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Pe. Paulo Malícia defendeu que é preciso repensar o modelo de catequese

© Samuel Mendonça
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O padre Paulo Malícia veio ao Algarve defender que é preciso repensar o modelo de catequese existente em Portugal.

“Se queremos uma Igreja de gente que quer seguir o Senhor num compromisso de vida e de fé, temos de repensar a catequese que temos”, afirmou o diretor do Departamento da Catequese do Patriarcado de Lisboa (conferência disponível no final da página) no Dia Diocesano do Catequista, promovido pelo Sector da Catequese da Infância e Adolescência da Igreja do Algarve no passado sábado em Olhão.

© Samuel Mendonça
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Na iniciativa, que teve lugar no centro paroquial da paróquia olhanense sob o tema “Catequese de Adolescência, uma proposta de santidade”, o conferencista considerou a atual educação da fé, “por vezes, ignora e fica à margem da vida da pessoa”, apontando este como o “grande problema da Igreja em termos catequéticos”. “Muitas vezes andamos a dar respostas a perguntas que as pessoas já não fazem e não damos respostas às perguntas que as pessoas fazem”, lamentou, denunciando uma “educação da fé desligada da vida concreta das pessoas”. “Custa-me que, muitas vezes, a gente faça um anúncio da fé, não a partir das questões que as pessoas fazem, mas das questões que nós achamos importantes. E depois há aqui um desfasamento, quase que uma esquizofrenia entre a vida das pessoas e a nossa proposta de educação da fé”, acrescentou.

Neste sentido, o padre Paulo Malícia lamentou que exista ainda “uma educação da fé que não faz experiência daquilo que propõe”. “A catequese, muitas vezes, não é uma experiência, é uma aula. Muitas vezes transformamos a catequese da adolescência num ATL ou em mais uma aula no horário escolar”, criticou, explicando que os adolescentes “têm de fazer uma experiência de fé e de vida e não ter uma aula de conteúdos cristãos ou uma atividade de tempos livres”.

© Samuel Mendonça
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O orador defendeu, por isso, que os “grandes lugares da catequese” são então os “antropológicos” da “vida afetiva, do trabalho, da festa, da fragilidade humana, da tradição e da cultura” e advertiu que o catequista da adolescência tem de ser um “acompanhador de uma vida”. “O catequista de um adolescente tem de estar ao lado dele quando ele vive estas experiências e iluminar estas experiências com a fé e a palavra de Deus”, sublinhou, apontando para a necessidade de “individualizar percursos” porque “cada caso é um caso”. “Podemos ter os melhores catecismos do mundo, mas o que conta é a relação catequista-catequisando e catequisando-comunidade”, avisou, acrescentando ser necessário “proporcionar uma catequese que afete a pessoa no seu todo: a personalidade, a inteligência, a emoção, o afeto e as ações”. “Sem isto não há personalização da fé e o adolescente precisa de viver um tempo de personalização da fé”, advertiu.

© Samuel Mendonça
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“Para que a catequese seja a iluminação de uma vida à luz do evangelho” defendeu a necessidade de se reformular os tempos das sessões. “Numa hora, reduzida a meia-hora, proporcionamos uma experiência de fé cristã?”, interrogou, avançando com a possibilidade de as sessões poderem realizar-se de 15 em 15 dias, ao sábado, durante duas ou três horas. “Se queremos proporcionar com a catequese uma experiência de vida, de fé, de partilha, de comunidade, temos de começar a pensar que tempo e que espaço é que temos para a catequese. Com esta gente não podemos ficar só na sala da paróquia”, considerou, exortando também à “pedagogia da espiritualidade”. “Às vezes, eles andam na catequese e não têm uma noite de oração, não têm uma exposição do Santíssimo. Às vezes, vale mais um retiro bem feito do que cinco catequeses sobre a oração fechados numa sala”, completou.

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O padre Paulo Malícia enumerou então as quatro “experiências significativas” que deverão ser proporcionadas numa catequese com adolescentes: a “experiência do amor de Deus”, a do “encontro com a palavra”, a do “encontro com Cristo” e a “de ser membro ativo” da Igreja. Referindo-se à primeira, sublinhou que as “paróquias têm de ser espaços onde os adolescentes se sentem acolhidos” e, destacando a terceira, frisou a importância da “dimensão contemplativa e celebrativa” e apontou a necessidade de a renovação passar por “pensar a catequese em chave celebrativa e litúrgica”. “Não há outra maneira de eles se encontrarem com Cristo senão fazendo a experiência do encontro onde Cristo está: nos sacramentos e sacramentais”, evidenciou, lamentando que se tenha intelectualizado demasiado a catequese e que esta esteja “fechada para férias” nos “dois grandes momentos de catequese na Igreja que são a Páscoa e o Natal”. Neste sentido, lamentou “uma catequese, não ao ritmo do ano litúrgico, mas ao ritmo do ano escolar” e a consequente contribuição para uma maior “escolarização da catequese”.

Sobre a segunda das experiências “religiosas estruturantes” aludiu à necessidade da centralização da catequese na Sagrada Escritura, pedido mais “menos bonecada e mais palavra de Deus” e sobre a última salientou que o adolescente tem de “sentir que faz parte da comunidade”. “Não posso ter um adolescente, sentado numa mesa, a ver a comunidade a construir-se. Temos de pôr estes miúdos a fazer qualquer coisa para a comunidade cristã”, exortou, lembrando que “o adolescente aprende fazendo”. “Se a gente não os insere na vida da comunidade, eles desmotivam-se. Se eles não fizerem nada na paróquia, vão fazer para outro lado”, alertou.

© Samuel Mendonça
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Aos desafios, o sacerdote acrescentou ainda a adoção de “um modelo de catequese mais missionário, mais centrado no primeiro anúncio”. “Mostrem-lhes a pessoa de Cristo, como Ele pensa, corrige, chora, sorri, propõe e deixem-nos decidir”, pediu, sublinhando também a importância da “pedagogia do testemunho” porque “um adolescente se não vir, não acredita”. “Não há caminho de santidade sem testemunhos de santidade”, lembrou, apontando a importância de ajudar a “alicerçar um projeto de vida” e de o grupo de catequese se assumir como “referência identitária” de cada membro, onde haja espaço para os símbolos “identificadores da sua caminhada catequética”.

O padre Paulo Malícia discordou ainda que se transmita aos jovens a mensagem de que o sacramento do Crisma é a preparação para a missão na Igreja. “Convidem-nos para uma missão e catequizem-nos na missão. Atribuam uma tarefa ao grupo e, nessa tarefa, catequizem-nos”, pediu, sublinhando que a transição dos adolescentes para os grupos juvenis tem de ser feita em “grande articulação” para que eles possam continuar.

Conferência do padre Paulo Malícia (1ª parte):

Conferência do padre Paulo Malícia (2ª parte):

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