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O sacerdote, que apresentou em Loulé uma conferência no âmbito das comemorações dos 25 anos de serviço do padre Henrique Varela naquela terra, destacou a assim a “redescoberta da palavra de Deus”, lembrando que “até aos anos 50, os católicos tinham medo de ler a Bíblia”. “A Bíblia era coisa de protestantes e só algumas classes e elites é que tinham acesso, mas com alguma prudência, à escritura. O povo de Deus limitava-se a rezar umas coisas muito piedosas, a ouvir umas leituras em latim ou então a ouvir sermões muito bem feitos, de uma forma viva e empolgante. Mas o contacto direto com a palavra de Deus não existia ainda ou então era muito residual”, afirmou o conferencista.

O padre António Martins explicou ainda a consequência do Concílio Vaticano II na liturgia. “[O Concílio] trouxe a beleza e a proximidade de uma celebração da eucaristia que nós percebemos e onde nós todos nos reconhecemos e nos sentimos participantes”, sustentou.

Por outro lado, o conferencista apontou a aproximação entre a Igreja e o mundo, entre crentes e não-crentes trazida pela reforma conciliar. “Foi um abraço de simpatia, de compaixão e de descoberta de que todo o homem e toda a mulher é meu irmão e minha irmã pela dignidade simples de ser gente”, destacou, acrescentando que o concílio “descobriu que afinal os cristãos são homens e mulheres que estão implantados no mundo iguais a todos os homens e mulheres deste mundo, com as mesmas alegrias e as mesmas tristezas, as mesmas angústias e as mesmas esperanças”.

“Superaram-se séculos de tensão da Igreja com o mundo. O mundo desconfiava da Igreja, que era conservadora, que estava contra a renovação, que era contra liberdade. A Igreja desconfiava do mundo que perseguia a Igreja, que era anticlerical e ateísta. E se calhar tudo isto era verdade e tudo isto, dramaticamente, aconteceu”, complementou, referindo-se a uma “acusação mútua que também resultava de incompreensões mútuas”.

O orador, que comparou a Igreja a uma “grande casa que precisa constantemente de restauro, limpeza e renovação”, lembrando que “toda organização e instituição humana ou se renova ou, mais cedo ou mais tarde, está condenada a desaparecer”, considerou não ser possível “voltar atrás”. “O Espírito Santo assim o quis, os pastores assim o realizaram. Alguns torcem-se ainda, pensando que a Igreja foi demasiado à frente. Outros pedem até um Concílio Vaticano III. Nem por um lado, nem pelo outro. O caminho sereno é o caminho do meio, sem extremismos nem radicalizações”, defendeu.

Samuel Mendonça

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