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“Tertúlia da Fé” deixou claro que o envelhecimento tem de ser preparado

Foto © Samuel Mendonça
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A segunda edição deste ano das “Tertúlias da Fé”, promovidas pela paróquia de Armação de Pêra, deixou claro que o envelhecimento tem de ser preparado.

Laura Lopes, da organização daquelas iniciativas, começou por referir na introdução ao encontro do passado dia 16 de abril que voltou a ter lugar no Centro Pastoral de Pêra, que “a terceira idade prepara-se desde a primeira idade”. “Em que condições queremos chegar à terceira idade? A nossa tendência é sempre para andar cheios de stresse, de trabalho e de coisas para fazer para nos entupir a vida. E depois dizemos: «quando for mais velho, ei-de descansar». Acontece que esticamo-nos tanto que, quando chegamos à terceira idade, vamos passar o tempo no médico porque não tratámos de nós”, constatou.

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Também o pároco de Armação de Pêra concordou que a preparação para o envelhecimento nem sempre é tida em conta. “Os mais idosos não foram preparados para essa etapa da vida”, constatou, considerando que essa etapa “tem muitos valores” porque “os mais velhos têm muito a ensinar aos mais novos”. “A etapa da velhice não é uma coisa terrível, mas alguma coisa de muito bela quando ela é preparada”, sustentou, lembrando que os idosos “continuam a ser imensamente úteis”.

O diácono Albino Martins, a trabalhar há 25 anos em Cachopo, traçou o quadro da realidade daquela freguesia rural do concelho de Tavira que assiste há largos anos ao êxodo da sua população jovem, tendo perdido no último quarto de século metade dos seus habitantes. Lamentando que Cachopo se despovoe “enquanto a vontade política demora em dar sinais de inverter o rumo, planeando de forma sustentada a descentralização económica e social, tomando medidas que leve à fixação efetiva dos que ali vivem e ainda sonham”, frisou que “a Igreja Católica não os abandona”. O diácono sublinhou que o povo da serra “teve sempre a graça de ser por ela assistido, pois a dignidade das pessoas não se mede por dinheiro, nem pela posição social, nem pela cultura, nem sequer pela graça da vida juvenil”.

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Diácono Albino e Cláudia Martins – Foto © Samuel Mendonça

Cláudia Martins, mulher do diácono, advertiu que “uma sociedade que não ama nem respeita os seus mais velhos é uma sociedade desumanizada, sem alma e sem futuro” e lembrou que “saborear a alegria de viver, ainda que com as limitações que a idade impõe, não é possível sem se estar rodeado de um ambiente de amor e gratidão, apreço e estima”. “Na reta final da vida já muita coisa se dispensa, não, porém, o sentir-se amado e acarinhado”, sustentou.

Cláudia Martins defendeu a criação de uma “mentalidade nova”, recordando que “os idosos têm o direito de ser felizes no entardecer da vida, pois foram, ao longo dela, servidores da comunidade, consumiram as suas energias em prol do progresso das terras onde viveram”. “Continuem os idosos, na medida do possível, a viver no seio das suas famílias”, defendeu.

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O diácono Albino Martins concordou que “envelhecer não é fácil” e disse que “paira muitas vezes no ar o temor da dependência”. “Basta um pouco de atenção para saltarem à vista inúmeras situações em que este descartar dos idosos é real, muitas vezes por parte das próprias famílias. Raramente sentimos este apelo de cuidar de quem nos cuidou como um dever, ou melhor, como uma retribuição merecida a quem construiu o mundo que hoje é o nosso”, lamentou.

O orador pediu que, se “por necessidade” os idosos forem acolhidos em centros sociais, “não sejam estas instituições simples dormitórios, mas sim respostas sociais onde funcione uma verdadeira terapia ocupacional assentes na prestação de serviços diversos e promovendo a integração social dos cidadãos, através de iniciativas individualizadas que permitam potenciar capacidades, tornando a comunidade coletivamente mais sólida e individualmente justa e mais humana”.

