Pub

Manifestacao2_paris_11_janeiro_2015_pe_paulo_duarte
O padre Paulo Duarte (ao centro) com dois amigos que reencontrou na caminhada de ontem, em Paris.

Um algarvio em Paris viveu in loco os últimos dias de agitação, choque, interrogação, apreensão, medo, tensão, revolta e manifestação.

O padre Paulo Duarte, sacerdote da Companhia de Jesus (jesuítas), natural de Portimão, desde setembro de 2013 em Paris para fazer o mestrado (dois anos) em Teologia Fundamental, também dá assistência à comunidade portuguesa e acompanha refugiados políticos.

Na quarta-feira almoçava num dos restaurantes israelitas na Rue des Roisiers, no bairro judeu, cinco ruas acima, quando soube pela televisão que acabara de haver, ali ao lado, o atentado ao Charlie Hebdo. “Sentia-se tensão no ar”, conta ao Folha do Domingo o sacerdote que à noite foi juntar-se à multidão na Place de la Republique. “Por ser um lugar emblemático para a Liberdade, foi aí que começaram a concentrar-se as primeiras homenagens aos assassinados na sede do jornal Charlie Hebdo. Entre gritos «Nous sommes tous Charlie» e momentos de silêncio, sentia-se o misto de agitação, choque e interrogação. Todo o atentado causa muitas perguntas. Fiz silêncio. Rezei pelos que morreram de forma brutal e vergonhosa. Rezei pelas suas famílias. Rezei pela paz. Rezei pelos assassinos. Rezei por todos os jornalistas e polícias. Rezei pela liberdade. Rezei pelo futuro”, conta.

EPA/Fredrik Von Erichsen
EPA/Fredrik Von Erichsen

Considerando que “não se pode deixar que o medo assuma o texto principal”, lembra ter sido ali que se programou a histórica manifestação de ontem e que o luto continuou nos dias seguintes.

Sobre o dia de ontem, em que foi um dos cerca de 5.000 portugueses na manifestação parisiense que contou com mais de um milhão e meio de participantes, conta que “Paris saiu à rua. Literalmente”. “Já no metro apercebia-me que ia muita gente”, relata, acrescentando que “o transporte foi gratuito para contribuir para a máxima participação na marcha” pensada, sobretudo, “contra o terrorismo e a favor da Paz”.

Mas a concentração de uma grande multidão fazia que houvesse “medo no ar” de um novo atentado. “Uma ou outra estação de metro acaba por fechar devido a uma embalagem suspeita por lá perdida. Pode ser esquecimento mas, infelizmente, há pessoas que brincam com a situação como a senhora francesa que gritou do hotel da Eurodisney que era Hayat [a mulher co-autora do ataque ao supermercado judaico], que levou à evacuação de todo o parque”, lamenta.

Da manifestação, que teve início na Place de la Republique e que terminou na Place de la Nation, realça então ter sido também “uma marcha contra o medo”. “Foi bonito de ver a dignidade, entre o silêncio e as palmas de todas as pessoas. Novos, velhos, famílias, estrangeiros de muitas nacionalidades, ateus e crentes (entre judeus, muçulmanos e cristãos) davam rosto à humanidade”, relata.

EPA/Etienne Laurent
EPA/Etienne Laurent

O padre Paulo Duarte explica que a iniciativa de ontem, replicada noutras cidades francesas num total de cerca de 3,3 milhões de manifestantes, foi também pelas vítimas de terrorismo em todo o mundo. “Nos momentos mais silenciosos, rezei pela paz e, além das 17 aqui em Paris, rezei pelas cerca de 2000 pessoas que foram igualmente assassinadas na Nigéria pelos radicais terroristas Boko Haram, que não se coíbe de fazer mulheres e crianças de bombas. Recordei também as que morreram em Tripoli, Líbano, em ataque terrorista. Não posso pedir apenas pela paz no cantinho onde estou ou quero estar confortável. Se hoje se juntaram milhão e meio de rostos que dão forma à humanidade, biliões de outros estão por esse mundo a desejar a mesma paz”, testemunha, acrescentando: “esperemos que se façam as devidas reflexões sobre todos estes acontecimentos, pondo de lado interesses económicos e de poder”.

Já no final da marcha, quando se aproximava da praça de destino, viveu um reencontro “muito simbólico”. “Estas manifestações são lugar de encontro de humanidade. Pois bem, no meio de tanta gente vivo o encontro com o Rafael e o Denis, dois grandes amigos. Foi simbólico, pois também é isto que quero promover na minha vida: encontros e abraços de paz”, conta.

Pub