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Logo na primeira missa a que presidiu, no Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia em que chegou a Portugal (11 de Maio), o Papa alertou para os riscos do desaparecimento da fé num país de maioria católica que se encontra em profunda mutação. “Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista”, indicou. Bento XVI admitiu que se colocou “uma confiança talvez excessiva nas estruturas e programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções”.

Já em Fátima, voltou a dizer o mesmo quando presidia à recitação do rosário, na noite do dia 12 de Maio. O Papa considerou que a Igreja tem de confrontar-se com o facto de, no nosso mundo, a fé correr o “perigo de apagar-se”, pedindo aos fiéis que assumam publicamente as suas convicções.

“No nosso tempo, em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente”, disse.

Essa exortação já a tinha deixado anteriormente às cerca de 100 mil pessoas que encheram por completo a praça de Lisboa que não conseguiu comportar quase outras tantas que ali queriam também ter lugar quando apontou que “a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia e na política”.

Também em Fátima, perante cerca de 300 mil fiéis que o acompanhavam na recitação do rosário, renovou o apelo aos católicos. “Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé, fazendo resplandecer aos olhos dos vossos contemporâneos a luz de Cristo”, pediu.

No mesmo dia 12 de Maio, logo de manhã, no encontro com quase 1500 agentes da cultura que teve lugar ainda em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, foi essa mesma exortação que quis deixar no final quando pediu aos presentes: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”.

Na mesma linha de pensamento, na missa do dia 13 de Maio, em Fátima, o Papa lembrou os três Pastorinhos, apresentando-os como “exemplo e estímulo” para fazer da vida “uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus”. “Então eram só três cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna”, disse.

Em contraposição Bento XVI lamentou em Fátima a existência de “crentes envergonhados” na Igreja Católica, que contribuem para um “silêncio da fé” nos âmbitos políticos, económicos e mesmo da comunicação social.

Falando na tarde desse mesmo dia aos Bispos de Portugal, o Papa apelou a “verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo”.

Nesse sentido, Bento XVI voltou a chamar os leigos a assumirem responsabilidade, em especial perante “políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta monocultural, com menosprezo pela dimensão religiosa e contemplativa da vida”. “Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã”, lamentou.

O Papa pediu aos Bispos que deixem sempre um “estímulo e palavra esclarecedora” a todos os que “defendem com coragem um pensamento católico vigoroso e fiel ao Magistério”.

A este respeito, o Papa destacou a necessidade de manter viva “a dimensão profética sem mordaças no cenário do mundo actual”. “No sentir de muitos, a fé católica deixa de ser património comum da sociedade e, frequentemente, vê-se como uma semente insidiada e ofuscada por «divindades» e senhores deste mundo”, alertou.

Bento XVI considera que, para superar esta situação, não bastam discursos ou “apelos morais”, mas gestos concretos. “Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho dele”, sublinhou.

Já no último dia da visita (14 de Maio), no Porto, o Papa voltou a acentuar este aspecto do testemunho de fé, com um enfoque especial sobre a dimensão missionária do mesmo, motivado certamente pela dinâmica da «Missão 2010» que a Diocese do Porto está a viver. Na última Eucaristia a presidiu, voltou a pedir aos cristãos que não se esqueçam de ser testemunhas, sublinhando que «o cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário de Cristo enviado no mundo», sem impor, mas propondo, levando «a razão da esperança» a quem a pede, mesmo a «quem pareça que não». «Esta é a missão inadiável de cada comunidade eclesial: receber Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situações de definhamento e morte se transformem em ocasiões de crescimento e vida», sublinhou Bento XVI.
Falando para uma Avenida dos Aliados repleta que não desmobilizou apesar da chuva que se fazia sentir, estimando-se em cerca de 120 mil pessoas presentes, Bento XVI realçou que as expectativas do mundo e o Evangelho se cruzam na «irrecusável missão» que compete aos cristãos, sem impor, mas propondo sempre.

Lembrou ainda que actualmente nada pode ser tomado como certo ou seguro e que o campo da missão não se restringe «segundo considerações geográficas».

A missão é necessária também «nos âmbitos sócio-culturais e sobretudo nos corações que são os principais destinatários da actividade missionária», concluiu.

Redacção com Ecclesia

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