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No passado dia 15 de Maio, em que a Diocese do Algarve celebrou de maneira particular o Dia Mundial da Família com a realização do Dia Diocesano da Família, o padre monsenhor Vítor Feytor Pinto, veio a Loulé apresentar uma conferência sobre o tema “Desafios da sociedade actual à família cristã”.

O sacerdote, que falou no Centro Paroquial e Social, sublinhou que “o mundo, hoje, desafia a família cristã”, mas destacou que, apesar dos problemas actuais, os cristãos são homens e mulheres de esperança e, talvez por isso, deixou claro que a família cristã deve interpelar o mundo.

Na introdução à sua intervenção, o orador defendeu haver uma “mudança de conceito da família”. Neste sentido disse que a “família molecular, dispersa, que ainda se reúne em determinadas alturas”, substituiu a “família patriarcal” que já não existe. “Surgiu depois a família nuclear, «entalada» num apartamento”, mas “esboroou-se porque não cria relações, é um gueto fechado”, afirmou.

O conferencista aludiu ainda à “família alargada” que sustenta “relações entre gerações”, com destaque para o “papel dos avós” e para as “relações de vizinhança”, à “família unipessoal”, constituída apenas por um pai ou uma mãe e à “família pluriparental”, composta por dois pais e duas mães de diferentes casamentos.

O padre Feytor Pinto defendeu também que a família cristã tem de ter quatro “valores fundamentais” – liberdade, unidade, fidelidade e fecundidade – para que se identifique com o projecto cristão, que consiste num “desafio para viver o amor como convite à felicidade”.

Entrando na conferência, propriamente dita, destacou os “desafios positivos e negativos da sociedade contemporânea”como “influência do ambiente e da cultura actual” à família. Neste contexto, garantiu que os valores positivos são o “sentido da dignidade humana”, como “nova maneira das pessoas (homem e mulher, pais e filhos) se relacionarem”, a “procura da harmonia e da paz”, o “progresso científico e técnico”, e uma “nova sensibilidade ética”.

Como aspectos negativos, que “influenciam muito as nossas famílias porque mudam radicalmente a nossa cultura”, apontou o “materialismo racionalista” que “compromete o jogo dos afectos, a coisa mais importante numa família”. “Temos de ser abertos à afectividade e não podemos ficar marcados pelo material” exortou.

Também a “permissividade”, “onde tudo é permitido e livre”, e o “hedonismo”, como “culto do prazer”, foram destacados como dimensões negativas. A”visão redutora da sexualidade” também foi identificada. “Estamos muito longe de compreender a importância da sexualidade na vida humana porque tivemos tabus sobre nós e depois caímos numa dramática permissividade sem fronteiras e num exibicionismo estranho”, lamentou o conferencista, lembrando que “não há sexualidade sem afectividade”. “A sexualidade é o valor mais rico que Deus colocou na nossa vida e espiritualidade está marcada pela sexualidade”, disse.

Criticou ainda a “opção pelo económico”, lamentando vivermos numa sociedade “obcecada pelo económico”. “É preciso ultrapassar isso porque há valores muito mais importantes aos quais o económico deve-se sujeitar”, defendeu.

Em síntese, considerou que “o mundo de hoje tem três idolatrias: ter, poder e prazer”. “Tenho de converter o ter em partilha, o poder em serviço e o prazer em exigência e sacrifício”, apelou, considerando que “há hoje pecados sociais que condicionam a forma de estar no mundo”. “Vivemos dominados pelos individualismos, pelos egoísmos e pelos consumismos e temos de contrariar isso”, advertiu. Por outro lado, denunciou que há hoje muitas famílias “marcadas pela exclusão que gera novos pobres” e que o “fenómeno contemporâneo é marcado pela ausência de Deus”.

Referindo-se aos “problemas concretos que podem afectar a família”, o padre Feytor Pinto lembrou que o “estatuto da mulher alterou-se completamente com a descoberta da contracepção”. A alfabetização, que “conseguiu a igualdade dos sexos, das idades e das culturas e que alterou comportamentos na relação porque provocou igualdade” e a tecnologia em casa foram outras das dificuldades identificadas. “Televisão e computador, se não souberem ser utilizados, matam as relações. Se souberem ser utilizados, valorizam as relações”, disse, considerando que “estamos a ser escravos da informatização generalizada e da mediatização”.

Como consequências desses problemas identificou, entre outras, a “facilidade no divórcio”, a “perda da fecundidade”, a “dificuldade na educação dos filhos”, as “uniões de facto” e os “casais sem filhos por vontade”. “Temos de ser diferentes”, apelou, sublinhando que “o divórcio generalizou-se e ameaça a estabilidade familiar, a fidelidade conjugal e a própria educação das crianças”. Neste contexto, adiantou que a média de divórcios proporcional aos casamentos por ano é de 47% e assegurou que entre 1998 e 2008 houve 62% de afastamento do matrimónio católico. “Temos de anunciar a felicidade no amor. O amor tem de ser dádiva, entrega e compromisso”, afirmou, salientando que os “casais cristãos, marcados pelo matrimónio, têm de viver o mistério da fidelidade”.

Garantindo que entre 1998 e 2008, a natalidade em Portugal diminuiu em 100.000 crianças, o orador criticou o “planeamento familiar” e as “razões secundárias que impedem a fecundidade”, mas defendeu uma “paternidade responsável e generosa que deve compreender o mistério da fecundidade, respeitando os ritmos da vida”. Mais adiante acrescentaria que todas as crianças que nascem deviam ter sido queridas.
Assegurando que “a Igreja nunca fala em abstinência”, apontou a “castidade”, “que é outra coisa, como orientação da vida afectivo-sexual segundo um projecto de vida”.

Relativamente à educação, lembrou que a responsabilidade dos pais fica comprometida quando se entrega à escola a educação e se reduz a mesma à aprendizagem. Neste sentido, recordou que “o processo educativo exige três atitudes: presença, testemunho e diálogo oportuno” e afirmou que “a escola não é educadora, mas apenas instrutora”.

Lamentou as “famílias monoparentais e pluriparentais com características que se repercutem no desenvolvimento das crianças” e a “quase total ausência de preocupações espirituais e religiosas”. E porque “as agressões do meio ambiente convertem-se em desafios para a família cristã”, apontou as quatro “linhas de força que dão sentido à família” – “liberdade com sentimento, unidade e comunhão total, fidelidade ao longo da vida e fecundidade responsável e generosa” –, defendendo uma “espiritualidade conjugal e familiar” alicerçada na oração. Neste sentido apontou uma “nova cultura para a família”, que considerou o “gama da família cristã”, com base na “dignidade da pessoa humana”, “liberdade na responsabilidade”, “cultura da vida”, “verdade e coerência”, “solidariedade” e “esperança”. Por outro lado, lembrou que “a estabilidade da família assenta nos valores evangélicos: verdade, justiça, liberdade, amor e paz”.

“Desafios da sociedade actual à família cristã”
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