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© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

O padre António Manuel Martins lembra que o carisma de São Francisco impôs-se como alternativa a um mundo “já profundamente capitalista e marcado pelos negócios financeiros” em pleno século XIII.

“Curiosamente isto tem qualquer coisa a ver com hoje”, evidenciou o sacerdote algarvio na última sexta-feira em Faro, na apresentação do livro do frei Álvaro da Silva, lembrando já naquele tempo sobressaiu a “intuição prática do carisma franciscano de que é possível uma alternativa que passe por uma vida comunitária, por um estilo de vida despojado e ao mesmo tempo integrativo”.

O sacerdote, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, lembrou no Museu Municipal de Faro, que a usura já era prática no tempo do santo de Assis, levando muitos a cometer o “pecado” de “explorar a quem se emprestou dinheiro com uma taxa de juro profundamente exagerada”. “E a Igreja tinha consciência disso e procurava moralizar a sociedade”, acrescentou, lembrando ser nesse “contexto de uma população do campo, desenraizada, que vem para as cidades e que depois não se integra no novo ambiente, começando a haver uma classe cada vez maior de pobres”, que se enquadra o carisma franciscano.

Na sua conferência sobre a “Dimensão antropológica no franciscanismo”, o sacerdote sublinha que “a comunidade franciscana surge como uma comunidade interclassista” que integra nobres, burgueses e gente do campo que convive sem distinções. “É o tempo das Cruzadas, de grandes conflitos com o Judaísmo e com o Islamismo e Francisco faz outro caminho, não o da afronta, mas o da compreensão mútua”, lembrou ainda.

Na sua reflexão, o padre António Martins traçou Francisco com três palavras – “vertigem, profecia e enigma” –, frisando que a vida de Giovanni di Pietro di Bernardone foi “vertiginosa e de tal modo identificada com Cristo” que faz dele um “apaixonado que se torna ele próprio paixão, paixão vivida no próprio corpo”, “um corpo crucificado, rasgado”, um fenómeno que considerou “curioso” e “não muito vulgar na tradição espiritual e mística da Igreja latina”.

Considerando que “Francisco é este leitor da escritura que a reinterpreta pela própria vida e ao mesmo tempo é o corpo, espírito, coração e consciência, toda ela trespassada pela palavra de Jesus Cristo e pelo seu evangelho”, o padre António Martins destacou o “drama de Francisco”: uma “vida apaixonada que o vai levar a percorrer o caminho da cruz”, a integrando a dor e o “dar sentido à dor”, a partir do próprio Cristo que a experimenta.

O conferencista destacou também que a vida de Francisco é “profecia de uma alternativa de vida profundamente evangélica”. “Francisco entra na dimensão profética de um grande grupo de intentos revolucionários que criam até uma reforma numa rutura com a instituição”, afirmou, salvaguardando contudo que “Francisco nunca questiona duas dimensões estruturantes da identidade católica e eclesial: a eucaristia e o ministério”. “Temos, ao mesmo tempo, um homem profundamente profético, mas integrado na estrutura sacramental da Igreja”, sustentou.

O orador considerou ainda que a dimensão enigmática da vida do santo italiano se deve à pouca informação disponível sobre a sua personalidade. “Há versões que põem um Francisco mais radical e outras mais pacífico, conforme as interpretações existenciais que a grande tradição franciscana criou”, constata, lembrando que o santo “permanece como um mistério a decifrar dentro dos seus próprios escritos”.

O teólogo lembrou igualmente que Francisco é o “homem do Natal e do presépio” porque é o “homem do mistério da encarnação” de um “Deus que se faz carne, menino, bebé, criatura vulnerável”. “Isto é o centro do Cristianismo e, ao mesmo tempo, uma subversão: um Deus transcendente, distante, que se torna pobre nesta pequenina dimensão de um recém-nascido”, evidenciou.

Destacando a “antropologia da fragilidade” lembrou que o carisma franciscano vem priorizar os mesmos que Jesus: “o leproso, o pobre, o excluído, o marginal, aquele que não conta na organização financeira e urbana das cidades”. “A antropologia franciscana é esta profecia de um Deus que se torna frágil e que, ao mesmo tempo, nos ensina a acolher e a respeitar a fragilidade da condição humana”, frisa.

Relativamente à pobreza, o orador lembrou que esta é uma “escolha despojada” e que, para se chegar a “fazer essa opção”, é preciso receber dos outros o “necessário à vida, recebendo de Deus através dos outros”. O padre António Martins referiu que, para Francisco, “ser humano é ser profundamente pobre, é estar no estado de nudez, de carência”. “Daí toda a dimensão simbólica do despir-se e apresentar-se nu para dizer: esta é a verdade da condição humana, pobre; que nenhuma roupa nos veste na nossa profunda pobreza. Mas esta é uma pobreza amada por Cristo”, concluiu.

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