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Foto © Samuel Mendonça

O pároco de Loulé diz que o “apelo de reconstrução e revalorização” para que o culto à Mãe Soberana possa ter o “lugar merecido” tem de incluir um “diálogo muito franco e positivo” com a cultura, com os não crentes e com “os que se sentem tocados”.

“A Igreja quer, como Nossa Senhora, abraçar todos, não apenas aqueles que celebram o culto dentro da casa, mas todos aqueles que, mesmo sem crer em Deus, acreditam tanto na Mãe e a procuram tanto. E nós o que desejamos é continuar a valorizar a dimensão do culto, da espiritualidade, mas também tornar mais aberto um diálogo muito franco e positivo com a cultura, com os escritores, com os músicos, com os não crentes, com os que se sentem tocados, trazê-los à nossa casa para partilharmos experiências”, afirmou o padre Carlos de Aquino no passado domingo no encontro com a escritora Lídia Jorge na igreja de São Francisco, no qual desafiou a escritora algarvia a escrever um livro que inclua o culto à Mãe Soberana.

“Sou muito sensível também aos outros que são tocados pelo divino de outra maneira e esses também me interessam e também tocam o meu coração. Há aqui uma dimensão muito feminina porque a Senhora é Mãe e a Igreja também. Há aqui uma maternidade, um feminino a valorizar. Não vamos institucionalizar o culto ou criar cultos novos porque há muita expressão que é natural, que é espontânea e que brota do coração, é a surpresa do amor. Mas também é verdade que podemos reconstruir e revalorizar mais essas expressões desta Igreja em saída para chegarmos, como Nossa Senhora, perto daqueles que não vêm à casa, mas que a sentem como casa”, prosseguiu.

Neste sentido, o sacerdote contou ter sido este ano recuperada a tradição, “vivida durante imensos anos”, da visita da coroa de Nossa Senhora à casa das famílias e às instituições. “É um gesto muito bonito e evangelizador, por isso o recuperámos este ano. É um gesto que revalorizará, certamente, também o culto de Nossa Senhora, Mãe Soberana”, acrescentou.

O prior, que prestou “justa homenagem aos irmãos sacerdotes que construíram as comunidades e a dinamização do culto da Mãe Soberana” e teve “uma palavra de estima aos homens do andor pelo esforço enorme de fronteira entre o humanismo e o Cristianismo”, disse que os principais desafios são os da “valorização espiritual do culto” e o da “valorização dos espaços”. “Está a tratar-se, a nível da diocese, do reconhecimento público daquele espaço como santuário. Isto será anunciado no decorrer das festas deste ano”, anunciou, advertindo que “não é apenas um proforma, um decreto”. “Isso valoriza o espaço e ao valorizar o espaço, valoriza o culto, e ao valorizar o culto é um desafio para nós na espiritualidade, nas celebrações, na alegria com que, a partir de agora, devemos dar importância àquele espaço”, alertou.

Recorde-se que a Diocese do Algarve também já solicitou à Santa Sé que Nossa Senhora da Piedade, popularmente conhecida como Mãe Soberana, seja declarada sua co-padroeira, juntamente com o diácono e mártir, São Vicente, e o processo está a seguir os trâmites normais.

Já foi também iniciado o processo de integração da festa da Mãe Soberana no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Horácio Ferreira, um dos homens que transportou o andor durante mais de 40 anos, explicou disse que “é muito difícil explicar como é que se consegue lá chegar”. “As pessoas perguntam, muitas vezes, o que é preciso para se ser homem do andor. Não há nenhum «caderno de encargos» para explicar as caraterísticas. O homem do andor é alguém que, primeiro, mostra interesse em pegar [no andor]. Penso que isso é um pouco a chave para se ser homem do andor”, sustentou, referindo-se também às carateristicas físicas naturalmente requeridas. “De facto, o andor é algo que pesa e deixa marca no corpo dos homens que o transportam. É um sacrifício grande”, testemunhou, acrescentando que o homem do andor tem que ser “alguém que quer participar neste sacrifício pela Mãe Soberana, acreditando que a Mãe faz alguma coisa”.

Horário Ferreira disse ainda que alguns dos homens do andor “não são muitos frequentadores da Igreja mas são homens com um fundo cristão e católico e acreditam todos eles que a Mãe põe a mão” sobre todos eles. “É quase inexplicável a alegria que sentimos quando o dever está cumprido e levámos o andor de Nossa Senhora a sua casa. É um sentido vitória e uma alegria interior”, contou.

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