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Padre Pedro Manuel lembrou a “experiência de Igreja” que viveu em 2006 em Angola

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O padre Pedro Manuel lembrou no passado dia 17 deste mês a experiência missionária que realizou em Angola em 2006, durante quase dois meses, quando ainda era seminarista e que na altura testemunhou em entrevista ao Folha do Domingo.

O sacerdote foi o primeiro convidado a apresentar o seu testemunho no âmbito do programa da exposição missionária itinerante que está patente na baixa de Faro desde o dia 15 deste mês.

“Como experiência de Igreja, foi das experiências mais bonitas que tive. Há outras experiências bonitas e grandes que, efetivamente, me marcaram muito, mas como experiência de Igreja – e, sobretudo, de uma Igreja pobre em meios, mas rica em muitas coisas que nós aqui não temos –, foi uma experiência para mim”, garantiu o orador ao recordar a missão em Kalandula, na diocese de Malanje, em pleno Centro Norte de Angola, com uma dimensão territorial semelhante à de Portugal.

Não obstante ter tido na altura “alguma dificuldade em reconhecer o que é que Deus queria” de si e querer perceber “que tipo de padre é que Deus queria” que fosse, o sacerdote realçou que quis também realizar aquela missão “para experimentar a Igreja angolana” e que, por isso, a mesma “valeu muito pela experiência”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O padre Pedro Manuel garantiu então que “qualquer igreja em África ganha pela celebração”. “E pela celebração com a Igreja-pessoa, porque a igreja-edifício quase não há”, precisou, lembrando que o país estava em 2006 a refazer-se da guerra que “era memória ainda muito recente” não apenas nos edifícios destruídos. “Por exemplo, atirar um livro para cima da secretária era motivo suficiente para os alunos se colocarem debaixo da mesa”, contou, lembrando que foi dar aulas de Catecismo da Igreja Católica a 34 estudantes do ano propedêutico dos 74 que o Seminário de Malanje tinha na altura.

“A igreja (edifício) desapareceu, mas a Igreja-pessoa continuou a reunir-se sempre no mesmo sítio”, destacou, lembrando que chegou a participar em celebrações de ordenações sacerdotais na rua. “Uma delas começou às 9h e terminou às 13h, com a participação de vários milhares de pessoas. E ninguém se sentia cansado”, contou, acrescentando que durante a semana ninguém ia trabalhar sem antes participar na eucaristia. “As igrejas, aí às 5h30, 6h, estão cheias de gente”, sustentou.

O missionário explicou que em Kalandula, a missão onde esteve mais tempo, estava “tudo destruído, sem estradas”. Em Malanje, o cenário era idêntico. “Era uma cidade do pós-guerra. Não havia uma estrada capaz, não havia água canalizada e só havia luz nalguns pontos da cidade”, recordou, acrescentando que “o hospital de Malanje, mais ou menos do tamanho do hospital de Faro, funcionava sem água canalizada e, de vez em quando, tinha luz”.

O padre Pedro Manuel explicou que, durante a guerra, “as missões funcionaram sempre como pontos de segurança, uma espécie de campo de refugiados e, à partida, ali não se atacava”. “Havia gerador lá em casa [Seminário] que dava à luz das 18h às 20h, mas muitas vezes tinha que se apagar porque quem tinha luz quase sempre eram as forças da UNITA e então o MPLA atacava”, prosseguiu.

O sacerdote testemunhou que “os portugueses que ficaram durante a guerra eram respeitadíssimos” e “olhados como angolanos”. “Os outros, não. Por exemplo nós, que íamos de fora, éramos sempre olhados como o colonizador”, distinguiu.

Não obstante reconhecer e ressalvar que a missão é onde se está, o missionário considerou que os tipos de missão são diferentes. “O Algarve é terra de missão, mas não é a mesma missão porque é diferente a gente pregar a barrigas cheias de pregar a barrigas vazias, pregar a pessoas que sabem tudo o pregar a quem não sabe nada, pregar a quem já teve tudo ou pregar a quem nunca teve nada”, diferenciou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“É bom que a gente não esqueça que estas pessoas que estão lá continuam a precisar muito de nós. Efetivamente, estes países que sofreram guerras coloniais e a seguir guerras civis por causa do poder económico que podem vir a ter, serão sempre países de missão porque o desenvolvimento e a qualidade nunca chegarão ao exemplo que temos na Europa”, observou.

O sacerdote constatou que Angola “levou mais de 30 anos a destruir e, por isso, levará seguramente muito mais de 30 a reconstituir”. “E reconstruir as paredes, se calhar, até é mais fácil, agora reconstruir as pessoas, a alma do povo…”, afirmou, evidenciando a responsabilidade dos portugueses. “A Guerra Civil começou muito pelo tipo de descolonização que nós não fizemos. A Guerra Colonial começa pela nossa incapacidade de lhes dar autonomia”, criticou, considerando que a “riqueza do povo angolano” reside numa capacidade que lhe deixou os conflitos armados: “a guerra habituou a que tivesse sempre de recomeçar”.

A exposição, com entrada livre, que está aberta todos os dias das 10h às 22h na rua D. Francisco Gomes, junto ao Café Aliança, tem contado com outros testemunhos de missionários algarvios e contará ainda no dia 25 com o do padre Miguel Neto, missionário em Timor em 2006, e, no dia do encerramento, 28 de julho, com o do bispo do Algarve, que foi missionário em Moçambique entre 1971 e 1973 e em Madagáscar durante a década de 1990 e que está agora em Angola.

O programa da exposição tem sido ainda enriquecido com expressões culturais de diversos países como o Brasil ou a Venezuela.

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