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A paróquia de Silves apresentou publicamente, no passado sábado, o trabalho de recuperação do seu arquivo histórico-documental desenvolvido ao abrigo de um protocolo estabelecido em setembro de 2009 com a Câmara Municipal.

A ação de apresentação, que teve lugar na Sé, inseriu-se no ciclo “Memórias Escondidas”, no âmbito do projeto “Rota das Catedrais” que visa a recuperação patrimonial daqueles monumentos mas também a sua promoção como verdadeiros polos de cultura.

O pároco de Silves lembrou que o arquivo constitui um “instrumento imprescindível na vida da Igreja pois respeita à atividade pastoral e evangelizadora desenvolvida nestes espaços, dá constância aos cânones que lhe estão vinculados e é verdadeiro testemunho da história e da vida de uma comunidade” e salientou a referência do Código de Direito Canónico que “anota o cuidado com os livros, o património e o arquivo”.

O padre Carlos de Aquino lamentou que a comunidade cristã de Silves “não seja ainda uma comunidade aberta à cultura como é à fé”. “Sei que, a este nível do património, há algumas pessoas particulares que, indevidamente, têm parte do espólio e do património que, por direito, pertenceria à comunidade paroquial. Oxalá que o esforço deste estudo e trabalho também crie o desejo de repor à comunidade o que é da comunidade para usufruto de todos”, apelou o sacerdote, manifestando vontade de tornar aquela catedral um “fórum imenso de cultura”.

O representante da Conferência Episcopal Portuguesa da secção de arquivos do Concelho Nacional da Cultura que é também diretor de Serviços de Arquivística e Apoio Técnico da Direção-Geral de Arquivos, considerou uma “boa estratégia” o trabalho desenvolvido em parceria pela paróquia e autarquia no quadro da desejável colaboração mútua entre as entidades religiosas e civis.

Pedro Penteado destacou que o trabalho agora apresentado é apenas o início de um caminho a percorrer e aconselhou a paróquia ao estabelecimento de uma “política de arquivos”, através da criação de uma “estratégia de gestão integrada dos seus arquivos”, e à elaboração de um “regulamento” para o arquivo paroquial, agora disponível para consulta, que permita “definir as regras” do seu funcionamento. “Que a comunidade não pense só no arquivo histórico mas também no que está a produzir hoje e que amanhã será a sua memória”, pediu.

O diretor do Arquivo Distrital de Faro, assegurou que “a Igreja tem demonstrado, ao longo dos anos, preocupação pela segurança e proteção dos seus documentos” e lembrou que o inventário publicado é “defesa muito importante contra a perda de documentos da própria paróquia”, manifestando desejo que “as colaborações entre a Igreja e as entidades civis continuem porque o Algarve necessita bastante que os seus documentos sejam disponibilizados, recuperados e defendidos”.

João Saboia adiantou que, no Algarve, já se encontram “organizados, com inventariados publicados de acordo com as normas arquivistas”, os arquivos das paróquias de São Clemente e São Sebastião de Loulé, Salir, Alte, Querença e São Pedro de Faro, assim como o arquivo da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Faro, acrescentando que o Arquivo da Diocese do Algarve “tem uma sala própria onde está a organizar-se e tem um inventário que devia ser melhor trabalhado”.

Luís Oliveira, investigador e professor da Universidade do Algarve, que lamentou que este não seja o desaparecido Arquivo Medieval da Sé de Silves, lembrou por sua vez que, “para os arquivos poderem ser lugar de memória, é necessário, não apenas conservá-los, inventariá-los e divulgar os inventários respetivos, mas também assegurar, não apenas aos investigadores mas também aos cidadãos, condições para a consulta”.

Maria Luísa Pereira e Vera Gonçalves, técnicas superiores do Arquivo Municipal de Silves responsáveis pelo trabalho, explicaram que o mesmo consistiu na “identificação, organização e inventariação do arquivo paroquial”. “Realizou-se o diagnóstico preliminar que constatou que existiam situações de perigo de conservação do arquivo, carências de condições de guarda e acondicionamento e inexistência de instrumentos de controlo documental”, constataram, evidenciando haver “documentos em visível deterioração causada por humidades excessivas, fungos e insetos bibliófagos resultante do seu deficiente acondicionamento”.

Feita a higienização dos documentos, passou-se ao tratamento arquivístico propriamente dito, tendo sido identificadas e organizadas todas as séries documentais existentes, produzido o inventário disponível através de aplicação informática digital e de uma publicação (apresentada igualmente no sábado) e feito o acondicionamento do arquivo, cuja datação se compreende entre 1638 e 2006.

Os trabalhos foram iniciados em fevereiro de 2010 e concluídos em dezembro do mesmo ano.

 

Samuel Mendonça
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