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O orador lembrou que Portugal, em democracia, praticamente nunca teve as contas do Estado equilibradas. “O nosso problema é que estamos há mais de dez anos a viver 10% acima do que é possível”, observou, lembrando que “as famílias portuguesas passaram a poupar muito pouco” e que “a maior parte da nossa dívida é ao estrangeiro”.

O conferencista não concordou com quem aponta o dedo da atual situação aos mercados. “Há especulação, mas o essencial é que nós demos motivos para que desconfiem se vamos pagar”, justificou.

Na intervenção recordou que “há muito que temos uma crise que foi mais ou menos dissimulada com a crise internacional”. No entanto, o orador explicou que, em Portugal, a crise “não afetou muito a banca”.

Sarsfield Cabral criticou o desinteresse dos governantes no equilíbrio das contas públicas. “Convencemo-nos que éramos ricos”, lamentou, lembrando o endividamento das empresas, famílias e Estado e que a poupança das famílias começou novamente a “cair a partir do primeiro trimestre de 2010”.

Lamentando o não funcionamento do mercado de arrendamento em Portugal, disse que a “única coisa positiva que está a acontecer à economia portuguesa” é o aumento das exportações.

Criticou uma “mudança de atitude” em “trabalhos que as pessoas aceitavam e já não aceitam agora”. “Essa mudança foi agravada pela atitude deste Governo. Só no fim de setembro é que foram tomadas medidas mais duras e os portugueses não estavam preparados”, lamentou, considerando que “ninguém preparou as pessoas para isto” e que “o rendimento das famílias vai cair este ano 2,4%”. “A crise agora já não vai ser só para alguns, vai ser para muitos. Vamos agora ter um problema sério porque as medidas são duras e possivelmente ainda haverá mais”, admitiu, acrescentando que “outro fator que levou as pessoas em 2009 a não acreditar que estávamos em crise é que os preços caíram 0,8%”.

Sarsfield Cabral defendeu a necessidade de uma “política séria, de preferência baseada em maiorias parlamentares” e considerou ser preciso “produzir mais, de maneira mais competitiva”. “Temos de mudar de nível de vida e não são necessariamente os pobres porque esses já têm um nível baixo”, constatou.

A concluir, admitiu que “a crise pode ajudar a dar valor ao que vale mesmo” e “combater a ânsia da ascensão social”. “A crise já teve um gesto positivo: dinamizou a solidariedade”, observou, admitindo que possa ainda dar ocasião a que se desenvolva a “economia social”. “É preciso procurar novos modelos económicos”, defendeu.

Samuel Mendonça

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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