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Sismo_1969
Destruição em Vila do Bispo em 1969

Quarenta e cinco anos depois do sismo de 1969, persiste ainda o trauma no espírito de Manuel Candeias, uma das vítimas do terramoto, que foi ferido com pedras na cabeça.

Naquele dia 28 de fevereiro de 1969, a terra tremeu durante cerca de 60 segundos, provocando um morto em Lagos e centenas de desalojados em toda a região algarvia, contou à Lusa Artur Jesus, historiador.

Um dos desalojados foi Manuel Candeias, 71 anos, de Vila do Bispo. O antigo faroleiro em Sagres estava em casa quando o sismo ocorreu – foi registado pelas 03:41, segundo o Instituto Geofísico de Coimbra.

Pensou que ia morrer com as pedras que lhe rolaram pela cabeça abaixo dentro de casa.

Jornal_sismo_1969
Capa de Folha do Domingo no dia 8 de março de 1969

No dia em que ocorreu a tragédia, tinha terminado o turno “com uma hora de sol” no Farol do Cabo de S. Vicente. Depois, entregou o serviço ao colega e rumou para Vila do Bispo, onde tinha a mulher e a filha.

Passou pela tasca e, já em casa, recorda-se de ouvir uma espécie de camião parado à porta e uma “grande tremedeira”. Lembra-se, também, de ouvir o sogro a dizer que era um tremor de terra e “que iam morrer todos”.

“Eu senti uma pedrada na cabeça e pensei: Olha, já morri!”. Correu, então, para o berço para salvar a filha, de dois anos, mas a mulher já a havia retirado. Manuel foi encontrar a família a salvo, no exterior da casa.

O epicentro do sismo foi registado perto do Banco de Gorringe, a aproximadamente 200 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente. Manuel Candeias confessa que depois daquele desastre natural a sua vida mudou e, até hoje, nunca se vai deitar sem ter a certeza de ter uma lanterna à mão.

“A casa foi deitada abaixo”. Manuel e a família foram morar para uma casa prefabricada em Vila do Bispo.

Viveriam umas 1.500 pessoas em Vila do Bispo e metade das casas ficaram destruídas. Umas foram recuperadas e cerca de 20 famílias foram viver para casas prefabricadas”, recorda o faroleiro.

A maioria da população da aldeia de Fonte dos Louzeiros, no concelho de Silves, também ficou desalojada. Num artigo do jornal “O Século”, com o título “O fim do mundo passou pelo Algarve”, lê-se que das 16 casas da aldeia restou uma em pé.

Maria dos Santos, de 70 anos, recebeu uma carta há 45 anos de sua mãe a contar que quando a terra tremeu na noite de 28 de fevereiro de 1969 os seus pais ouviram um grande estrondo e logo a seguir pedras a cair em cima da cama. A mãe contou-lhe que se encostaram no fundo da cama e que gritaram à outra filha, de cinco anos, para ficar quieta no sítio onde estava.

“Graças a Deus não ficaram feridos. A casa rural é que ficou abalada e tiveram de construir uma casa nova”, conta Maria dos Santos, reformada, recordando que a casa da “avozinha ficou toda destruída”.

Os sogros de Mário Rosa Pedro, 75 anos, também viviam em Fonte dos Louzeiros e não ganharam para o susto.

“A minha sogra estava deitada na cama e dois paus caíram ao lado dela. Ela ficou no meio das traves”, lembra Mário Rosa Pedro, revelando que a população ouviu um ruído enorme do lado de Sagres e a seguir chegou o terramoto.

“Praticamente, aglomerado nenhum foi poupado, embora as consequências difiram”, lê-se no caderno especial de “O Século” sobre o sismo de 1969, o maior em Portugal a seguir ao terramoto de 1755.

O historiador Artur de Jesus conta que o sismo de 1969 foi uma “das maiores catástrofes do século XX em Portugal” e que foi “devastadora na região do Algarve”.

Vila do Bispo foi particularmente atingida. Em Budens, a igreja matriz era recheada a talha dourada e perdeu-se tudo na altura do sismo. A localidade de Barão de São Miguel também sofreu bastante e até se conhece o caso de uma jovem de 17 anos que estava no primeiro piso de uma casa e foi “engolida para o rés-do-chão”, conta o historiador.

“De um modo geral, todas as localidades algarvias foram afetadas e foi sentida toda essa devastação. Em termos de vítimas mortais, houve uma pessoa a lamentar e que faleceu debaixo dos escombros em Lagos”, concluiu Artur de Jesus.

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