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Silves, Messines e Sta. Bárbara: Protocolos com municípios permitiram a organização dos arquivos paroquiais

Silves, S. Bartolomeu de Messines, Santa Bárbara de Nexe: estas três paróquias da diocese do Algarve organizaram (ou estão a organizar) os seus Arquivos Paroquiais, com o apoio das autarquias da sua área geográfica.

Eulina Ribeiro (coordenadora técnica da Secção de Arquivo), Vera Gonçalves (técnica superior de Arquivo), Luísa Pereira (técnica superior de Arquivo na Câmara de Silves e atualmente diretora do Arquivo Distrital de Faro) e Susana Guerreiro (assistente operacional), todas elas da Câmara Municipal de Silves e Tiago Barão (técnico superior de Arquivo), da Câmara Municipal de Faro (que contou com a colaboração de João Saboia, anterior Diretor do Arquivo Distrital de Faro e de António Madeira da Cruz, assistente técnico do Município de Faro), estiveram durante várias semanas a limpar, preservar e organizar toda a documentação existente nestas comunidades.

 

Tiago Barão explica que o trabalho começou pela «seleção e higienização da documentação», tendo sido feito, posteriormente, «um levantamento dos fundos e das diferentes séries documentais através de fichas de recolha de dados», bem como a atribuição de «classificações provisórias aos documentos» e sua organização em fundos. O trabalho concluiu com a introdução da «informação numa base de dados» e a elaboração do quadro de classificação de documentos.

Em Silves e S. Bartolomeu de Messines também se definiram três fases distintas de intervenção: identificação do estado de conservação, higienização de documentos e tratamento arquivístico.

Recuperacao_arquivos_paroquiais (2)E os técnicos tiveram várias surpresas relativamente ao estado em que encontraram os documentos. Conta Vera Gonçalves que, «no caso da Paróquia de N. Sra. da Conceição de Silves, o estado de conservação não era o mais adequado», havendo «uma visível deterioração causada por humidades excessivas, fungos e insetos bibliófagos, resultante do seu deficiente acondicionamento», que era feito num «armário de madeira, sem arejamento e propicio a propagação de pragas». Eulina Ribeiro recorda que «os documentos apresentavam um elevado grau de deterioração e grande parte dos livros encontravam-se colados às paredes envolventes e prateleiras, empestados de insetos e com humidade excessiva».

Recuperacao_arquivos_paroquiais (1)Já no caso da Paróquia de S. Bartolomeu de Messines, grande parte da documentação estava em bom estado, tendo apenas o pó normal, acumulado nos seus muitos anos de existência.

«Toda a documentação arquivística foi descrita segundo as Normas Internacionais da Descrição Arquivística – ISAD (G), tendo sido usada a aplicação informática DIGITARQ», explica Luisa Pereira. Foram atribuídas cotas e todos os documentos foram acondicionados em pastas, caixas e armários, de modo «assegurar a futura conservação da documentação tratada».

Documentos encontrados contam a história das comunidades

No caso de Santa Bárbara de Nexe não foram encontrados documentos com particular relevância histórica, já que o mais antigo data de 1917, Todavia, foram encontrados escritos relativos à Entrega do Igreja e da Casa Paroquial à Paróquia de Santa Bárbara de Nexe, que «se encontravam desaparecidos e eram necessários para realizar o Registo Predial dos edifícios», conta Tiago Barão.

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Em Silves, a documentação existente é bastante mais antiga, recuando a 1638. «De entre os diversos documentos, os mais importantes, pela informação contida, são os das visitas pastorais que se encontram registadas em livros referentes às Visitações à Igreja Matriz pelo Bispo do Algarve (de 1638 a 1910)», explica Luisa Pereira. Nestes livros há muita informação sobre «a vida dos paroquianos, sobre património e referências aos procedimentos a seguir na administração de bens e da doutrina por parte dos sacerdotes», conta.

Desde os livros de assento de batismo, casamento e óbito dos paroquianos, passando pelos Róis de Confessados (de 1790 a 1931), uma espécie de censos realizados pela época da Quaresma, tudo foi encontrado no Arquivo Paroquial de Silves. «Alguns livros possuíam capas em pergaminho, que eram reutilizações, contendo no verso textos», conta Eulina Ribeiro, mencionando, ainda, que nos sótãos, para além de documentação, também foram encontradas peças de arte sacra e baús forrados a pergaminho, que se julga terem servido «para a guarda e transporte de manuscritos».

«O conjunto arquivístico da Paróquia de S. Bartolomeu de Messines é composto por livros e documentação avulsa, com as datas extremas compreendidas entre 1675 a 2013», diz Vera Gonçalves e revela algumas curiosidades: «Esta paróquia tem na sua posse o Registo Paroquial referente ao ano de 1905 o que é curioso, uma vez que com a criação do Registo Civil, em 1911, se fez a retirada dos livros com os assentos paroquiais anteriores a 1910 para as Conservatórias do Registo Civil. Outra curiosidade tem a ver com o facto de haver uma anotação a indicar qual foi o 1º óbito causado pela pneumónica em outubro de 1918».

