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“O facto de não chover tem efeitos nos calibres das laranjas, que não estão a crescer tanto como em outros anos, porque a irrigação que tem por base as águas subterrâneas não produz frutos tão grandes”, disse à Lusa Horácio Ferreira, diretor-geral da Cooperativa Agrícola de Citricultores do Algarve (CACIAL).

O problema, afirma, não é a fraca produção de laranja e outros citrinos, pois este ano a quantidade de fruta é maior do que em anos recentes, mas sim a menor percentagem de frutos de tamanho superior ao exigido pelos mercados de consumo, sobretudo as grandes superfícies, que requerem diâmetros superiores a 73 milímetros.

“A água da chuva produz frutos maiores, embora de qualidade idêntica, porque a água de cima [chuva] tem microelementos diferentes e por outro lado a chuva molha a árvore, cai no chão e aduba o terreno”, explicou.

Sem chuva, os agricultores estão a recorrer a águas de furo, através do sistema de rega gota a gota, o que faz incorporar menos água nos frutos.

As grandes superfícies e a chamada grande distribuição rejeita todos os frutos de tamanho reduzido, que têm que ser vendidos a preço mais baixo para mercados de fruta menos exigentes ou, na esmagadora maioria dos casos, para a indústria de sumos, a preço bem mais baixo.

“Temos barriga de ricos e carteira de pobres”, resume Horácio Ferreira, reforçando que o tamanho do fruto não se reflete na qualidade do seu interior, nomeadamente na quantidade e doçura do seu sumo.

O dirigente cooperativo exemplifica que a laranja com calibre para a grande distribuição pode ser vendida entre 12 a 18 cêntimos/quilo ao retalhista, enquanto a laranja pequena sai a 10 cêntimos/quilo para a indústria.

“Quer seja laranja grande ou pequena, o custo da apanha para o agricultor ronda sempre os 5 cêntimos e depois, descontados outros fatores de produção, ele tem que subsistir com o que resta, o que dá um terço ou um quarto do preço a que ele vendeu o quilo”, disse, avisando que, a manter-se a situação, muitos poderão entrar em falência dentro em breve.

Horácio Ferreira lamenta que o mercado não se mostre acolhedor para a “excelente qualidade” da laranja de baixo calibre, pois este ano a produção é superior ao ano passado – curiosamente porque não há chuva -, o que, com um custo por quilo mais alto, poderia ser positivo para os agricultores.

“Imaginemos uma árvore que produz 100 quilos de laranja. Este ano, 40 quilos vão para o mercado e 60 para a indústria. Mas no ano passado, mesmo depois de se desperdiçarem 20 quilos que caíram devido à chuva, dos restantes 80 quilos só 20 foram para a indústria, porque 60 foram aproveitáveis pelo grande retalho”, explicou.

A acrescer às dificuldades de preço e penetração no mercado, os agricultores queixam-se que a falta de chuva está a fazer subir a fatura da eletricidade, uma vez que a extração de água do subsolo é feita, na maioria das vezes, com recurso a motores elétricos.

“Com o fim da eletricidade verde e o aumento do IVA na eletricidade a situação ainda fica bem pior”, sustentou.

A acrescer aos custos com a eletricidade, a falta de chuva está a fazer subir também os custos com a água quando a rega se baseia em água das barragens.

De acordo com o presidente da Associação de Regantes do Sotavento Algarvio, João Sabbo, a taxa paga pelos agricultores à associação é de 0,0462 euros por metro cúbico de água utilizada.

“Já estamos há mais de um mês sem chuva e a necessidade de rega é maior”, disse, recordando que normalmente os períodos de seca são bianuais, como aconteceu nos anos de 2004 e 2005, e o mesmo pode acontecer em 2012/2013.

Recordou que a chuva em excesso também é prejudicial para a produção de citrinos, que exige muitos dias de sol, e que a distribuição da pluviosidade ao longo do ano é fundamental para uma agricultura de qualidade.

O Algarve produz entre 300 e 400 mil toneladas de citrinos por ano, em produções distribuídas por 18 mil hectares.

Lusa
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