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Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Na escola secundária tinha a certeza que queria casar e ter três filhos. Com 18 anos quis entrar para o Seminário para adiar a decisão de parar ou prosseguir os estudos, mas entretanto a vocação ao sacerdócio foi-se-lhe afigurando como algo que fazia sentido para a sua vida.

Natural de Monchique, o diácono José Chula vai ser ordenado sacerdote com 26 anos no próximo dia 26 deste mês, pelas 17h na igreja de São Pedro do Mar, em Quarteira, juntamente com o diácono Fernando Rafael Rocha. Texto e fotos por Samuel Mendonça

Por que é que tomaste a decisão de entrar para o Seminário?

Na escola secundária ainda não sabia o que queria fazer da vida, mas havia uma coisa que sabia: queria casar e ter três filhos. Portanto, não pensava entrar para o Seminário, nem ser padre. Entretanto, por altura do meu 11º ano, o agora padre Miguel Mário [Neto] foi estagiar para Monchique e ficou como meu catequista. E a sua forma de ser e de estar marcou-me. Nessa altura, mais ou menos por influência dele, comecei a acolitar.

Mas marcou-te em que aspeto?

Criou-se ali uma amizade no convívio com ele que, de alguma forma, acabou por ter influência.

Mas o facto de ele te ter incentivado a seres acólito foi determinante na tua caminhada?

Ele não me incentivou diretamente. Se calhar foi o relacionamento com ele que me fez querer isso.

E depois?
Depois ele foi para Timor quando eu e os restantes membros do meu grupo de jovens estávamos para ser crismados, mas antes sugeriu que nos integrassem na paróquia como catequistas e eu fiquei a fazer catequese. Na Quaresma perguntaram-nos se não queríamos fazer um retiro em Ferragudo e nós aceitámos. Quem orientou esse retiro foi o padre Rui que, na altura, era o responsável pelo Pré-seminário. Eu, na altura, andava atrás de uma moça do grupo e fui falar com o padre acerca disso. Fiquei danado com a conversa porque fui falar de uma coisa e ele propôs-me ir passar a Semana Santa ao Seminário. Disse-me que depois me enviaria um email que recebi uma semana antes da Semana Santa. Fui falar com um rapaz de Monchique, que já estava no Pré-seminário, para lhe dizer que estaria na disposição de ir com ele. Um primo meu, ouvindo a conversa, também quis vir. Viemos os três. O primeiro contato que tive com os seminaristas foi num contexto descontraído e de boa-disposição e aquilo, de alguma forma, interpelou-me. Não digo que fosse à espera de encontrar seminaristas de mãos postas e cabeça ao lado, mas aquela forma tão «normal» de ser e estar, surpreendeu-me.

Estando terminar o 12º ano, e como sou uma pessoa que não gosta de estudar, não estava com grande vontade de ir para a universidade. Vim a perceber depois que a decisão de entrada para o Seminário foi um caminho de fuga e não propriamente por querer ser padre.

Mas começaste depois a equacionar essa possibilidade?

Percebi depois que, no fundo, só estava a querer entrar para o Seminário para, pelo menos durante mais um ano, não ter de escolher entre continuar a estudar ou não. No ano propedêutico [preparatório, após o 12º ano, para ingresso no Curso de Teologia], ao participar no Lausperene [oração ao Santíssimo Sacramento], foi quando percebi que a minha vida poderia passar pelo sacerdócio. Recordo-me de chegar à Sé [de Faro], ajoelhar-me e pensar que estava ali toda aquela gente, como noutras paróquias do Algarve, ao longo de 15 dias, a rezar para que surgissem padres, ou seja, a rezar por mim que estava no Seminário. «Tenho de lhes dar alguma resposta, não posso desiludir esta gente toda. Se calhar ser padre até é uma coisa que faz sentido para a minha vida», pensei.

Entretanto o tempo foi passando e, numa adoração ao Santíssimo Sacramento no Seminário com cânticos de Taizé, pensei em deixar o Seminário e ir para Taizé para ser membro da comunidade. Tinha estado em Taizé duas vezes, em 2006 e 2007. Passados meses já tinha tomado a decisão e falando com o padre Manuel Rodrigues, diretor espiritual, aconselhou-me a contar ao padre Mário de Sousa, reitor. O padre Mário fez-me ver que o meu lugar seria na Diocese do Algarve mas ainda hesitei se seria capaz de continuar a estudar em Évora. A adaptação em Évora foi boa e durante dois anos seguidos fui nas férias fazer voluntariado para Taizé, participando na semana inicial na modalidade de silêncio.

