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Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura pediu ao clero do sul para prosseguir o esforço de “inculturação”

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O presidente do Conselho Pontifício para a Cultura disse hoje ao clero do sul do país que é preciso prosseguir o esforço de “inculturação” que o Cristianismo “sempre fez”.

“A Bíblia atravessou quantas culturas e assumiu-as”, lembrou o cardeal Gianfranco Ravasi aos bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal que estão a realizar em Albufeira a sua formação anual.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Aquele responsável da Santa Sé, que refletiu sobre o tema “A evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente” e se referiu a três dimensões – “ciência e antropologia, infoesfera e arte e fé” –, desafiou os cerca de cem participantes a assumir os desafios que estas áreas encerram, a “não ter medo” nem a “ficar de fora” deles. “Estamos a viver nesta época uma revolução e não podemos ficar de fora, agarrados ao passado, um passado tantas vezes usado somente por outros para condicionar o ontem de maneira fundamentalista”, advertiu.

Enumerando elementos para “evangelizar e comunicar no mundo digital”, o teólogo e biblista considerou ainda que a Igreja deve “purificar” a sua linguagem. “A nossa linguagem é demasiado eclesiástica. Tem valores, mas é pouco compreensível no mundo de hoje. A cultura contemporânea não consegue entrar em sintonia com ela”, referiu, aludindo ao “cuidado com a comunicação”. “Usamos ainda demasiada retórica”, lamentou, defendendo o regresso a “um discurso mais incisivo”, particularmente na homilia. “A homilia é um género literário, mas não podemos continuar a pregar como se estivéssemos perante o público de há 50 anos, mesmo que sejam idosos”, alertou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Neste sentido, lembrou que “a cultura contemporânea, pela sua própria natureza, está ligada à imagem”, que tem o papel principal, sobrepondo-se às palavras que “são só um suporte”, e exortou ao regresso à criação de “imagens comunicativas”. “Jesus ensinou-nos isso, falava por parábolas”, sustentou, lembrando que o discurso do papa Francisco se concretiza muito naquela figura de estilo.

O orador, que começou por se referir a uma “nova categoria de «cultura» – a sua forma antropológica – e a uma “mudança” do seu próprio conceito, apelou ao “diálogo entre a fé, a ciência e a arte”, considerando que “todos contêm algo de Deus”. Neste contexto, defendeu a “continuidade com a riqueza do passado com a multiplicidade das expressões atuais”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Gianfranco Ravasi abordou ainda áreas como a manipulação e a engenharia genéticas, a neurociência, a robotização e a inteligência artificial, nomeadamente ao nível da criação de máquinas que visam não só “decidir como comportar-se”, mas inclusivamente chegar à “autoconsciência”. “A inteligência artificial é um campo que exige uma forte atenção cultural, ética e pastoral”, observou, considerando ser “necessário voltar a uma visão do homem mais completa”. “A ciência e a técnica de hoje são muito especializadas, mas ignoram muitos outros sectores”, afirmou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O presidente do Conselho Pontifício para a Cultura referiu-se à “infoesfera” como o “desafio da comunicação atual”, considerando que hoje se assiste à “quarta revolução da época moderna”, a da “revolução informática”, “depois da revolução científica, social e psicanalítica”. “Não é uma questão de técnica. É uma revolução global, antropológica”, defendeu.

O cardeal italiano disse ainda haver “um novo modelo humano de relação”. “A comunicação hodierna é a passagem a uma nova condição humana. É um novo mundo”, acrescentou, lembrando os nativos digitais e os millennials, termo utilizado para os nascidos depois do ano 2000.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A terminar lembrou “riscos” deste novo modelo como a “perda da capacidade critica” ou a “incapacidade da verificação critica”. “Este é um mundo, por excelência, virtual. Este virtual, na realidade, é também real”, evidenciou, exortando a comunidade cristã a “conservar, na virtualidade, o encontro concreto”. “A pessoa humana precisa do encontro”, observou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

As jornadas de formação do clero do sul, promovidas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, sobre o tema “Desafios para uma Igreja «Semper Renovanda» – Secularização, Diálogo, Discernimento”, prolongam-se até à próxima quinta-feira.

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