Recuperacao_arquivos_paroquiais (1)Na Paróquia de Santa Bárbara de Nexe o trabalho ainda não está concluído, facto que ainda não permite a Tiago Barão e à Câmara Municipal de Faro dá-lo a conhecer, embora haja essa vontade. Em Silves, no entanto, após a conclusão do trabalho relativo à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em julho de 2010, foram publicados três artigos na Revista Invenire – Revista das Bens Culturais da Igreja e aguarda-se a publicação de um quarto. As técnicas também estiveram presentes num Workshop de Arquivística, promovido pelo Centro de Estudos de História Religiosa (Universidade Católica Portuguesa, 2013), onde apresentaram uma comunicação sobre o seu trabalho. Aliás, este trabalho foi dado como um exemplo de boas práticas no 10º Encontro Nacional de Arquivos Municipais, em 2011.

O próprio inventário do Arquivo da Paróquia de Silves, intitulado “Fundo Arquivístico da Paróquia de N. Sra. da Conceição de Silves”, foi publicado em conjunto pela Paróquia e pela autarquia.

Paróquias e autarquias: protocolos permitem o tratamento dos arquivos

Recuperacao_arquivos_paroquiaisEste trabalho de preservação dos arquivos paroquiais de Silves, S. Bartolomeu de Messines e Santa Bárbara de Nexe é resultado de protocolos estabelecidos entre as paróquias e as Câmaras de Silves e de Faro.

No caso de Santa Bárbara a ideia de realizar este trabalho partiu de «uma catequista que trabalha no museu de Loulé e é nossa conselheira na preservação e conservação do património da paróquia», conta o pároco, Padre Miguel Neto. «Enviou-se um email para o Arquivo da Câmara de Faro e após uma visita à paroquia de Santa Barbara de Nexe, visita essa que também foi acompanhada por João Sabóia, anterior Diretor do Arquivo Distrital de Faro, decidiu-se fazer um protocolo», revela o sacerdote, acrescentando que o «processo foi simples e desde o primeiro contacto houve um bom entendimento e entreajuda».

No concelho de Silves, a ideia partiu das próprias técnicas do Arquivo Municipal, que abordaram o pároco, padre Carlos Aquino e havendo interesse de ambas as partes, foram assinados, em 2009 e em 2014, protocolos para «identificar, organizar e inventariar o Arquivo Paroquial de Silves, sem perda de sua legítima propriedade», explicam as técnicas.

Em ambos os casos, os Municípios disponibilizaram os recursos humanos e as paróquias prestaram toda a colaboração necessária para o bom decurso dos trabalhos.

Aliás, organizar os espólios arquivísticos, para melhor os preservar, mas também para melhor conhecer a história das suas comunidades era uma necessidade sentida pelos párocos. Miguel Neto define o trabalho desenvolvido pelos técnicos como «um trabalho de enorme paciência» e «uma mais-valia», já que permitiu «preservar e conservar o património histórico-religioso, colocando o espólio não só ao serviço da paróquia, mas também do concelho e da freguesia». E salienta: «Não podemos esquecer que o espolio histórico-religioso paroquial se confunde com a história das localidades».

Questionados sobre a importância deste tipo de parcerias, os técnicos são unânimes: elas são muito importantes para a preservação do património e não deverão existir apenas entre paróquias e autarquias, mas alargar-se a outras «instituições de carater cultural, detentoras de espólios documentais de interesse para os concelhos, de modo a evitar a deterioração e desaparecimento dos mesmos», como afirmam as técnicas de Silves.

Miguel Neto também considera que apenas «um verdadeiro encontro de sinergias, que permita colocar em comum vários conhecimentos, permitirá promover o nosso património junto daqueles que nos visitam» e refere que «pensa solicitar, no futuro, ajuda para a conservação e preservação de peças de estatuária e para a criação de um pequeno um núcleo museológico comum à Paroquias de Estoi e Santa Barbara de Nexe». Revela, igualmente, que o trabalho de organização do arquivo paroquial de Estoi, paróquia de que também é responsável, arrancará em breve e será feito nos mesmos moldes.

Este tipo de boa prática, se for seguida por muitas outras paróquias algarvias, poderá ajudar a reverter o panorama no que toca à organização dos arquivos que, pelo conhecimento de Tiago Barão «não estão na sua maioria organizados», não existindo sequer, em muitas situações, «um levantamento da documentação existente», como afirmam as técnicas do Município de Silves.

Recuperacao_arquivos_paroquiaisPermitirá, igualmente, acabar com as desconfianças e medos que possam existir, já que a organização dos arquivos é uma forma de preservar um património caro a toda a sociedade e à Igreja.

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