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Soares dos Santos defendeu, no Hotel Eva, que “não podemos continuar a querer investimento português e estrangeiro e a tratá-lo mal”. “Há milhentos países que me tratam bem. Eu sou mais bem tratado na Polónia do que sou aqui e isto não pode ser”, lamentou, acrescentando que “só podemos ter investimento estrangeiro se lhe garantirmos justiça decente e a horas e leis fiscais que não andem permanentemente a mudar”.

O empresário criticou também o “hábito de termos só direitos”, referindo-se concretamente ao Serviço Nacional de Saúde completamente gratuito. “Tenho um pacemaker que custou 7 mil euros e não paguei um tostão. Isto faz sentido?”, questionou, considerando que “não há hipótese de sustentar isto porque temos de pagar de qualquer maneira”. “Não pagamos no ato médico, pagamos nos impostos. No ato médico ainda sei para onde é que o dinheiro vai”, complementou.

Por outro lado, Soares dos Santos defendeu que “a sociedade portuguesa tem de perceber que o lucro é fundamental e o objetivo número um de uma empresa”. “Não tem nada de obsceno e é legítimo, desde que seja conseguido de uma forma correta”, afirmou, lembrando que “sem lucro não há investimento, aumento salarial, pagamento de dividendos e de impostos”. “A media, quando fala de lucros brutais, nunca se lembra de perguntar às pessoas qual o retorno que têm em função do que investiram. Admito é que se discuta o que é que vai para dividendos e o que é que vai para outras coisas”, acrescentou.

O presidente da Jerónimo Martins defendeu também que “empresas onde não há valores e transparência estão condenadas, não só pelo fisco”, mas pela própria estrutura. “Desde o tempo do meu avô, cada um de nós somos obrigados a pagar os nossos próprios impostos, não podemos ter refeições particulares debitadas à companhia, nem cartão de crédito da companhia”, testemunhou, considerando que “as pessoas têm de olhar para as administrações como exemplo de seriedade e conduta”. “Por isso, a auditoria interna é muito mais importante do que a auditoria externa. A externa normalmente não consegue entrar como deve ser e se apanha diretores inteligentes, passa ao lado. A auditoria interna conhece-os todos”, complementou.

Soares dos Santos apelou ainda ao “respeito por todos aqueles que trabalham”. “Uma das coisas que mais me ofende é ver no jornal que os trabalhadores chegaram à empresa, que nesse dia está fechada, e não há mais trabalho para eles. Não há direito”, observou, considerando que “as pessoas têm de saber que podem contar com a empresa em que circunstância for”.

O presidente da Jerónimo Martins exortou ainda à confrontação e avaliação dos governantes porque “somos nós que lhes pagamos o ordenado”. “Devíamos questionar os nossos governantes, obrigá-los a dar contas e pô-los na rua se mentem. Estamos numa situação miserável porque nos andaram a mentir. Isto não pode acontecer mais”, considerou, acrescentando que o país “tem futuro se nós quisermos”, lembrando outras crises ultrapassadas nestes oito século de história de Portugal.

O empresário defendeu ainda a necessidade de “investir muito em capital humano e em formação” e garantiu que o presidente de um conselho de administração “não manda, mas comanda pessoas”. “Se as pessoas não compreenderem que a figura do patrão desapareceu e que hoje uma companhia é constituída por um conjunto de pessoas que querem participar no seu desenvolvimento não haverá hipótese de crescimento”, evidenciou.

O orador falou ainda da “profissionalização da gestão”. “Na minha família só pode ser trabalhador da Jerónimo Martins quem apresentar um currículo, de preferência, com trabalho no estrangeiro. Por isso no conselho de administração da Jerónimo Martins a maioria dos administradores são estrangeiros”, explicou, lembrando que a empresa está nas mãos da sua família há um século.

A terminar, disse ainda que a saída de Portugal do União Europeia “seria uma desgraça neste momento porque iria obrigar a uma desvalorização brutal do escudo”. “Talvez não devêssemos ter entrado para o euro com a parilidade com que entrámos”, complementou, considerando que “para exportarmos mais temos de produzir e trabalhar mais” e que, apesar de a carga fiscal neste momento sobre os portugueses ser “um convite para as pessoas se irem embora” é preciso sermos “cidadãos honrados”.

A iniciativa, sob o tema “Portugal tem Futuro: A missão dos Lideres empresariais Cristãos”, foi precedida de uma Eucaristia na capela do Seminário de São José na capital algarvia.

Samuel Mendonça
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