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© Luís Forra/Lusa
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Maria Nunes é a única tecedeira da vila de Monchique e, aos 80 anos, continua a dar forma no tear aos fios de linho, transformando-os em tapeçaria que comercializa em feiras e exposições.

“Como a saúde já não me deixa ficar muitas horas sentada ao tear, vou fazendo trabalhos mais pequenos, uns por encomenda e outros que gosto de imaginar e que são mais fáceis de vender”, disse à Lusa a artesã, na sua oficina na serra algarvia, onde outrora dezenas de pessoas faziam da tecelagem uma forma de vida.

“Existiam muitas, mas hoje sou a única aqui na vila. Umas morreram e outras deixaram a arte, porque isto dá muito trabalho e pouco sustento”, frisou.

De acordo com Maria Nunes, a tecelagem em Monchique chegou a ser uma atividade rentável, “mas hoje em dia vendem-se poucas peças e o trabalho não compensa”.

Nascida no seio de uma família de tecedeiras, Maria aprendeu a arte com a mãe, tendo iniciado aos 14 anos os seus próprios trabalhos, quando um acidente que afetou o braço da progenitora a impediu de trabalhar, privando-a do principal rendimento familiar.

“Foi muito fácil começar. A minha mãe não fazia mais trabalho nenhum a não ser este e fui crescendo e aprendendo a ver como ela fazia. Por vezes, sem ela querer, ia para o tear imitar as peças dela”, recordou.

Desde então, nunca mais deixou o tear e a qualidade e originalidade das suas peças valeram-lhe o reconhecimento em várias feiras e exposições por todo o país.

“Toda a gente elogiava os meus tapetes, panos de cozinha e de tabuleiros, até os estrangeiros. Gostam do que eu faço e continuam a vir cá a casa muitos estrangeiros para comprarem tapetes e outros paninhos”, sublinhou, apontando para as várias peças acomodadas nas prateleiras da oficina.

© Luís Forra/Lusa
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Segundo Maria Nunes, “foi a procura” que a levou a desenvolver novos trabalhos, não só em linho, como noutros materiais.

O primeiro, explicou, é “muito especial”, pelo que passou a utilizar também fios de outros tecidos, já que dão mais volume para os alforges para burros, panos de anca, painéis e vários tipos de tapetes.

Sentada junto ao centenário tear de madeira que herdou da mãe, onde chega a trabalhar cerca de seis horas por dia, Maria Nunes lamenta que não existam mais pessoas que queiram aprender o ofício e a quem possa transmitir os conhecimentos.

“Gostava muito de poder ensinar a arte de tratar o linho, fiar, armar o tear e tecer, mas infelizmente não aparecem muitas pessoas para aprender, porque a esta arte não é muito rentável”, lamentou, acrescentando que só de vez em quando é que surgem interessados.

Recentemente, uma rapariga pediu-lhe para ensinar a fiar e a tecer, o que a deixou muito contente e orgulhosa.

Apesar da idade avançada e dos problemas de saúde, Maria Nunes recusa abandonar a tecelagem, dedicando “algumas horas diárias ao tear para manter a cabeça ocupada e a fazer o que dá prazer”.

“A partir de agora apenas faço pequenos trabalhos e, quando a saúde permite, participo nalgumas feiras e exposições aqui na região do Algarve”, contou a tecedeira de Monchique.

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