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Foto © Samuel Mendonça

Referindo-se aos “desafios que o ambiente digital coloca à pastoral”, o padre António Spadaro disse ontem ao clero do sul que é preciso passar da “pastoral da resposta” à “pastoral da pergunta”, da “pastoral centrada nos conteúdos” à “pastoral centrada nas pessoas” e “da pastoral da transmissão da fé” à “pastoral da partilha e do testemunho”.

O diretor da revista ‘La Civiltà Cattolica’, que é também consultor do Conselho Pontifício para a Cultura, sublinhou na atualização do clero das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, que está a decorrer no hotel Jupiter em Portimão, que a Igreja é desafiada a “repensar a atitude” com que anuncia o evangelho e exortou à “evangelização da pergunta”.

“Toda a rede é um mundo de respostas. O risco para o mundo cristão é que o anúncio do evangelho seja uma resposta entre tantas outras e, às vezes, apresentada de uma maneira não muito atraente. A nossa pastoral, por isso mesmo, está em crise porque é uma pastoral de respostas e as pessoas já não estão interessadas nas nossas repostas”, advertiu, destacando que a pastoral da Igreja está “plasmada pela teologia dos anos 70”.

Neste sentido considerou que “talvez este seja o momento para olhar o evangelho de um outro ponto de vista”. “Não como o livro que contém todas as respostas para as perguntas do homem, mas como o livro que contém as respostas fundamentais do homem”, concretizou, destacando que “isto muda completamente a perspetiva”.

Na sua segunda conferência naquela formação do clero, sobre o tema “Desafios pastorais da cultura digital”, o padre Antonio Spadaro alertou igualmente para o “risco” de “apresentar a Igreja como um contentor de informações da fé” num tempo em que “as programações são substituídas pela procura pessoal”. “A Igreja pode tornar-se numa «televisão» que fala sem que ninguém a ouça”, advertiu.

Foto © Samuel Mendonça

O sacerdote jesuíta evidenciou que atualmente “comunicar não significa só transmitir, mas partilhar” informação e que essa foi a “revolução das redes sociais”. “A base relacional do conhecimento em rede é fundamental”, sustentou, alertando que também “a fé hoje não se pode só transmitir”, mas “difunde-se por testemunho e por partilha”. “O testemunho não se faz com «bombardeamento» de mensagens religiosas, mas com a partilha pessoal. É a partilha que permite difundir o evangelho e não apenas a transmissão”, acrescentou o sacerdote italiano.

O orador frisou que “a experiência da rede não é virtual” mas “real”, porque “não há um mundo virtual e um mundo real” mas “um mundo físico e um mundo digital”. “Os dois âmbitos da experiência são diferentes, mas são reais”, afirmou, ressalvando não ser a mediação tecnológica que faz a realidade da experiência.

Neste sentido alertou que “a rede não é um obstáculo, mas um lugar onde se exprime a espiritualidade do homem”, sublinhando haver uma “ligação profunda entre a tecnologia e a espiritualidade”.

Antonio Spadaro disse ainda ao clero que o “desafio não é afastar as pessoas da experiência digital, mas ajudá-las a vivê-la de maneira plena e integrada”.

A atualização do clero das dioceses do sul conta com cerca de 120 participantes, incluindo, para além dos bispos das quatro dioceses, o bispo emérito da Diocese de Singüenza-Guadalajara (Espanha), D. José Sánchez González, que também está a participar.

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