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O padre José Manuel de Almeida, professor de Teologia Moral Social na Universidade Católica, em Lisboa, que falava naquela iniciativa promovida em colaboração pela instituição educativa da Diocese do Algarve e pelo Centro de Formação Ria Formosa, desafiou os presentes a “não desistir, mesmo que seja muito difícil”, porque “a persistência é a grande força de uma comunidade educativa que se preze”. “Não podemos fazer o mesmo para pior, temos de mudar alguma coisa. Não desistam!”, apelou o sacerdote que começou por lembrar, com base na mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz deste ano, que “a educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida”. “A «idade de ouro» é a nossa idade. O tempo que nos é dado é o melhor tempo. É hoje o nosso tempo”, afirmou, desafiando os participantes a pensar que o tempo que lhes é dado é uma “ocasião extraordinária que não se repete mais”.

Começando por pedir aos presentes que aceitem ética e moral como sinónimos, o padre José Manuel de Almeida centrou-se na importância do outro na vida de cada um. “A minha vida é decidida, não na relação com as coisas mas no encontro com os outros. A minha existência pessoal é só dita em termos verdadeiros na minha vida partilhada com o outro. Reconhecermo-nos pessoas diante do ser pessoal do outro”, afirmou, lembrando que “o encontro interpessoal é o lugar originário da moralidade”. “Somos resultado do dom dos outros para a nossa vida. Os outros são, para nós, dom de sermos quem somos”, complementou, acrescentando que “a dimensão ética começa quando entra em cena o outro”. “Tal como não conseguimos viver sem comer ou dormir, não conseguimos compreender quem somos sem o olhar ou resposta do outro”, evidenciou.

O conferencista prosseguiu considerando que “há escolhas na vida que são muito importantes, determinantes: as morais”. “São as escolhas que fazemos que fazem de nós aquilo que somos. Somos, afinal, a soma total das nossas escolhas. Ao decidir, eu acabo por me decidir a mim também”, sustentou.

Após pedir aos presentes que desenhem interpretando o que entendem por ética ou moral, o orador defendeu uma “moral de discernimento” e não de “aplicação de preceitos”, lembrando que o “lugar do discernimento moral é a nossa consciência”, o “núcleo onde o conhecimento, a verdade e a responsabilidade se juntam”. “Se falta um destes elementos, adeus consciência moral e responsabilidade perante o outro”, advertiu. “Diante do tu pessoal do outro, a minha responsabilidade, consciente de liberdade, torna-se responsabilidade pela vida do outro. Respondo ao outro, fazendo-o viver”, acrescentou.

O padre José Manuel de Almeida aludiu à “busca da verdade moral” e a “não desistir dessa procura” e aconselhou a “não ter certezas morais”, semelhantes a “pesos sobre os outros que não os ajudam nem com um dedo”.

Considerando que “não é fácil” chegar à construção do bem-comum, apontou o “grande equívoco” da “perspetiva individualista” na construção daquele conceito: “pensar que tenho de contribuir para que seja bom para todos, mas estar interessado em tirar o melhor para mim”.

Aos presentes sublinhou ainda que a vivência da “consciente liberdade com responsabilidade pela vida do outro” implica “fazer viver”. “Viver é dar vida, ou seja, ânimo, esperança, coragem ou tempo”, complementou.

A terminar lembrou ainda que “educar significa trazer para fora, ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa” e, neste sentido, advertiu de que “não bastam meros dispensadores de regras”. “São necessárias testemunhas autênticas que saibam ver mais longe do que os outros porque a sua vida abarca espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive primeiro o caminho que propõe”, alertou, lembrando o Papa Paulo VI quando disse: “o mundo está farto de mestres e só ouve os que sejam testemunhas”. “O educador é aquele que dá a vida, fazendo o caminho com”, concluiu.

Samuel Mendonça
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