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Pe. António Martins defende que doutrina do pecado original continua a fazer todo o sentido

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

O padre António Manuel Martins considera que a doutrina do pecado original continua a fazer todo o sentido.

O teólogo e sacerdote da Igreja do Algarve, que é também professor da faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, evidenciou, em declarações ao Folha do Domingo, que a “a doutrina do pecado original está em função da salvação oferecida a todos em Cristo”. “Não podemos ver o dogma do pecado original fora da nossa relação com Cristo, ou melhor, da relação de Cristo connosco. A doutrina do pecado original é um aspeto da salvação que Cristo, gratuitamente, nos oferece. E diz que dessa salvação todos estamos carentes porque todos somos pecadores”, sustenta, advertindo que “a doutrina do pecado original tem origem em Cristo e não em Adão” e que, por isso, “não se deve ir de Adão a Cristo, mas sim de Cristo a Adão”.

“Por maior que seja a maldade e o pecado da nossa condição adâmica, de homens e mulheres pecadores, a graça de Cristo é mais excelente, incomensuravelmente maior. E dela todos estamos carentes. Por mais graves e horrorosas que sejam as ações humanas, não alteram esse amor que é, radicalmente, original. Original porque é a origem de tudo e de todos nós; original pela sua força criadora e redentora; original pela sua gratuidade incondicional”, complementa o teólogo algarvio.

Não obstante reconhecer não haver entre os dogmas católicos nenhum “mais difícil de entender e de explicar” do que este, por compreender “objetivamente uma questão difícil e complexa”, o sacerdote salienta que “a doutrina do pecado original, por mais complexa que seja a sua hermenêutica e difícil o seu entendimento, recebe o seu esclarecimento do Evangelho de Cristo”. “É uma doutrina secundária (não está ao nível das afirmações trinitárias e cristológicas), nem tem valor por si mesma, mas cumpre a sua função de esclarecer a gratuidade e a universalidade da salvação que Cristo nos oferece em sua Páscoa: todos somos pecadores e precisamos de ser salvos”, sustenta.

Citando o Catecismo da Igreja Católica e a alocução de Bento XVI na audiência geral de 3 de dezembro de 2008 – dois textos do magistério contemporâneo da Igreja que fazem “eco do consenso hermenêutico da revisão e atualização da questão da doutrina do pecado original” –, o padre António Manuel Martins adverte, respetivamente, que esta “é, por assim dizer, «o reverso» da Boa Nova de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos, graças a Cristo” e que “se na fé da Igreja maturou a consciência do dogma do pecado original foi porque ele está relacionado, inseparavelmente, com o outro dogma, o da salvação e da liberdade em Cristo”. “Estes dois textos assinalam que o núcleo principal da doutrina do pecado original diz respeito à salvação que Cristo nos oferece incondicionalmente. Que diante de Deus todos estamos em estado de carentes, necessitados, debilitados e incapazes”, reforça.

Recordando que “o mito de uma evolução moral do Homem, de um progresso espiritual foi destruído, por completo, nas tragédias das duas guerras mundiais do século XX” e “o optimismo antropológico iluminista, a crença na força da vontade e da razão, a capacidade técnica do Homem de produzir bem-estar e progresso foram questionados e desmentidos pelos horrores dos campos de concentração nazi e pelos goulags estalinistas”, o padre António Manuel Martins evidencia que a doutrina do pecado original é compatível com o ato de criação de um “Deus bom que cria coisas boas”, independentemente de o Homem ser “capaz de requintados horrores deliberados de mal”.

Evocando a “intuição da experiência cristã latina de que vivemos num estado de liberdade «condicionada»; que somos condicionados pelo «vírus» do mal de cada tempo, e de toda a história humana, que atravessa gerações e condiciona as nossas próprias escolhas e decisões”, o padre António Manuel Martins lembra que “cada pessoa humana nasce para a liberdade, mediante um tecido de sociabilidades e de relações que estruturam o seu existir, que a condicionam no bem e no mal”. “Não somos apenas a nossa força de vontade, no uso de uma liberdade sem falhas. Somos o fruto das relações que nos inserem na condição humana. O mal antecede-nos e condiciona-nos”, sustenta.

Neste sentido refere que a doutrina do pecado original não assinala a “dimensão da responsabilidade pessoal (individual) na experiência e na propagação do mal”. “Isso são os nossos pecados pessoais. Assinala, sim, que a nossa liberdade pessoal está condicionada por uma solidariedade negativa (solidariedade no pecado desde as origens) que a todos e a cada um condiciona e que acompanha a humanidade desde o seu início”, complementa, salientando que a doutrina do pecado original “é um modo de dizer a inocência de Deus na origem do mal e de assinalar que acontece numa história de liberdades”. “Esta história do mal, pelo exercício da liberdade, chega a cada um de nós e nos torna vítimas e vulneráveis, portadores de uma liberdade frágil e debilitada a necessitar de ser redimida”, conclui.

O teólogo algarvio considera ainda que “continuar hoje a afirmar a incompatibilidade entre as teses evolutivas e a doutrina do pecado original só se pode justificar por ignorância (tanto científica como teológica) ou por desonestidade intelectual” e clarifica que “para a fé é irrelevante se a humanidade provém de um ou de vários pares”. “A verdade da revelação tanto se sustém com a tese poligenista como com a tese monogenista. Porque, repito, o centro da questão é a gratuidade da salvação em Cristo da qual todos estamos carentes e não tanto o casal primordial. É, perfeitamente, compatível uma concepção evolutiva do mundo e do ser humano (hoje consensual no campo científico, independentemente das possíveis explicações) com a doutrina do pecado original”, reforça.

“As teses evolutivas dizem respeito a uma compreensão científica do mundo e da condição humana, pois procuram explicar o «como», enquanto a doutrina do pecado original é uma expressão da compreensão cristã ocidental acerca da fragilidade da nossa liberdade, condicionada e ferida pela universalidade do mal que nos antecede e nos «vicia» e que só a Boa Nova de Jesus Cristo pode curar e redimir”, conclui, lembrando que “manda o bom senso e o rigor epistemológico «dar a Deus o que é de Deus, dar a Darwin o que é de Darwin»”.

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