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O sacerdote, preletor sobre o tema “Vaticano II, 50 anos depois – Uma leitura antropológica da Gaudium et Spes” – uma das quatro constituições saídas daquele concílio sobre a qual se inspira o Programa Pastoral de 2013/2014 da Igreja algarvia –, defendeu que o mundo moderno, iniciado no século XV, deu origem a uma “desconfiança em relação á perspetiva religiosa”, uma “ferida entranhada no coração da Europa até hoje”.

O orador evidenciou que, progressivamente, as Igrejas e as diferentes confissões cristãs foram sendo “eliminadas do espaço público e remetidas para a consciência individual e privada das pessoas”. “Foram momentos significativos no confronto da Igreja com o mundo moderno, numa tensão e incompreensão mútua”, descreveu, considerando ser “esta tensão que se procura superar no Concílio Vaticano II”.

“O Concílio Vaticano II foi convocado com sincero desejo de reconciliar o mundo contemporâneo com a Igreja e a Igreja com o mundo moderno. é um projeto de reconciliação que ainda não está feito. Se calhar estaremos ainda no início porque, dentro do mundo e dentro da própria Igreja, haverá sempre forças emergentes que desconfiam deste diálogo”, lamentou o padre António Martins, frisando que “o mundo não é inimigo da Igreja, nem a Igreja vive fora do mundo” e que a tensão entre os dois “resulta em prejuízo” para ambos.

O conferencista acrescentou que, pelo concílio, a Igreja, que “baixou a dialogar com os homens”, deseja “mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e de bondade”. “é o caminho da Igreja contemporânea, em que o anúncio da misericórdia é muito mais valioso e evangélico do que a indicação moral ou disciplinar”, frisou.

O padre António Martins destacou ainda que a modernidade é marcada por uma “viragem antropológica”. “Se na Idade Média, Deus estava em primeiro lugar na conceção do mundo, da cultura, da política, da religião, na Idade Moderna, da qual nós somos herdeiros, o homem está em primeiro lugar com a sua capacidade de intervir, de conhecer a natureza através da ciência, de alterar os limites da natureza através da técnica e da medicina, o homem construtor dos estados modernos e democráticos do mundo ocidental. Estamos numa viragem antropológica que teve também alguns preços. E talvez o grande preço fosse o progressivo afastamento de Deus do espaço da cultura e do espaço da consciência. Esta centralidade antropológica foi a «mãe» de todo o materialismo que se produziu nos séculos XIX e XX e hoje, com o agnosticismo. Expulsamos os deuses mas quem foi expulso fomos nós, da nossa inteireza, unidade, harmonia e beleza interior”, sustentou, considerando ser este o “drama da contemporaneidade”, na qual o homem está “solitário, disperso, fragmentado, desesperado”. “Esta é a humanidade da crise na qual estamos situados contemporaneamente”, considerou.

O orador considerou ainda que o concílio evidenciou a importância do “humanismo cristão”. “Fora de Cristo não há esclarecimento para a dimensão humana e o ser humano não encontra resposta para a origem, o sentido quotidiano da sua vida e para a orientação da sua existência. Só Deus dá plena resposta ás inquietações do coração humano pela revelação de Jesus Cristo feito homem”, destacou o padre António Martins, considerando que “a existência cristã é um humanismo alternativo no mundo de hoje”. “Encontramo-nos pela condição humana com todos os homens que vivem connosco o mesmo ritmo da história, mas podemos ser portadores deste excesso de misericórdia e de vida que nos vem pela Páscoa de Jesus Cristo”, sustentou, lembrando que “uma das novidades grandes” do concílio foi dizer que “Cristo, na sua encarnação, está unido a cada um de nós”. “O humanismo cristão é o humanismo do homem perfeito, não apenas em sentido moral mas do homem harmonizado, salvo, de condição humana redimida a partir de um Deus”, concluiu.

Neste sentido, o conferencista explicitou que “o humanismo cristão faz-se de uma inconformação com o mundo de hoje e de sempre”. “Um dos sinais de inconformismo que podemos trazer hoje é a dignidade da pessoa humana”, reforçou, sublinhando que “se a Igreja fosse apenas reprodutora do passado, não estaria a ser fiel ás pessoas que é chamada a servir”.

Neste contexto lembrou que “a evolução do magistério faz parte da própria tradição da Igreja”, ainda que sempre ponderada. “Não podemos ficar presos e prisioneiros das formas do passado e também não podemos ficar presos dos estados de deficiência e das tendências de hoje porque nem todas as tendências de hoje são compatíveis com o Evangelho”, justificou.

O orador defendeu, por fim, que na “génese da aventura cristã” não está apenas o fenómeno religioso mas inclui também a secularização, na medida em que a Igreja está inserida no mundo. “A vida cristã, ainda que dramática seja, é um prodigioso caminho de esperança”, concluiu

Samuel Mendonça

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