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Primeiro orador num ciclo de conferências promovido pelo Colégio de Nossa Senhora do Alto, em Faro, sobre o Ano da Fé, proclamado pelo Papa para toda a Igreja de outubro de 2012 a novembro de 2013, o sacerdote afirmou que “o Deus que vem pôr tudo na ordem e na linha não é o Deus de Jesus Cristo”. “O grande poder de Deus está em sair d’Ele próprio para vir ao nosso encontro, fazendo-se nada para que recuperemos a dignidade com que originalmente Ele nos criou”, sustentou na conferência que procurou explicar a oração do credo e que teve como tema “Creio em Deus Pai”.

O conferencista explicou assim aos educadores presentes que “o poder de Deus é, acima de tudo, amor”, traduzido depois em “bondade, serviço, entrega e doação”. “Deus não ama só os que fazem bem, ama-nos a todos como filhos”, afirmou, considerando que, “o Deus de Jesus Cristo é o que nos ama mesmo quando somos infiéis, quando não somos bons ou nada santos”. “O amor de Deus por nós definiu-se, não por aquilo que temos e fazemos, mas pelo que somos: filhos”, acrescentou, lembrando que “se Deus levasse aqueles que não procedem bem, não seria um Pai mas um tirano vingativo” e que, por isso, ninguém tem o “direito de se afastar de Deus, de pensar que Deus não gosta de nós ou de achar que não é digno”.

O sacerdote explicou que “o afirmar «Creio em Deus Pai, Todo-poderoso», implica esta confiança filial e inocente de quem confia em Deus em qualquer circunstância, inclusive nos momentos mais difíceis da sua vida”.

Analisando a primeira parte daquela oração proferida pelos católicos em cada eucaristia, e concretamente as três qualificações de Deus – Pai, Todo-poderoso e Criador –, o orador desafiou à oposição a duas correntes atuais. “Quando dizemos que acreditamos em Deus, que é criador de todas as coisas, é preciso contradizer algo que atualmente se vive: a autossuficiência e o autodomínio. Dizer que acreditamos em Deus criador é dizer o contrário: que nem sobre a nossa própria vida temos domínio, que Ele é o Senhor de todas as coisas, que é Ele que faz existir e desaparecer”, exortou.

O padre António de Freitas considerou ainda não haver “oposição entre criação de Deus e evolucionismo”. “Não importa os detalhes de como foi. Importa que Deus é a origem de todas as coisas”, frisou, lembrando que “a narração da criação não é nem histórica, nem jornalística” mas antes um “ato de fé”. “ Ao dizermos que Deus é criador, dizemos que não somos, nem nunca seremos, o centro do universo”, acrescentou ainda.

O sacerdote explicou também que “a paternidade [de Deus] não é algo que só se descubra em Jesus Cristo” porque “foi sempre o modo de Deus estar com o seu povo”. “Ao dizermos creio em Deus Pai, estamos ao mesmo tempo a descobrir-nos como filhos. Deus deixa de ser um conceito e passa a ser uma pessoa e a ter rosto, alguém com quem eu posso falar”, destacou, lamentando que muitas pessoas andem “à procura de algo transcendente, de espiritualidades que têm ideias e conceitos mas que não têm um rosto”.

O orador, que explicou que “a fé é encontro pessoal com Deus e encontro comunitário com o Senhor” e não uma “adesão a um código ideológico”, disse que “crer é algo diferente, mais belo e maior do que ver e saber”. “Crer é amar e quem ama não possui. Antes deixa-se envolver por aquele a quem ama. Amar não significa possuir mas entregar-se e confiar-se”, sustentou, advertindo que “o fundamental não é aderir a uma ideologia mas a uma pessoa que é Deus”.

O sacerdote considerou que a oração do credo “responde às questões mais profundas do nosso ser” porque “ajuda-nos a perceber por que é que existimos, de onde vimos, onde estamos e para onde vamos” e alertou também para o “risco” de, ao longo deste Ano da Fé, se fazer destas iniciativas de formação “meros encontros de aprofundamento intelectual”. “Aprofundar o credo deve partir do desejo de conhecer melhor as verdades da fé para que se possa amar melhor a Deus e se possa acreditar de modo mais convicto”, justificou.

O ciclo de conferências irá prosseguir com mais três reflexões sobre as restantes partes da oração que serão orientadas por outros sacerdotes, igualmente destinadas a pais, encarregados de educação, amigos e todos aqueles que pretendam participar.

Samuel Mendonça

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