada vez maior na opção vocacional, permitindo que o chamado desenvolva uma autêntica liberdade interior, com consequências concretas na configuração da sua vida com a vida de Jesus Cristo”.
“No primeiro capítulo procuramos apresentar as principais teorias e perspetivas psicológicas que fundamentam uma coerente Psicologia do Desenvolvimento da criança e do adolescente, numa perspetiva evolutiva, bem como os elementos essenciais do seu desenvolvimento moral. O segundo capítulo aborda aquilo que pode ser considerado o coração da Escola de Formadores: a Antropologia da Vocação Cristã. É a partir desta disciplina que se desenvolve toda a dinâmica da avaliação vocacional, da qual decorrem as diferentes propostas de acompanhamento vocacional e espiritual apresentadas ao longo da nossa reflexão”, prossegue.
O terceiro capítulo é “dedicado à Psicologia Social e às dinâmicas de grupo, áreas que ajudam a compreender de forma particularmente relevante a vida comunitária em geral e, de modo especial, a realidade das comunidades religiosas e formativas”. “Neste capítulo desenvolvemos ainda a temática da Psicodinâmica da Família, que nos abre horizontes para a compreensão de uma dimensão objetiva e fundamental da história de vida de cada candidato que acompanhamos”, refere a memória final.
“Por fim, no quarto capítulo, procurei aplicar as matérias estudadas ao trabalho apostólico a que me dediquei durante muitos anos, primeiro de forma exclusiva e, posteriormente, de forma partilhada: o Ano Propedêutico. Este ano formativo, tornado obrigatório pela nova Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, constitui uma oportunidade privilegiada de discernimento e acompanhamento dos jovens candidatos ao sacerdócio. A reflexão desenvolvida parte sobretudo da disciplina de Desenvolvimento Moral, enriquecida pelos contributos transversais das restantes áreas de estudo”, acrescenta ainda.
O sacerdote agradece ainda a D. Manuel Quintas e ao padre Bruno Valente. “O senhor bispo foi muito generoso comigo. Disse que o padre Bruno teria disponibilidade total para trabalhar comigo. Entendemo-nos muito bem como equipa e o nosso trabalho paroquial enquanto equipa funcionou muitíssimo bem. Ele foi muito disponível, revelou-se um bom pastor, muito à imagem de Jesus, como eu acho que devem ser os bons pastores”, afirmou.
Ainda assim, a conclusão da formação impôs-se como exigente porque teve de ser articulada com a paroquialidade das suas três paróquias e os serviços a nível diocesano. “Cada mês estava 15 dias e nalguns meses estive três semanas fora. Procurei vir quase sempre ao fim de semana a Portugal, porque mantinha sobretudo as atividades da catequese, das paróquias e de tudo o mais. Mantive mais ou menos as atividades todas. Houve alguns fins de semana, poucos, que não vim. Fiz muitos quilómetros e, fisicamente, foi muito duro, mas foi mesmo um grande amor e voltaria a fazer porque tive muito tempo para mergulhar na psicologia do acompanhamento e, mais ou menos, para ler tudo o que foi saindo nos últimos tempos na área do acompanhamento vocacional e dos padres acabados de ordenar e sacerdotes em crise”, contou.
O sacerdote adianta que concorreu agora, tendo já sido aceite, a outra especialização no âmbito do acompanhamento dos primeiros anos do ministério sacerdotal, que realizará de forma híbrida, presencial e online, também em Salamanca. “A primeira foi muito a base da psicologia e esta será mais no âmbito da pastoral e do direito”, diferenciou.
O padre Pedro Manuel, que esteve sempre muito ligado na diocese à formação na área das vocações, explica que nunca deixou de trabalhar nessa vertente, seja com congregações religiosas, seja com dioceses que o tenham solicitado.










