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O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Portimão defende a necessidade de um “processo de reflexão muito profunda” sobre a missão daquelas instituições que diz não ser a de se limitarem a ter lares e creches.

Em declarações ao Folha do Domingo, João Amado afirma que as Santas Casas estão a “fazer cada vez menos obras de misericórdia” porque, como “braços do Estado”, “fazem aquilo que o Estado quer”. “Algum cristão gosta disto? Há algum cristão que ache bem que os pais das pessoas estejam todos enfiados num edifício, que haja edifícios com 50, 60, 100 idosos que não se conhecem de lado nenhum e que estão ali para ser cuidados? É esse o nosso papel enquanto cristãos?”, questiona, garantindo que não haver liberdade para fazer de outra forma.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Eu detesto este modelo de lar. E não é pela qualidade dos nossos lares em particular. É o modelo de sociedade a que estamos a conduzir. Nascemos e somos colocados numa ama ou numa creche e assim que perdemos toda a utilidade somos colocados num lar. E não é uma opção pessoal. Não é porque uns filhos são bons e têm os pais em casa e outros são maus e vão pô-los noutro sítio. É porque a sociedade nos leva a isto”, prosseguiu, criticando aquilo que diz ser o “primado do trabalho, do dinheiro, do prazer”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Eu não me imagino num sítio assim, num quarto duplo, espaçoso. Mesmo assim é uma pessoa que não conheço de lado nenhum, com quem nunca vivi, longe da família, dos amigos. Acho tão desumano que o caminho que temos pela frente seja este e que achemos que fazer obras de misericórdia se limita a isto”, desenvolve.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O provedor defendeu ser necessário contrariar o que considerou uma “mentalidade do idoso e do doente descartável” na sociedade. Aquele responsável disse que “a falta de respeito pelos mais velhos é uma coisa atroz porque traduz a falta de respeito uns pelos outros” e até de espiritualidade. “A espiritualidade não é ir à igreja cumprir o preceito e nós estamos a perder a espiritualidade. Só queremos saber daquilo que é terreno e mais básico e esta falta de proteção dos outros tem a ver com isso porque não acreditamos que aquelas pessoas a merecem porque estão acabadas e vão morrer em breve”, justificou.

João Amado lamenta que esta mentalidade esteja a ser transmitida às gerações mais novas. “Porque é que os jovens hão-de proteger alguém se aquilo que têm de fazer é ter boas notas para entrar num bom curso para depois ter um bom emprego e ganhar bom dinheiro. É isso que eles querem e a culpa não é deles. É isso que lhes estamos a dizer há anos”, criticou, acrescentando que esse “egoísmo” se nota até na forma como estão a encarar a atual pandemia.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O provedor lembrou que “os cristãos têm uma responsabilidade acrescida de que não se podem demitir, nem abandonar os outros”. “Que cristãos somos nós a fazer manifestações contra a eutanásia e depois, ao mesmo tempo, a admitir que temos de ir voltando à nossa vida porque a economia não pode parar e temos de voltar a fazer o que fazíamos. Ao dizer isto estão a dizer: «aquele já está velho, também não sai do lar, qual é o problema de morrer no lar? Se é obeso, hipertenso e diabético, qual é o problema dele morrer?”, questionou.

Aquele responsável considerou ainda que deveria ser “obrigação dos párocos” aconselharem os idosos a ficar em casa e a não participarem nas eucaristias. “Que um idoso de 80 e tal anos com uma doença respiratória sinta esse apoio espiritual na sua casa”, defendeu.

João Amado diz que a dimensão espiritual das Misericórdias ficou ainda mais afetada com as limitações impostas pela pandemia, na medida em que também os grupos de oração, constituídos por vários voluntários leigos, também deixaram de poder prestar aquele serviço que “trazia algum conforto alguma fé e alguma esperança” aos utentes. “A própria celebração da palavra foi desaparecendo”, lamenta.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Aquele responsável diz que “a pandemia veio pôr a nu aquilo que todos” sabiam e que aquelas instituições estão a ser confrontadas com a “realidade de um Estado que não exige médicos, nem um número de enfermeiros por aí além”. “Exige muito pouco para pagar pouco”, lamenta, lembrando que “não há médicos em número suficiente para saírem do Serviço Nacional de Saúde e virem para os lares”. “E os lares não conseguem pagar”, garante, lamentando existir uma visão “extremamente errada da sociedade sobre as IPSS”. “As pessoas acham que o Estado está a meter dinheiro nas Misericórdias e nas IPSS, mas o Estado paga só serviços. O Estado não oferece nada. Para nós é um bocadinho frustrante andar a dizer algumas coisas ao longo dos anos quando parece que estamos a falar de dinheiro”, refere, lamentando que o Estado deixe “que passe essa ideia de que está a apoiar as IPSS e a financiá-las”. “É precisamente ao contrário: as instituições é que têm de arranjar maneira de financiar um serviço que o Estado paga abaixo do valor de custo”.

João Amado garante o problema entronca na questão da sustentabilidade daquelas instituições e diz que “se a Misericórdia de Portimão chegar ao fim do ano sem um cêntimo porque teve todos os cuidados, comprou os equipamentos, contratou o pessoal e fez as obras que eram necessárias para o ano terá de ir arranjar fundos”. “Quem está a cuidar dos nossos pais e avós são pessoas a quem pagamos uma miséria. E não podem pedir que sejam as instituições a mudar o mundo sozinho porque tem que ser sustentáveis”, afirma, lamentando a visão empresarial de pessoas que “fazem contas a quanto é que se pouparia ao longo do ano” para a instituição ter “uns resultados mais equilibrados” e “não percebem o quanto uma refeição é importante para pessoas que ganham o vencimento mínimo”, algumas “mães solteiras” ou “imigrantes que estão cá sozinhos”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O provedor lamenta ainda alguma “falta de solidariedade da sociedade” para com as Misericórdias e “a facilidade com que se aponta o dedo”. “Se houve 10 casos [de covid] numa instituição, a primeira reação é dizer que alguma coisa correu mal e pode não ter corrido nada mal. Há centenas de casos em Misericórdias onde aquelas pessoas nada fizeram diferente de nós. Tiveram o azar de o vírus entrar por ali dentro. E a qualquer momento pode entrar porque o vírus é muito mais esperto do que as nossas medidas. Tenho esta preocupação toda com aquilo que as pessoas estão a sofrer, mas a preocupação não é menor com a entrada do vírus no lar. Esse é o meu pesadelo há meses”, afirma, garantindo que a percentagem de mortalidade na população idosa provocada pela infeção do novo coronavírus é de 16%.

Membro da Misericórdia de Portimão desde 2004 e provedor há 9 anos, João Amado decidiu não se candidatar a novo mandato.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A Misericórdia de Portimão tem cerca de 400 utentes, 200 funcionários e um “número flutuante” de prestadores de serviços. Com um orçamento anual de cerca de 4 milhões de euros, integra as valências apoio domiciliário, centro de dia (convertido neste momento como apoio domiciliário), duas ERPI – Estruturas Residenciais para Idosos (lares), creche e pré-escolar, sala de estudo, cantina social, duas UCCI (uma de convalescença e outra de média duração) e é detentora maioritária do Hospital de São Camilo.

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