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“Sinto-me uma pessoa abençoada!”

Natural de Albufeira, viveu em Tunes até aos 12 anos, mas foi na paróquia de Ferreiras que cresceu na fé cristã.

Já como catequista percebeu que a sua vida passaria por conduzir as outras pessoas a Jesus, o Cristo com quem ganhou intimidade através da Comunidade Emanuel.

Licenciou-se em Educação Social na Universidade do Algarve em 2005, mas uma experiência vivida em França foi decisiva na sua vida. A esta seguiu-se outra em Itália que lhe deu a conhecer o fundador das irmãs Filhas de Maria Auxiliadora (salesianas).

Entrou na congregação como aspirante no dia 22 de agosto de 2007 no Colégio de Nossa Senhora do Alto em Faro. Passados uns meses foi para a comunidade do Monte Estoril, em Cascais. A 3 de setembro de 2008 iniciou o postulantado e, em agosto do ano seguinte, o noviciado em Roma (Itália), tendo realizado a primeira profissão religiosa no dia 5 de agosto de 2011, no Centro do Turcifal do Patriarcado de Lisboa.

Atualmente é coordenadora da pastoral do Externato Nossa Senhora do Rosário, em Cascais, e professora de Educação Moral e Religiosa Católica.

No próximo dia 7 de outubro, a irmã Linda Vieira, de 34 anos, celebrará a sua profissão perpétua na sua igreja de São José das Ferreiras na eucaristia das 15h30, presidida pelo bispo do Algarve, e Folha do Domingo foi falar ela. Entrevista por Samuel Mendonça

Nasceste no seio de uma família católica. Como foi vivida a tua infância e juventude?

Fui uma criança e jovem muito feliz! A presença do meu irmão foi sempre muito importante pois era alguém com quem podia sempre partilhar. O exemplo de dedicação e fé simples dos meus pais educou-me a olhar para a vida com esperança e a certeza que Deus nunca falha.

Frequentaste a catequese, mas passaste por uma crise de fé e foi com a Comunidade Emanuel que descobriste Jesus. Como foi que conheceste a Comunidade Emanuel?

A crise de fé vivida no início da juventude foi a normal da idade. Trata-se daquele momento em que queremos ter a nossa fé e não a dos nossos pais. A Comunidade Emanuel, nessa altura, ensinou-me a tratar Jesus por “Tu”. Conheci-os através da irmã mais velha de uma amiga que fez uma experiência com eles em Boliqueime: Escola de Emaús. No ano seguinte fui eu própria a fazer um caminho de oração e acompanhamento com eles que mudou a minha vida. Até hoje, sinto-me muito acompanhada e apoiada espiritualmente por uma amiga desse tempo.

Ser catequista foi a grande alegria
da minha juventude.
Quando me apercebi do bom
que era anunciar Jesus
não queria fazer outra coisa!

 

Ser catequista ajudou-te a perceber que a tua vida passava pelo testemunho de Jesus Cristo?

Ser catequista foi a grande alegria da minha juventude. Quando me apercebi do bom que era anunciar Jesus, não queria fazer outra coisa! Apesar de a vida académica a um dado momento me ter quase limitado nessa missão, nunca o deixei de fazer e sentia verdadeira alegria em estar com os miúdos, em preparar formas de lhes transmitir a mensagem, de os conduzir a Jesus.

Mas houve uma fase em que admitiste que esse anúncio de Cristo podia ser feito sendo casada e com filhos.

A possibilidade da vida matrimonial sempre foi uma hipótese que coloquei na minha vida. O exemplo dos meus pais e as relações de amizade e até de namoro que tive levavam-me a contactar com a beleza da entrega de vida a uma outra pessoa. Sentia que constituir uma família era um caminho lindo que também eu podia percorrer!

Fui percebendo (…)
que não conseguiria circunscrever
o meu amor
a um número limitado de pessoas

 

Mas quando ou como é que percebeste que o teu caminho era outro?

Fui percebendo, através da paz e alegria que determinadas experiências me deixavam, que não conseguiria circunscrever o meu amor a um número limitado de pessoas. Parecia-me que Deus me pedia que respondesse com todo o meu amor ao seu grande amor por mim! A dimensão universal foi tomando espaço no meu coração e comecei a olhar para os jovens e para as pessoas que me rodeavam como pessoas a levar a Jesus. Eu ainda não sabia no que isto ia dar, mas sentia que Jesus estava a fazer um caminho.

Depois de terminares o curso, o ano de estudo que viveste, a convite da Comunidade Emanuel, na sua Escola Internacional de Formação e de Evangelização em Paray-le-Monial (França), ajudou discernires o que querias realmente para a tua vida? Foi um marco determinante no teu processo de discernimento vocacional?

Esse ano foi decisivo na minha vida, uma experiência única de encontro com o Senhor através de uma comunidade de jovens à procura do mesmo: crescer na amizade com Jesus para o poder anunciar mais e melhor nos seus contextos culturais. Foi uma experiência intercultural que me disse muito do que é pertencer à Igreja Católica. No final daquele ano eu sabia que queria ser uma discípula de Jesus, leiga ou consagrada. Hoje, porém, consigo ver que tinha ainda vários preconceitos em relação à vida consagrada!

Ocasionalmente (ou não)
conheci em Itália
a vida de D. Bosco.
(…) Fiquei apaixonada!

 

Entrada no postulantado

E como é que ultrapassaste esses preconceitos?

