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Reitor do Santuário de Vila Viçosa disse ao clero do sul que é preciso purificar a piedade popular

Foto © Samuel Mendonça

O reitor do Santuário de Vila Viçosa disse ao clero do sul de Portugal que é preciso purificar a piedade ou religiosidade popular.

“A Igreja nunca rejeitou esta prática. Agora pede-se é que a purifiquemos”, concluiu o padre Francisco Couto na atualização do clero das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, que decorreu a semana passada no hotel Jupiter, em Portimão.

Ao abordar a dimensão da religiosidade popular na segunda de duas mesas redondas que procuraram apontar as “Áreas prioritárias na Ação Pastoral da Igreja”, o orador considerou aquela necessidade como uma “oportunidade de cuidar”. “Aqui [nas manifestações de religiosidade popular] encontramos as pessoas, talvez como já não encontramos nas nossas comunidades. Tal mudança da ação pastoral de que temos falado poderá encaixar e também encontrar aqui o seu lugar. Percebidos os problemas e desafios, devo começar a cuidar”, afirmou.

No entanto, o sacerdote admitiu ter “medo que a proposta pastoral passe por um nivelar sem saber valorizar”. “De repente, parece que os padres só sabem «dizer missa» e que já não há outras expressões cultuais válidas a propor”, constatou, lamentando que a celebração eucarística, “em vez de ser cume e fonte”, se tenha tornado a “oferta básica, anulando qualquer sentido de gradualidade e adaptação às diferentes capacidades e momentos”.

“Sabemos apreciar aquilo que vem de trás, o passado, os edifícios, a música e consideramos património a defender e a valorizar. E por que não com estas formas, as quais a piedade é chamada a cultivar o sentido da fé e da devoção para com o Senhor, a Virgem e os santos?”, interpelou, considerando que as “celebrações renovadas da Igreja podem proporcionar a todos o contacto com as fontes indispensáveis da Bíblia e da liturgia”, “ao mesmo tempo que o sentido da adaptação pode dar origem a formas que sejam expressivas do homem todo e da sua cultura”.

Foto © Samuel Mendonça

Citando um diretório da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos sobre o tema, o padre Francisco Couto lembrou que “liturgia e piedade popular são duas expressões legitimas do culto cristão, embora não homologadas”. “Não devem ser contrapostas nem equiparadas, mas sim harmonizadas. Liturgia e piedade popular são duas expressões cultuais que se devem pôr em mutuo e profundo contacto. O caminho para resolver o motivo de desequilíbrio ou de tensão entre liturgia e piedade popular é o da formação do clero e dos leigos”, destacou.

Daquele documento da Santa Sé, enumerou ainda os “critérios e indicações de áreas a tentar cuidar”. O “primado da liturgia”, a “linguagem verbal e gestual, textos e fórmulas”, as “imagens sagradas”, a “superação do hibridismo”, a “concorrência e contraposição naquilo que são as ações litúrgicas” foram os aspetos apontados.

Lembrando que “a religiosidade popular opõe-se um bocadinho ao abstrato” e “procura ter elementos concretos a que celebrar, vivenciar e experienciar”, considerou “importante” e “necessário” “conhecer melhor as manifestações da piedade popular, sob pena de se perder a sua matriz cristã e evangélica e elas degenerarem em mera curiosidade etnográfica ou folclórica”.

Neste sentido desafiou a “conhecer melhor, apreciar os seus valores, corrigir com tolerante paciência eventuais desvios, inspirar a sua renovação, pondo-as mais em contacto com a palavra de Deus e articulando-as melhor com a liturgia da Igreja”, recordando práticas originárias da piedade popular que passaram a oração da Igreja como o ângelus, o rosário, a via-sacra ou a regina coeli.

O sacerdote apontou assim entre as “grandes caraterísticas da piedade popular que podem ser trabalhadas, purificadas e orientadas”, a “relação entre religião e tradição”, “entre religião e sentimento”, “entre religião e moral” e “entre religião e esperança”.

Lamentando, por outro lado, encontrar “manifestações de piedade ou religiosidade que parecem entrar em conflito com a proposta celebrativa e vivencial da fé cristã”, embora destacando que “o movimento litúrgico e a reforma litúrgica puseram termo a um divórcio secular entre a liturgia e a vida cristã”, o orador lembrou que “os primeiros anos da receção do segundo concílio do Vaticano foram marcados por um certo neo-iluminismo racionalista”.

Foto © Samuel Mendonça

“Viveu-se uma espécie de purificação do espaço Igreja, por exemplo com a retirada de muitas imagens de santos, mas também as devoções e as práticas derivadas da piedade e da religiosidade popular foram questionadas, marginalizadas e frequentemente suprimidas em nome da promoção de uma liturgia renovada e pura. Suprimiram-se procissões, devoções, usos de sacramentais e hoje algumas paróquias não têm nada ou têm muito pouco”, recordou, considerando que se criou “um certo vazio”. “Evangelizar, purificar, renovar com sabedoria, prudência, paciência e persistência teria dado muito mais trabalho do que suprimir, mas não teríamos acumulado um passivo tão preocupante”, afirmou, citando o padre João da Silva Peixoto.

A atualização do clero das dioceses do sul, que se realizou de 16 a 19 deste mês, tendo como tema “Levar Cristo às periferias humanas e existenciais: os novos areópagos”, contou com cerca de 120 participantes, incluindo, para além dos bispos das quatro dioceses, o bispo emérito da Diocese de Singüenza-Guadalajara (Espanha), D. José Sánchez González, que também esteve presente.

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