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Foto © Samuel Mendonça
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Pedro Vaz Patto defendeu na última sexta-feira à noite, em Faro, a criação da “consciência de um bem comum europeu” “para que a unidade europeia assente em alicerces sólidos”.

“E para tal, tem de haver um cimento aglutinador que mobilize as mentes, os afetos e as vontades de todos os europeus, de modo a que um cidadão alemão pode sentir como seus os problemas dos cidadãos gregos e vice-versa, para que nasça um povo europeu”, afirmou o juiz desembargador e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz na iniciativa europeia “Juntos pela Europa”, este ano assinalada sobre o tema “O papel dos cristãos na Europa de hoje”, e que, no Algarve, foi promovida por vários movimentos cristãos, na sede da delegação regional de Faro do Instituto Português do Desporto e Juventude.

O orador considerou que a atual crise financeira e económica “e a forma como a ela têm reagido os vários países envolvidos parece revelar a falta de consciência de um bem comum europeu, como se cada governo lutasse apenas pelos seus interesses nacionais, como quem «puxa a brasa à sua sardinha», vistos numa perspetiva limitada, porque só eles (e não a visão desse bem comum europeu) são tidos em consideração pelos eleitorados respetivos”.

Vaz Patto disse, para isso, ser “essencial a consciência de um património histórico e cultural comum, em que assenta um projeto de futuro que gira em torno de valores também comuns” para que a Europa se torne uma “família de nações”. “São estas duas realidades que dão força e vitalidade às várias nações”, sustentou.

Foto © Samuel Mendonça
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Começando por lembrar que “a unidade da Europa e a unidade dos cristãos estão ligadas, tal como estiveram ligadas, historicamente, a desunidade da Europa e a desunidade dos cristãos”, o conferencista disse não ser “por acaso” que o projeto “Juntos pela Europa” congrega cristãos de várias denominações. “Em relação à unidade europeia pode dizer-se o mesmo: se os cristãos de várias denominações, unidos pela adesão ao Evangelho, não derem testemunho de unidade, como poderemos acreditar na unidade dos povos europeus?”, interrogou.

Lembrando que o lema da União Europeia (UE) é “unidade na diversidade”, considerou ser esse, talvez, “o seu maior desafio”, “o de uma experiência inédita de conjugação da unidade da Europa, com o seu património histórico comum e o seu projeto em torno de valores comuns”, “com a riqueza das diferenças nacionais, que essa unidade não deverá abolir”.

O preletor afirmou que, no âmbito das questões da vida e da família, “a ação da UE tem desiludido muitas pessoas que acreditam num projeto de unidade europeia assente nos valores da defesa da vida e da família”. “Por um lado, não estamos perante matérias da competência da UE e, por outro lado, estamos perante questões que estão longe de ser consensuais”, acrescentou, considerando que “a unidade europeia há-de assentar em valores que unem” e “não em questões que dividem profundamente os europeus”. “Não é certamente assim que pode ser mobilizado o entusiasmo de todos em prol do projeto da unidade europeia”, advertiu.

Vaz Patto considerou que “o património histórico e cultural que é comum aos europeus encontra no Cristianismo um elemento decisivo, que não exclui outros contributos, mas os integra numa síntese caraterística”. “Os valores que fundam o projeto da unidade europeia – a dignidade da pessoa humana, a paz, a justiça social, a solidariedade, a abertura à fraternidade universal – encontram no Cristianismo a sua semente histórica, sem que neles deixem de se reconhecer europeus de diferentes convicções”, afirmou.

No entanto, advertiu que “o Cristianismo não pode ser reduzido a uma marca identitária como outra qualquer, que cria barreiras com outras áreas culturais, numa lógica de conflito de civilizações” e sublinhou que afirmar as “raízes cristãs da Europa”, que “conduzem à hospitalidade e ao encontro com povos de outras culturas”, “ é comprometedor porque exige a coerência com os valores cristãos e não apenas a manutenção dos sinais externos dessas raízes”.

O orador, que se deteve nos discursos do Papa Francisco ao Parlamento Europeu e à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em novembro passado, advertiu ainda que sem esta “abertura a Deus” “é o próprio espírito da cultura europeia que fica reduzido e truncado” e que aqui entra “o contributo insubstituível dos cristãos” porque “não podem ser os Estados, com a laicidade que os carateriza a garantir esta abertura ao transcendente”. “Só o testemunho dos cristãos pode garantir essa abertura da Europa a Deus, a Europa do espírito, mais importante do que a Europa da economia, ou mesmo a Europa da cultura”, sustentou.

Foto © Samuel Mendonça
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Vaz Patto considerou ainda que “essa abertura da Europa a Deus serve de antídoto ao terrorismo fundamentalista”. “Ao contrário do que por vezes se afirma, esse antídoto não é a eliminação das religiões do espaço público, como se estas fossem necessariamente fator de violência. Pelo contrário, quando genuinamente vividas, as religiões são fator de paz. E a surpreendente e chocante atração de jovens pelo fundamentalismo nasce de um vazio de ideais que é preenchido da pior maneira, mas que não pode ser ignorado e que deveria ser antes preenchido da melhor maneira”, complementou.

Conferência de Pedro Vaz Patto:

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