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Foto © Samuel Mendonça

Dar a conhecer o “Presépio na Cidade” a partir das histórias de vida do ex-sem-abrigo Francisco ou do ex-delinquente Héber foi o propósito da responsável daquele projeto que nasceu no ano 2000 com o objetivo de ser um “sinal visível em Lisboa do nascimento de Jesus”.

Foto © Samuel Mendonça

Sofia Guedes veio ao Algarve na passada quinta-feira contar que aquele antigo sem-abrigo, que também era alcoólico,viveu 26 anos na rua. “Porque conheceu o ‘Presépio na Cidade’ decidiu que também podia fazer alguma coisa pelos outros. Saiu da rua e foi estudar jardinagem. Hoje é acólito e sacristão numa paróquia em Lisboa e carmelita da Ordem Terceira. Ganha o seu ordenado e é um senhor”, relatou aquela responsável, acrescentando que Francisco “é um fiel voluntário” do projeto desde o início. “Estou sempre a aprender com ele”, garantiu.

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A história de Héber, o ex-delinquente que “um dia chegou ao presépio para partir tudo”, é parecida. “Acolhendo-o conseguimos imensas coisas. Acabou por aprender a rezar e ficou responsável por tratar da ceia de Natal de quatro velhinhas que estavam sozinhas, passando com elas a quadra. Depois acabou por ser batizado”, contou no encontro que teve lugar no Colégio de Nossa Senhora do Alto, em Faro.

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Sofia Guedes testemunhou ainda o caso de “Esterzinha”, uma septuagenária a quem nunca ninguém tinha cantado os parabéns. “Um dia, lá no presépio, disse que fazia anos e nós fomos comprar uns bolinhos e cantámos-lhe os parabéns.Ela comoveu-se tanto que disse: «já posso morrer porque finalmente alguém me contou os parabéns»”, relatou, considerando o “Presépio na Cidade” como um projeto onde “acontecem muitos encontros, muitos «milagres» e coisas muito bonitas”.

É por isso que aquela responsável entende o “Presépio na Cidade” como “uma história de Deus e dos homens”. “Quem sobe o degrau do presépio, entra numa outra dimensão. Há qualquer coisa ali de transcendente”, garante, acrescentando que o projeto procura “falar às pessoas sobre o que é o verdadeiro Natal”, por forma a “levá-las ao essencial”.

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Assegurando que o “Presépio na Cidade” é um “projeto de perguntas” onde são feitas “sondagens de rua a partir de perguntas que o próprio Jesus fez”, Sofia Guedes destaca aquela iniciativa como um “espaço onde se pode conhecer o ser humano” e alerta que a sociedade “está a mudar”, garantindo haver um misto de “indiferença” e de “ignorância” em relação à mensagem cristã. “Há muitas pessoas que não fazem ideia da história do presépio”, conta, lamentando haver“muita gente perdida na cidade que não sabe quem é Jesus, muita gente que gostava de saber quem é, e, sobretudo, muita gente que não é nunca visitada”.

Como ícone desta sociedade em mudança, Sofia Guedes apresenta o caso do João, um “sem-abrigo por opção”. “Chegou ao 12º ano e disse que queria ser sem-abrigo. Vive miseravelmente”, lamenta, evidenciando ser “dramático” “uma pessoa que escolhe ser sem-abrigo, como poderia escolher ser engenheiro ou professor”. “Temos de aprender como é que falamos de Deus para estas pessoas”, alerta.

O “Presépio na Cidade” inclui também o trabalho com pessoas portadoras de deficiência, com toxicodependentes de uma casa de recuperação pertencente à Comunidade Vida e Paz ecom reclusas da prisão de Tires. Visitam também hospitais e a Maternidade Alfredo da Costa, incluindo a ala onde se fazem os abortos. “Fazemos sempre questão de ir lá, não para julgar ninguém, mas para levar o menino Jesus porque o menino Jesus pode curar muitas feridas”, refere Sofia Guedes, realçandoque aquele é “um presépio peregrino”.

Neste sentido recorda que já levou o projeto ao Rio de Janeiro (Brasil) e ao Dubai e a Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), onde falou sobre o presépio para os cristãos do Médio Oriente.

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Para além destas iniciativas, os voluntários dos 8 aos 80 anos que asseguram o “Presépio na Cidade” – e que Sofia Guedes diz não saberem quantos são –, promovem diariamente a recitação do rosário às 18h30 na rua Garrett, junto à basílica dos Mártires, onde está montado o estábulo com as imagens construídas e pintadas por aquela responsável. Este ano, terá como tema “Dou-vos a minha paz”, e será acrescentado com as figuras dos três pastorinhos de Fátima. “É bom trazer para o presépio os tempos de hoje para não ser uma história do passado”, justifica Sofia Guedes que já nele incluiu a imagem do papa Francisco, a quem enviaram este ano uma “manta de retalhos de 6 por 4 metros” que construíram com pequenos quadrados de tecido branco, nos quais os transeuntes foram convidados a escrever orações ou mensagens.

Anualmente é também promovido o “Jantar dos Bem-aventurados” com carenciados convidados na rua, realizada a “Via da Alegria”, umaprocissão com o menino Jesus, e celebrada a “Bênção das Grávidas”, participada por cerca de 60 futuras mães.

Por tudo isto, Sofia Guedes reconhece que o projeto procura dar resposta ao apelo repetido do papa de uma Igreja “em saída” que vá ao encontro das “periferias existenciais”. “Como batizados temos este dever de sair, de ir para fora como o papa Francisco também tanto pede”, referiu ao Folha do Domingo, acrescentando que seria desejável que o projeto, que já acontece em Évora e Santarém, se replicasse noutras zonas do país. “É replicável, mas exige muito trabalho, muita dedicação e muito tempo. Têm que ser pessoas que, se calhar, não estejam a trabalhar a tempo inteiro, que possam estar na rua”, advertiu, lembrando que o projeto é “muito simples, mas muito exigente”. “É muito duro, temos que suportar muito frio, temos que ter muita paciência, temos que ser muito fiéis”, observou.

O encontro no Colégio de Nossa Senhora do Alto inseriu-se no âmbito do seu lema para este ano letivo: “Não temas, transforma o mundo”.

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