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Responsável da Santa Sé desafiou clero do sul “à ousadia de ser criativo para repensar a evangelização”

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O presidente do Dicastério para a Nova Evangelização da Santa Sé desafiou hoje os membros do clero do sul do país “à ousadia de ser criativos para repensar a evangelização” como resposta à “presença de práticas pastorais com cheiro a mofo e a ranço”.

“A nossa pastoral deveria, portanto, tender a transformar as nossas comunidades para «sair» de si mesmas e para ir ao encontro dos outros”, afirmou D. Rino Fisichella na sua reflexão sobre o tema “A autonomia das realidades terrenas: secularismo e/ou secularização? Que evangelização para o Mundo Hodierno?” aos bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, que estão a realizar em Albufeira a sua formação anual.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na sua reflexão sobre o tema “A autonomia das realidades terrenas: secularismo e/ou secularização? Que evangelização para o Mundo Hodierno?”, o colaborador do papa exortou o clero do sul do país a fixar “o olhar no ser” e não na “armadilha” do “fazer” e do “ter”. “Se dedicássemos as nossas forças a multiplicar atividades e iniciativas, esquecendo aquilo que as deve suportar e a finalidade para a qual lhes damos vida, chegaríamos ao fim do dia com a profunda ilusão de não ter produzido muito”, alertou. “Não é plausível que, no fim de contas, todo o nosso trabalho seja a multiplicação de missas”, acrescentou ainda.

“Se a resposta estivesse em encontrar imediatamente técnicas, iniciativas concretas ou estratégias, estaríamos a seguir o caminho do fracasso”, advertiu, acrescentando que para fazer “algo de eficaz” e “apresentar a proposta cristã num modo novo”, “em primeiro lugar é necessário ter uma profunda compreensão do mundo de hoje”.

Nesse sentido, alertou que para o atual “movimento cultural” que “tem o seu ponto forte no niilismo de Nietzsche”. “Estamos no fim de uma época que, para o bem e para o mal, marcou a história destes últimos séculos; estamos para entrar numa nova era do mundo que se apresenta ainda incerta nos seus primeiros passos e parece vacilar devido à fraqueza do pensamento”, completou, considerando que “a fraqueza de pensamento está relacionada com a fraqueza da fé”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Rino Fisichella considerou a internet uma “nova cultura”, “antes de ser um instrumento de informação” e que, por isso, “o que merece uma particular consideração”, não é tanto o uso que se que se faz dela. “Como todas as culturas, o que aparece em primeiro plano é a incidência que ela exerce sobre a vida das pessoas e no seu modo de pensar e de se comportar”, sustentou, considerando que, neste âmbito, a internet “coloca grandes problemas mesmo do ponto de vista ético” e que “inexoravelmente está a ganhar pé uma nova forma de pensamento e de organização da vida social”.

Aquele responsável da Santa Sé disse que “esta perspetiva faz emergir uma caraterística da nova evangelização, que consiste em reavivar a fé dos cristãos”. “Por diversos motivos, tomou-se uma fé fraca e, portanto, precisa de um renovado impulso. Estamos a falar das pessoas batizadas que, no entanto, não vivem as exigências do batismo, pessoas dispersas por todos os continentes e por todas as Igrejas, especialmente aquelas em que o secularismo colheu o maior número de vítimas”, concretizou, exortando a “um cuidado pastoral peculiar destes batizados”.

“A tarefa da nova evangelização é também a de encontrar formas adequadas para que estes cristãos voltem a encontrar Jesus Cristo, vivo na vida da comunidade cristã, e possam, assim, redescobrir a beleza da fé”, completou, referindo-se a “tantos batizados que deixaram de ter identidade e de compreender o sentido de pertencer à comunidade cristã”.

O orador disse que deve “ser prioritário” “recuperar a consciência daquilo que determina os comportamentos das pessoas”. “É urgente compreender que estamos perante uma alteração de paradigmas de pensamento e de linguagem que já não permitem que se encare a vida, o mundo, a relação com os outros, a fé e os grandes valores como no passado”, prosseguiu, apelando ao “primeiro objetivo” de “considerar a importância da linguagem”, não apenas no sentido das palavras, mas também dos “gestos”, das “expressões” “e, sobretudo, os estilos de vida”. “Evitar esta passagem nem é útil, nem contribui para que a nossa proposta pastoral continue a ser chamativa”, avisou, aconselhando a “conteúdos breves com uma linguagem incisiva e compreensível” com recurso a “novas expressões semânticas ou novas parábolas da vida do dia-a-dia”, sublinhando a “importância”da “preparação da homilia e da catequese”.

Neste contexto aconselhou à “repetibilidade dos conteúdos” para “incidir na memória”, advertindo que “não basta dar uma bela catequese e, depois, não voltar mais ao assunto”. Exortou ainda à “paciência”, “que sabe esperar o momento mais oportuno para verificar a comunicação dos conteúdos e a sua eficácia”, e ao “empenho de saber recuperar com força o encontro interpessoal e a direção espiritual” dos fiéis.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Rino Fisichella explicou que a Igreja é chamada a “renovar o espírito missionário para dar aquele salto, capaz de corresponder às exigências que a nova situação histórica demanda”. “A Igreja é chamada, portanto, a revigorar-se a si mesma naquilo que tem de mais essencial, como é o caso do anúncio missionário”, sustentou.

O arcebispo referiu-se concretamente à catequese e à sua relação com a nova evangelização. “Parece-me que deveríamos sair do túnel, em que, ao longo de algumas décadas, a catequese foi pensada apenas em vista dos sacramentos. Se a catequese vive em função dos sacramentos, que hoje estes estão reduzidos aos da iniciação, é óbvio que começa a falhar na sua própria função, que é a de consentir o amadurecimento da fé em relação com as condições de vida do crente”, afirmou, manifestando o receio de “que se tenha sacramentalizado demasiado a vida de fé, esquecendo que esta se exprime também com a formação e o testemunho da caridade”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O conferencista pediu ainda atenção ao “catecumenado”, que “vai envolvendo muitos adultos”, considerando também que o “caminho laborioso” que “a Igreja é convidada a trilhar” deve ter no centro a família e os jovens. “Entre as várias crises que estão a ter lugar, sem dúvida, está também a da família, a qual deve chegar, da nossa parte, uma atenção totalmente peculiar e de encorajamento”, afirmou.

O presidente do Dicastério para a Nova Evangelização referiu também a importância da arte cristã, lembrando o “grande contributo que a fé dá à cultura”, e destacou que a “organização estrutural da comunidade”, a sua preocupação “económica e financeira” “não são a prioridade pastoral”. “O facto de, no passado, se ter colocado este horizonte como empenho prioritário levou a que, hoje, tenhamos comunidades cansadas, fracas, sem juventude e, infelizmente, cada vez mais estéreis”, “incapazes de gerar, porque os olhos não estavam fixos no essencial, mas no estrutural, caindo, infelizmente, no efémero”, lamentou.

As jornadas de formação do clero do sul, promovidas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, sobre o tema “O homem: caminho de Cristo e da Igreja”, prolongam-se até à próxima quinta-feira.

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