Naquela altura já tinha mais ou menos certo que a meta da minha vida seria ser padre. O caminho é que não sabia ainda bem qual seria, mas achava que o tempo me iria fazer descobri-lo. A determinada altura, em Taizé, percebi que o caminho passaria por fazer os quatro anos de Seminário que me faltavam e esse foi um momento que me marcou, tal como o momento do Lausperene na Sé ou o da conversa com o padre Mário, pela forma direta como me fez ver que seria um erro ir para irmão de Taizé. A fé dá-nos a força e a certeza de que a nossa felicidade está no Senhor. As dúvidas não desaparecem mas a escolha torna-se clara.

“Havendo falta de padres percebi que o Senhor me chamava a dar o meu contributo para colmatar essa falta

O facto de teres tido no teu tio um testemunho muito próximo de vivência do ministério e também no teu pai, embora seja diácono, não foi um motivo acrescido por teres optado por esta vocação?

Tanto o meu pai como o meu tio tiveram uma grande influência na minha vida ao nível da minha formação humana, da minha personalidade, mas não influência que me levasse a querer, como padre, seguir o exemplo deles. Havendo falta de padres percebi que o Senhor me chamava a dar o meu contributo para colmatar essa falta. Sei que é com orgulho que a minha família me verá ser ordenado padre, mas nunca senti a mais pequena pressão nesse sentido.

“Estou desejando de ser padre para me pôr ao serviço

Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Pediste agora para seres ordenado. Achas que é este o momento certo?

Sempre disse que não teria pressa para ser ordenado, mas enquanto não for padre não posso dar à Igreja aquilo que sei que posso dar, que quero dar e que a Igreja precisa que eu dê. Não posso dizer que é o momento certo. É o momento necessário. Sendo padre posso dedicar-me realmente ao povo de Deus como vou sentindo que é aquilo que Deus me pede desde há alguns anos. Nesse sentido, estou desejando de ser padre para me pôr ao serviço.

“Quero ser é um padre que as pessoas saibam que poderão contar comigo

E que tipo de padre queres ser?

O lema que eu e o Rafael escolhemos para o nosso ministério é «Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas» [Jo 10, 11]. No fundo, o grande Pastor é Jesus e é a Ele que nos temos de esforçar por seguir, mas, ao mesmo tempo, o grande carisma do padre é ser pastor, é estar ao serviço junto das pessoas, dar-se totalmente a elas como o pastor que cuida das ovelhas. É uma doação total que não pode olhar a horários ou a cansaços. Quero ser é um padre que as pessoas saibam que poderão contar comigo quando e onde precisarem, seja num movimento [eclesial], seja através de uma palavra amiga. O que eu quero é que a minha vida seja um constante levar as pessoas a aproximarem-se de Deus. Quero que as pessoas olhem para mim e digam: «este homem está cheio de Deus». Que a minha vida seja um «farol» que guie as pessoas até Deus, mais do que aquilo que eu possa dizer. Na sociedade de hoje os testemunhos é que falam, mais do que os programas pastorais.

Mas achas que, pelo facto de teres vivido experiências relacionadas com a juventude – quer na Comunidade Ecuménica de Taizé, quer no Agrupamento 890 de Évora do Corpo Nacional de Escutas –, vão fazer com que sejas um padre mais sensível para trabalhar, por exemplo, na Pastoral Juvenil?

Não necessariamente. O trabalho com a juventude agrada-me mas não se pode ser um bom padre fazendo apenas aquilo de que se gosta. Para mim seria mais fácil, mas se me centrasse no trabalho com a juventude acabaria por não evoluir. Tenho de me dedicar àquilo que é necessário e não àquilo de que gosto.

“A grande dificuldade de ser padre hoje em dia advém de todas solicitações não específicas do ministério

Quais são, na tua opinião, os principais riscos que corre um sacerdote hoje em dia?

Perder a «estrela polar» que é Jesus. Podemos fazer ações muito bonitas, mas não podemos esquecer que quem orienta tudo é o Espírito Santo. A grande dificuldade de ser padre hoje em dia advém de todas solicitações não específicas do ministério. Corremos o risco de começar a deixar Deus um pouco para trás, esquecendo que é Ele quem nos guia.

Que mensagem gostarias de deixar a alguém que esteja neste momento a pôr a hipótese de enveredar pela vocação sacerdotal?

Em momento de decisão devemos sempre procurar, não a opção que achamos que temos motivos para escolher, mas a que sabemos que nos vai fazer felizes. A alguém que se questiona se deve entregar a sua vida de uma forma mais visível a Deus, diria simplesmente: na dúvida, experimenta-se. Se for esse o caminho, será um caminho de felicidade. Se não for, com muita naturalidade se deixa e a vida segue. Se, por medo, não se experimenta, ficará sempre cá dentro a dúvida a remoer.

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