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© Samuel Mendonça

O padre Carlos de Aquino advertiu no passado sábado que “o maior «cancro» da liturgia é a improvisação” e apelou à revalorização da reforma litúrgica.

O especialista na área da liturgia e coordenador do Departamento da Pastoral Litúrgica da Diocese do Algarve, que proferiu, no encontro de lançamento do programa pastoral 2014/2015 da Igreja Católica algarvia, uma conferência sobre a ‘Sacrosanctum Concilium’ – a constituição sobre liturgia, saída do Concílio Vaticano II –, lamentou que, dentro da celebração litúrgica, haja “muita facilidade, muita precipitação e, sobretudo, muita improvisação”. “Não se deve improvisar a celebração. Deve-se preparar para podermos participar plena, frutuosa e conscientemente”, afirmou na assembleia da Diocese do Algarve com os responsáveis das paróquias, movimentos, serviços diocesanos e institutos religiosos que decorreu no salão da igreja de São Pedro do Mar, em Quarteira.

Na sua abordagem ao tema “Vaticano II, 50 anos depois. Novidade, aplicação e frutos da Sacrosanctum Concilium/Sagrada Liturgia”, o orador criticou que muitas vezes se celebre de “modo profano” e que, às vezes, as celebrações sejam “nervosas”. O padre Carlos de Aquino lamentou que muitos façam da liturgia “um conjunto de práticas rotineiras” e disse que “infelizmente, ainda se vê muita celebração onde se menoriza a escuta da palavra de Deus”.

Lamentando que o documento conciliar inspirador do programa pastoral deste ano da Igreja algarvia seja “profundamente desconhecido pela maior parte dos cristãos, infelizmente, até por aqueles que têm alguma missão de maior serviço nas comunidades”, evidenciou a sua atualidade e a urgência da sua aplicação. “Se queremos que a Igreja seja forte na fé e funda em unidade e comunhão, sinta a sua vitalidade e ao mesmo tempo promova a santidade dos seus membros, aqui tem de regressar urgentemente”, considerou, lembrando que “a liturgia é o próprio Cristo”, a “primeira escola de fé, da vida espiritual, da caridade e da própria identidade cristã”.

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© Samuel Mendonça

“Sabemos que a renovação litúrgica foi o fruto mais visível da obra conciliar, mas esta renovação não pode limitar-se às cerimónias, ritos e textos. Muitas vezes, quando se fala da reforma litúrgica pensa-se apenas em mudar cerimónias, adaptar ritos, em construir textos. Por isso, muitos criticam dizendo sempre mal e, com certo menosprezo até da liturgia na vida da Igreja, vivem desencantados porque a reduzem a isso. Ainda não se deixaram encantar verdadeiramente pela verdade e pelo mistério que a liturgia é”, lamentou, frisando que a liturgia “não é reformável” porque, “na sua verdade e mistério”, “é sempre nova, mas permanece sempre a mesma”.

Neste contexto, criticou os “rubricistas e profissionais do sagrado” que “falam da liturgia, pensando-a como uma dimensão pequenina da fé a que não é preciso dar muita importância porque já foram gastos muitos anos da vida da Igreja a isso”. “Esquecem que a liturgia é a ação da Igreja. Não somos igreja sem rezar e sem celebrar o mistério da Páscoa do Senhor. Esquecem que o grande objetivo da reforma litúrgica não foi tanto uma mudança de ritos e textos, mas sim suscitar a formação dos fiéis, promover a ação pastoral que tenha como vértice e cume a liturgia”, lamentou, acrescentando que “quem não relaciona a liturgia com a vida cristã, não entende o que é a liturgia” e “achará sempre que é um culto desprovido, quase uma obrigação”.

O conferencista lamentou ter sido “uma enorme perda para valorização e promoção da liturgia o facto de se transformar o conjunto desses grandes princípios da reforma em rápida receita para consumo prático, perdendo-se muitas vezes a dimensão espiritual do culto” e a “dimensão real do mistério da liturgia”. “Perdeu-se a espiritualidade da vida cristã e também litúrgica, reduzida às vezes a uma mera esterilidade num jogo mais de subjetividades que da afirmação do mistério e da verdade da Igreja”, complementou, lembrando que a constituição pretendeu “criar uma nova mentalidade e este trabalho nunca estará concluído”. “É tão difícil, porque não se cria por decreto, nem por salmos, e tão urgente criarmos esta nova mentalidade”, considerou.

O sacerdote considerou ser preciso “percorrer um caminho longo” para a “aplicação do que foi a renovação pretendida pelos padres conciliares” e aludiu à “participação ativa dos fiéis” que o Papa Bento XVI entende “ser o maior problema que a reforma não conseguiu” resolver. “Não temos uma Igreja celebrante e não temos uma Igreja que celebra, participando”, advertiu.

Exortando à “universalidade para exprimir a unidade católica da Igreja”, lembrou que “não é permitido a ninguém fazer experiências sem a autorização explícita do bispo diocesano, das comissões de liturgia nacionais ou da própria Congregação da Liturgia” e fez um apelo à “observância total das normas universais”. “A reforma litúrgica não é sinónimo de dessacralização. A eficácia das ações litúrgicas não consiste na procura de novos ritos ou ulteriores simplificações, mas no aprofundamento da palavra de Deus”, complementou.

O padre Carlos de Aquino, que descreveu a história da renovação litúrgica ao longo dos séculos e os seus principais agentes, apresentou o esquema do constituição conciliar e evidenciou a sua aplicação, os seus frutos e os seus princípios orientativos e operativos, considerou que “falta trabalhar a espiritualidade litúrgica e, nela, a dimensão da mistagogia”, ou seja, “trazer para dentro do mistério que se celebra, os gestos, os ritos, os sinais e as palavras”. “Nem todos os sinais são sacramentais e têm o mesmo valor na celebração e quando perdem a dimensão da verdade nem devem ser utilizados na celebração cristã”, advertiu, considerando haver hoje “uma enorme pobreza simbólica que resulta depois numa mediocridade enorme na participação e na qualidade”.

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