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A iniciativa, que decorreu na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira, contou com a participação de diversas instituições da área sócio-caritativa e procurou dar a conhecer os seus projetos, permitindo entre si a troca de experiências e a partilha de necessidades.

Jorge Botelho, presidente da Câmara de Tavira, lembrou na sessão de abertura que, “nos tempos que correm, a sociedade precisa, cada vez mais, de solidariedade”. “Há muita coisa por fazer e muita gente que pode ajudar”, sublinhou, lembrando que, por vezes, as pessoas necessitam apenas de “conforto”.

O autarca, que adiantou que o município de Tavira tem mais de 100 voluntários e “é missão da Câmara orientá-los”, considerou que “o grande problema da pobreza é o isolamento e o esquecimento”.

O padre Afonso Cunha Duarte, pároco de Santa Catarina da Fonte do Bispo e missionário, alertou na mesma sessão que hoje está a operar-se na sociedade uma “revolução silenciosa” para se “fundar uma nova consciência social” que visa “transformar a sociedade”. “A Europa está corrompida nos seus valores. Nada é sólido, nada tem forma. Tudo é líquido e molda-se conforme a situação”, denunciou, lembrando que “há valores a despertar”.

O sacerdote, que lembrou experiências de 17 anos de trabalho nos bairros de Miraflores, Pontinha, Amadora e Queluz, advertiu que “ser voluntário é um desafio exigente” e “tem que ser um compromisso”. “Ter boa vontade não chega, é preciso formação para exercer com eficiência”, defendeu, lembrando que 72,5% do voluntariado é exercido pela Igreja católica. “Só agora é que está a nascer o voluntariado promovido pelas Câmaras e Juntas de Freguesia”, complementou.

O padre Cunha Duarte apelou à “cooperação, articulação e coordenação” entre instituições e à criação de “relações de vizinhança”, garantindo que “é preciso saber trabalhar em equipa”. Apelou à necessidade de “leigos comprometidos numa nova sociedade” para combater uma “sociedade adversa aos valores intrínsecos da pessoa humana”.

Eurico Palma, que sublinhou também a perda de valores da sociedade que considerou “light”, disse ser “fundamental que as instituições e as pessoas se unam” para devolver alguns valores à mesma sociedade. Citando madre Teresa de Calcutá, aquele responsável da Divisão de Ação Social da Câmara Municipal de Tavira, lembrou no primeiro painel da tarde, sobre Voluntariado, que “o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá” e exortou à “procura de resposta para a problemática do outro”.

Lembrando que a “caridade é mais profunda do que a solidariedade”, evidenciou que o voluntariado deve assentar nos princípios da “solidariedade, participação, complementaridade, gratuidade, responsabilidade e convergência”. “O voluntariado não se deve substituir aos recursos das entidades promotoras”, disse, acrescentando que “um gesto, um olhar, um sorriso é muito mais importante do que dar o pão, o dinheiro e o apoio social”. “Se calhar, a nossa sociedade tem muita fome disto”, complementou.

Hélia Martins, do Banco de Voluntariado de Tavira, explicou que aquele projeto, que conta com 96 voluntários, 24 dos quais em avaliação, procura ser um “espaço de encontro entre voluntários e entidades que tem como objetivo sensibilizar cidadãos e organizações para o voluntariado, difundir projetos e oportunidades e partilhar conhecimentos sobre esta área”.

Aquela técnica advertiu que “a responsabilidade e o compromisso é algo fundamental” no voluntário. “Desistir no meio do caminho é um grande golpe para quem recebe apoio e um sentimento de abandono que ninguém consegue restituir”, testemunhou, garantindo que as instituições não têm muitos recursos humanos. “Vivemos uma situação de crise e as pessoas estão sobrecarregadas de trabalho. As instituições estão cada vez mais recetivas para receber voluntários”, adiantou.

Conceição José, presidente da Conferência Virgem Santíssima, da Sociedade de São Vicente de Paulo de Tavira, explicou a origem das Conferências de São Vicente de Paulo e o trabalho da conferência tavirense.

A voluntária adiantou que aquela instituição apoia presentemente 100 famílias de Tavira e que, no Natal e na Páscoa, essa ajuda alarga-se a 150 agregados familiares. Para além disso têm ainda a funcionar um “banco de roupa” e intermedeiam doações de móveis e eletrodomésticos aos mais necessitados. “Se não fizermos por amor nada disto é bom, nem para quem dá nem para quem recebe”, advertiu, lembrando que “não vale a pena falar de Deus a uma pessoa que não se sinta amada”. “Na partilha de bens e afetos está a verdadeira fecundidade da nossa vida de homens livres e cristãos convictos”, disse.

Carlos Oliveira, presidente da Caritas Diocesana do Algarve, deixou, no painel sobre Solidariedade, um apelo para que a solidariedade sirva para emancipar o outro, o “liberte” e o “ajude a caminhar”. “Deve-se fazer da solidariedade uma ajuda para que o ajudado saiba caminhar por si e não se sinta marginalizado, vítima do assistencialismo que muitas vezes a caridade traz consigo”, alertou.

Pedro Cebola, do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA), em Faro, informou que a instituição apoia atualmente mais de 800 pessoas com alimentação diária e que o trabalho é assegurado por muitos jovens voluntários, estudantes universitários e do secundário, alguns até no âmbito de projetos de área escola.

Aquele responsável sublinhou os “desafios e motivações” que os voluntários devem ter no seu trabalho e questionou o “porquê de se falar do voluntariado a longa distância se mesmo ao lado da nossa casa, na nossa vizinhança, há tanta necessidade de intervenção social”.

O padre Tony Neves, coordenador nacional dos JSF, lembrou que os “grandes gritos da missão de hoje” têm a ver com as questões da “justiça e paz, da exclusão social e mundial e da ausência de uma caminhada cristã em Igreja” e aludiu à “capacidade de alargar horizontes e sentir que a pátria é o mundo”. “Não tenho o direito de pôr fronteiras de qualquer espécie na relação com os povos”, disse, lembrando que o “grande papel da Igreja e dos seus missionários é o derrubar toda a espécie de fronteiras e de fazer uma opção muito clara pelos mais pobres e excluídos”. “Viver o Evangelho e os valores cristãos é a forma mais perfeita de ajudar a que a humanidade seja um espaço de fraternidade, justiça, paz e solidariedade”, acrescentou o sacerdote que se referiu aos principais projetos no âmbito do voluntariado missionário levado a cabo pelos JSF.

Rui Branco, coordenador regional dos JSF, testemunhou a sua participação numa destas iniciativas, a “Ponte 2011”, que uniu Portugal a Kalandula, na província de Malanje (Angola), entre 1 a 29 de agosto passado, desfiando os jovens presentes a participar numa iniciativa do género.

Este seminário integrou ainda uma exposição fotográfica, intitulada “Olhares sobre o Outro”, que esteve patente de 29 setembro a 1 de outubro, composta por fotografias de vários membros do grupo de JSF organizador que realizaram projetos de férias solidárias em Portugal, Brasil e Angola, bem como fotografias do concurso “Voluntariado: Mobilização para um Mundo Melhor”, cedidas pela Fundação Irene Rolo.

Os JSF são um movimento missionário fundado pela congregação dos Missionários do Espírito Santo (espiritanos). No Algarve, para além do grupo de Santa Catarina da Fonte do Bispo, com cerca de 15 elementos, existe ainda um outro em São Brás de Alportel, com cerca de seis membros.

Samuel Mendonça

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