Os preconceitos desmoronaram numa outra experiência que fiz, ainda com a Comunidade Emanuel em Roma [Itália]. Trabalhei três meses no Centro de Jovens do Vaticano – Centro S. Lourenço e aí conheci seminaristas de várias partes do mundo e religiosas muito jovens que estudavam ou trabalhavam em Roma. O Senhor permitiu-me contactar de perto com estas pessoas de modo a perceber o quão normais e felizes eram! Costumo dizer que foi aí que vivi a “santa inveja” que me interpelou bastante e que me abriu horizontes novos. Ainda que inconscientemente, nesses meses coloquei também eu a hipótese de ser toda de Deus.
Ocasionalmente (ou não) conheci em Itália a vida de D. Bosco. Antes de regressar a Portugal fiz umas férias curtas na Toscana para conhecer a zona e fiquei hospedada na casa de irmãs dominicanas que acolhem quem queira passar uns dias por ali. No quarto que me deram estava um livro da vida do santo dos jovens! Fiquei apaixonada!

Tinha demasiados preconceitos
na minha mente
e não colocava minimamente
a hipótese de vir a ser religiosa

 

Mas pese embora não conhecesses a vida de D. Bosco, fundador da congregação salesiana, conhecias já as irmãs que a ela pertencem porque trabalhavam na tua paróquia. De que forma é que a presença e o trabalho delas te interpelou? Projetavas o teu futuro na vida religiosa à imagem delas?

As irmãs na minha paróquia foram sempre só “as irmãs”! Não as associava a uma congregação (tal era a minha ignorância eclesial). Admirava a paciência que tinham de esperar umas pelas outras no final das catequeses e da missa, o viverem em união e procurarem servir Jesus. Mas naquela altura eu tinha demasiados preconceitos na minha mente e não colocava minimamente a hipótese de vir a ser religiosa.

(…) os que casam têm a missão
de deixar filhos à humanidade,
os que se consagram
têm de deixar santidade!
Assumo isto como uma missão!

 

Primeira profissão

Na altura da tua primeira profissão religiosa disseste querer entregar a tua vida a Deus, segundo o projeto carismático salesiano, seguindo os seus fundadores, com a comunidade das irmãs, na missão que o Senhor te propusesse. Já percebeste que missão é que Ele te propõe?

Cada dia é uma atualização diferente! O nosso Deus é bastante criativo. Mas eu diria que a grande missão é procurar sempre a sua vontade. O resto é consequência disso!
O meu irmão um dia partilhou comigo um pensamento que jamais esquecerei. Disse-me que os que casam têm a missão de deixar filhos à humanidade, os que se consagram têm de deixar santidade! Assumo isto como uma missão!

(…) ter participado da construção
da igreja de São José das Ferreiras
foi determinante na construção
da minha identidade cristã

 

Para além da experiência em Paray-le-Monial consegues identificar na tua caminhada mais alguns acontecimentos/momentos/vivências/pessoas que tenham sido igualmente determinantes?

A quotidianidade da vida paroquial com o pároco, os catequistas, os jovens e os adultos foram como que um berço onde tudo isto começou. A própria experiência de ter participado da construção da igreja de São José das Ferreiras foi determinante na construção da minha identidade cristã.
Ao nível diocesano, a experiência dos Convívios Fraternos foi sem dúvida muito importante. O trabalho com a equipa e, de modo especial, o acompanhamento por parte diretor espiritual da altura, padre Mário Sousa, foram determinantes para o meu caminho vocacional.

Convívio Fraterno

Como avalias e que balanço fazes do teu percurso vocacional?

Sinto-me uma pessoa abençoada! O Senhor deixou que eu desse as voltas que queria para o encontrar e deixar-me guiar por Ele! Foi ao meu encontro em todos os momentos, mesmo quando me parecia ausente e aí, em cada instante, foi modelando o meu coração e preparando-o para a grande aventura da felicidade que é viver da sua vontade.

Gostaste sempre de trabalhar com a juventude e a catequese (e é também nessas áreas que tens trabalhado nos últimos anos). Esperas viver a tua consagração ao serviço nessas áreas? Marcada por alguma caraterística?

Para isso me consagro: para a salvação dos jovens, para lhes anunciar a boa notícia da redenção de Jesus. Seja onde for, seja como for, quero o que Deus quer. Só peço que Ele me conceda sempre a graça de lhe responder com verdade e generosidade.

Gostavas de poder vir a ter oportunidade de trabalhar na Diocese do Algarve?

Penso que o Senhor me dará o dom da alegria em qualquer lugar de missão! No Algarve a alegria seria, com certeza, especial. Mas seja como Ele entender! O lugar para o qual importa verdadeiramente caminhar é o céu!

Vejo este tempo
como um convite
à santidade!

 

Esta diminuição acentuada do número de vocações consagradas que se vive hoje é também um desafio à tua consagração?

Vejo este tempo como um convite à santidade! Procuro ler esta realidade à luz de Deus, percebendo o que nos quer dizer com os desafios que nos coloca. Há que responder ao Senhor com todo o coração. O resto, Ele fará! A messe é d’Ele e esta certeza é a nossa força.

Que mensagem gostarias de deixar a alguém que neste momento se sinta interpelado a seguir a vida consagrada?

Escutar e acolher o convite do Senhor a sermos todo(a) d’Ele é a maior e melhor aventura que nos podia acontecer! Não responder é dramático, pois implica sobreviver quando somos chamados a viver plenamente! Deus ama-nos e nunca nos desilude! Coragem! Há todo um mundo à espera da vida de Deus.

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