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Salvador: “Foi só depois do acidente que me dei conta de que Deus existe”

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Eu tive uma educação católica, mas nunca aprofundei muito essa ligação, nem essa aproximação a Deus. E foi só passado uns 6 ou 7 anos depois do acidente que me dei conta de que, de facto, Deus verdadeiramente existe e que, de uma forma ou de outra, Ele está cá presente”, afirmou Salvador Mendes de Almeida, que em 1998, com 16 anos, sofreu um acidente de moto no Algarve que o deixou tetraplégico.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

No serão familiar, promovido no passado dia 24 de maio pela paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Portimão na escola secundária Poeta António Aleixo daquela cidade, Salvador de Almeida recordou aquela noite, em que depois de um jantar com amigos, resolveu sair mais cedo da discoteca e por estar cansado, após um dia de futebol e praia. “Na quinta rotunda do aldeamento, adormeci na mota e embati contra um placar de publicidade que me fraturou logo a vertebra cervical”, contou, lembrando o acontecimento que lhe mudou a vida.

No encontro, intitulado “Serão Familiar: Quando a vida nos prega uma partida”, Salvador, que em 2003 fundou uma associação com o seu nome a que preside, lembrou que “uma das coisas que nunca punha em causa era deixar de praticar desporto”, particularmente râguebi, futebol e montar a cavalo, e que “vivia a vida ao limite como todos os jovens gostam”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O orador explicou que a sua reação inicial “foi de choro e de medo” ao pensar que seria da vida. “Ter a presença dos meus amigos, ter a minha mãe todos os dias e o meu pai ao fim de semana e o facto de ter Deus também presente na minha vida fez não me sentir tão perdido”, acrescentou sobre o período de reabilitação em Espanha, realçando também a importância dos amigos. “É muito importante ir-se adaptando e, sobretudo, não se fechar e partilhar com os outros estas dificuldades”, acrescentou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Lembro-me de algumas conversas que, ao longo destes anos, fui tendo aqui com o nosso amigo padre Nuno Tovar de Lemos, de como a presença de Deus e as pessoas que nos rodeiam dão outro sentido e outra visão. Para sermos felizes precisamos ter algum sentido na vida e eu encontrei isso nos meus amigos, na Associação Salvador”, testemunhou.

O orador destacou o facto de estar presente também na área social e de “poder conhecer e testemunhar inúmeras histórias de pessoas com limitações” que o desafiam. “Essa camaradagem que se vai tendo com outras pessoas é fundamental também para podermos saber aceitar as condições em que vivemos, mas nem sempre é fácil. Há situações muito difíceis e dias muito difíceis de ultrapassar”, observou, considerando que “Deus escreve direito por linhas tortas”. “Muitas vezes não queremos entender o que é que a vida nos traz, mas depois Deus encarrega-se também de nos dar as pessoas certas. Há dias em que custa mais aceitar a ajuda dos outros e há outros em que estamos mais alegres e bem-dispostos”, complementou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Fui aprendendo a viver e a continuar a sonhar. Os sonhos de ser atleta de alta competição, de ir para a seleção de râguebi, de continuar a saltar a cavalo e de continuar a lutar pelas melhores classificações tiveram de ser modificados. Reaprendi a fazer a minha vida de uma muito mais limitadora e com muito mais ajudas. Uma das coisas que aprendi é que tem de ser um passo de cada vez e viver a sorrir um dia de cada vez”, testemunhou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Salvador destacou outro aspeto dessa aprendizagem. “Aprendi, ao longo deste tempo, a descobrir forças ou características para enfrentar a minha situação de paraplegia e dependência. Se eu não tivesse tido o acidente, essas forças estariam sempre adormecidas e nunca seriam despoletadas”, realçou, reconhecendo que “quem é católico e tem uma ligação com Deus, tem uma confiança extra”. “Ao longo destes 20 anos, os momentos mais adversos foram ter de ficar três meses numa cama. Foi nessas alturas que aprendi que estava mais próximo de Deus. Muitas vezes, só percebia a ajuda de Deus nos momentos mais difíceis. Quando está tudo bem, uma pessoa, muitas vezes, esquece-se de agradecer e isso é uma coisa que tenho vindo também a melhorar e a afinar nesta relação”, contou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O outro orador do serão, foi António Quadros e Costa, a quem aos 15 anos foi diagnosticada atrofia muscular espinal tipo 3. “Tenho uma mutação no tipo de genes controladores na produção de uma proteína que mantém e regenera os neurónios motores”, explicou, acrescentando que, com a produção em défice da proteína, os “músculos não se regeneram como deviam”. “Comecei a perder força, caía muitas vezes e fazia muitos entorses”, lembra.

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António, que em comum com Salvador tinha o gosto pela equitação e pelo desporto, recorda que depois de saber da doença viveu um “período de negação”, enquanto conseguiu “fazer tudo, mais ou menos, o que já fazia antes”. Seguiu-se depois um tempo “de revolta e de choro” quando se apercebeu da realidade. “Revolta com a vida, com os outros, com Deus, com tudo. Até que um dia tive que aceitar e aprender a viver”, acrescentou.

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“O que permite que eu viva em paz com a minha situação foi o momento em que percebi que vale mais a pena confiar do que viver amedrontado”, sustentou, considerando ter sido fundamental “perder os medos” e “assumir aquilo que era” porque “a vida trata de pôr alguém” a servir de apoio. “É importante dar este crédito e este ato de confiança e de fé porque ela sabe mais sobre nós do que nós próprios”, acrescentou, reconhecendo a importância da confiança em Deus.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O orador acrescentou que a aprendizagem incluiu “ter de ganhar humildade” para perceber que a sua vida “depende dos outros”. “Isso foi uma grande chapada. Tem-me ajudado a ser uma pessoa mais humilde”, assegurou, acrescentando que a doença o tem ajudado a relativizar-se. “Ajuda-me a perceber que, de facto, eu sou pequenino, mas se não tivesse a doença seria pequenino na mesma porque isto é tudo muito maior do que eu. Essa aprendizagem é diária porque eu estou sempre a querer ser ao contrário”, afirmou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Tal como Salvador, António também defendeu ser fundamental não estar centrado no seu sofrimento, mas abrir-se “às alegrias” e “à vida dos outros”. “Estar em paz permite olhar com um olhar atento para a vida dos outros, estar mais atentos ao que se passa à nossa volta”, garantiu.

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