“O papel da família continua a ser o preponderante para o bem-estar e equilíbrio psicossocial dos cidadãos que ali vivem e convivem, sendo muitas as atividades que o comprovam. Lutamos para que os familiares dos utentes que recorrem aos nossos equipamentos os visitem com frequência e nunca apressados. Sabemos que as suas manifestações de afeto e carinho são muito importantes”, complementou Cláudia Martins.

Luísa Aleixo, licenciada em serviço social e pós-graduada em gestão de equipamentos para pessoas idosas, dedica-se ao voluntariado Hospitalar no Centro Hospitalar de Leiria-Pombal e pertence a uma equipa que procura combater a solidão na terceira idade. Aquela responsável também concordou que “preparar a velhice não é fácil”.

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Luísa Aleixo – Foto © Samuel Mendonça

Defensora do serviço de apoio domiciliário, salientou que “a institucionalização é sempre um momento muito difícil para todos”, reconhecendo que “as famílias também se veem a braços com muitos problemas” e que “não sabem como hão-de tratar dos seus [familiares]”. Luísa Aleixo disse que lhe custa ouvir pessoas a dizer que “não têm vida para cuidar dos pais e dos sogros, nem sabem fazê-lo”. “Temos de passar os valores. É importante educar as famílias”, constatou, defendendo que o apoio ao idoso através dos mais variados organismos deve ser feito lentamente, por etapas e de forma progressiva, à medida que as suas necessidades vão aumentando. “Temos que estimular, cognitivamente, os encontros intergeracionais e, sobretudo, de aproveitar aquilo que tanto têm para nos ensinar. É uma pena nós não estimularmos todo este conhecimento que têm, porque não são os mais velhos que vão perder”, frisou.

Aquela técnica acrescentou que “o que as pessoas gostam mais é das visitas das famílias e de serem escutadas”, reconhecendo que as colaboradoras das instituições não o conseguem fazer. “Apoio muito o voluntariado porque são pessoas que estão mais disponíveis”, acrescentou.

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Fátima Negrão – Foto © Samuel Mendonça

Fátima Negrão, vice-presidente do Instituto da Cultura de Portimão (Universidade Sénior), considerou que o “grande benefício” das universidades sénior é manter as pessoas “muito ativas” através de “uma interação que lhes faz muito bem”.

Aquela oradora considerou, por isso, que a preparação para o envelhecimento consiste em “sair de casa, ter uma ocupação, ajudar o vizinho”. “Quem é egoísta não serve para envelhecer”, advertiu, considerando que “o envelhecimento é dar”. “O hábito de ficar em frente à televisão é o que têm que combater para se sentirem ativos. Mexam-se, façam coisas e divirtam-se enquanto é tempo porque lamentar-se só complica”, exortou.

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Sandra Martins – Foto © Samuel Mendonça

Sandra Martins, animadora social na Santa Casa da Misericórdia de Armação de Pêra, concordou que “manter-se sempre ativo é o mais importante” e reforçou que, “infelizmente a maioria das pessoas, quando procuram as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas é já em situação de alguma dependência”, quer seja física ou psíquica, motivada por demências ou problemas cognitivos.

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Aquela técnica também sublinhou que os idosos gostam de “um bocadinho de atenção”. “As pessoas gostam, essencialmente, que a gente as oiça”, afirmou, defendendo a necessidade de sensibilizar os jovens para o envelhecimento. “É essencialmente com essas pessoas que nós teríamos que trabalhar. Se os jovens não forem ensinados agora a respeitar os mais velhos, eles próprios, quando chegarem a essa idade, vão sentir na pele algumas coisas. Temos de ensinar os nossos filhos a irem aos lares”, defendeu, interrogando: “se não levarmos as nossas crianças a ver estas pessoas, um dia os nossos filhos irão lá visitar-nos?”.

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