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O sacerdote, assistente espiritual do núcleo do Algarve da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, falava numa palestra à luz da Doutrina Social da Igreja, inserida no tema deste ano 2012 – "Portugal – Realidade e Esperança" –, promovida por aquela organização, no passado dia 23 deste mês, no Seminário de São José, em Faro.

O orador considera que a atual crise “é um momento de julgamento porque nos obriga a parar”. “Esta crise obriga-nos a parar e a refletir, a rever a vida pessoal, empresarial e social”, afirma, considerando que o “sofrimento é também um momento de esperança”.

O sacerdote critica o atual estado da União Europeia. “No passado havia uma identidade cultural que nos identificava como europeus porque pertencemos todos à mesma família. Hoje, o que une a Europa são os interesses económicos e estão muito mais sublinhados todos estes egoísmos nacionais. Estas lutas que existem na Comunidade Europeia têm a ver com os egoísmos nacionais”, constata o sacerdote, lembrando que “os alemães preocupam-se, em primeiro lugar, consigo e não se vão prejudicar por causa de um outro país que não cumpre”. “Isso seria o que um membro da família faria por outro” porque “na família, as relações são um bocadinho diferentes”, acrescenta.

O padre Mário de Sousa defende ainda que o “bem da comunidade das nações” seja entregue a uma “autoridade supranacional”, cujos sujeitos sejam os “diversos países do mundo”. “Tinha de existir uma entidade que supervisione e que sirva de garante à salvaguarda deste bem comum”, afirmou, considerando que esta ideia “já vai estando no ADN dos diversos estados, só que os egoísmos acabam por suplantar esta sensibilidade”.

Para o orador a concretização desta “autoridade supranacional”, “a sua concretização e as condições da sua eficácia são neste momento apenas um esboço porque a ONU, muitas vezes, é uma caricatura deste princípio que devia ser sagrado”. “Caricatura porque se movem tantos interesses –, começando logo pelas presenças no Conselho de Segurança –, que a gente vê que aquilo não é coisa séria”, complementa, lembrando haver “países que têm direito de veto e presença permanente” e “outros que estão lá porque alguns permitem que lá estejam”.

Recorde-se que esta ideia da Igreja não é nova. Já o Papa Bento XVI defendera, em 2009, na encíclica “Caritas in Veritate” uma “Autoridade política mundial” como “nova ordem política e financeira internacional, para governar a globalização e superar a crise em que o mundo se encontra mergulhado”.

Também a nível interno de cada país, o padre Mário de Sousa lembra que “o Estado define-se por ser o conjunto das condições concretas que permitem a todos atingir níveis de vida compatíveis com a sua dignidade”. “Assim, não é a pessoa que está ao serviço do Estado mas o Estado ao serviço das pessoas e de todas as pessoas como garante do bem comum e da dignidade de cada pessoa humana. Isto a obriga-nos a uma revisão de vida sobre a forma como, muitas vezes, os políticos agem com aquilo que é de todos. Muitas vezes age-se considerando que o bem comum é propriedade pessoal e quando se desbarata aquilo que é bem comum devia haver a responsabilidade por aquilo que a todos pertence. Até criminal”, sustentou.

Citando João Paulo II, o sacerdote considerou que “o bem comum universal será o grande desafio deste milénio para recuperar a implosão do segundo mundo e a marginalização do terceiro”.

Samuel Mendonça
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