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O padre Mário de Sousa evidenciou, no sábado (24 de novembro), que o desafio deixado no evangelho segundo São João ganha particular sentido neste Ano da Fé, proclamado pelo Papa para toda a Igreja, de outubro de 2012 a novembro de 2013.

Na V Jornada Bíblica, realizada este ano pela Diocese do Algarve sobre o evangelho segundo São João, o sacerdote, especialista no estudo daquele evangelista, disse aos cerca de 125 participantes no encontro que teve lugar no Centro Pastoral e Social de Ferragudo, que a proposta passa por “acreditar com e como o discípulo amado” – título da conferência –, “mesmo nos momentos mais difíceis” e por “transmitirmos aos outros aquilo que nós próprios descobrimos”.

Na conferência que encerrou o ciclo constituído também pelo estudo precedente dos apóstolos Paulo, Lucas, Mateus e Marcos, o padre Mário de Sousa explicou que o evangelho segundo São João, o último a ser escrito, já no final do século I, pretende que os leitores “acreditem que Jesus é o messias, o Cristo, o ungido” e “para que, acreditando, tenham a vida divina”. “A obra destina-se a pessoas que já acreditam em Jesus mas que, por ventura, não acreditam retamente”, sustentou.

O sacerdote, que é membro da direção da Associação Bíblica Portuguesa, considerou mesmo que o evangelista confronta o leitor com a mesma frontalidade de Jesus aos discípulos, quando, após o abandono daqueles que não o aceitaram quando disse ser o “pão vivo, descido do céu”, lhes perguntou: «também vós quereis ir embora?».

O conferencista afirmou que “João escreve para que fortaleçam a fé em Jesus”, motivado por problemas da sua comunidade, que ainda hoje persistem. “A comunidade de São João, constituída por cristãos que têm dificuldade em manter-se firmes na fé que receberam, tem sérias dificuldades com o exterior (com os judeus), mas também com o interior da própria comunidade (com os cristãos vindos do judaísmo e do paganismo). Têm dificuldade em aceitar Jesus como o filho de Deus pré-existente, divino, e em aceitar o mistério da Eucaristia”, explicou o padre Mário de Sousa.

Neste sentido, o biblista evidenciou que os contemporâneos de João “querem Jesus, mas segundo as suas condições”. “Também naquele tempo havia uma grande tentação de adaptar Jesus às ideias das pessoas”, lamentou, considerando que “a tentação de querer pôr Deus dentro dos nossos esquemas mentais” continua atual e que o escrito de São João é um “evangelho que se enquadra perfeitamente no Ano da Fé” porque “também hoje há uma grande tendência de querer moldar Jesus aos critérios de cada um” e de “misturar Jesus com outras filosofias, religiões, com outra maneira de olhar o mistério do homem, de Deus e da vida”.

O padre Mário de Sousa sublinhou então que “São João escreve para que os seus cristãos não se encolham e tenham capacidade de enfrentar as dificuldades”. O orador destacou que o evangelista escreve para convidar os discípulos, de então e de hoje, que “caem na tentação de quebrar a fé cristológica, construindo um Jesus ao seu jeito”, a “purificarem a fé”.

O sacerdote, que considerou o evangelho segundo São João dividido em duas partes (a primeira até ao capítulo 12 e a segunda parte a partir do capítulo 13), referiu que a primeira “mostra quem é Jesus”, enquanto a segunda “mostra o que é que Jesus veio fazer, qual a finalidade da sua missão”.

Neste sentido, o padre Mário de Sousa explicou que Jesus veio para todos os tipos de pessoas, detendo-se nos três encontros de Cristo relatados pelo evangelista: com Nicodemos (com o judaísmo ortodoxo), com a samaritana (com o judaísmo heterodoxo) e com o funcionário real (com os pagãos).

O orador, que evidenciou a “beleza e espiritualidade profunda” do evangelho segundo São João, considerou que a autoridade do discípulo sobre o escrito advém, sobretudo, do facto de este “ter uma atitude temerata perante Jesus” e de o ter acompanhado “em todos os momentos”. “Autor, não quer dizer que foi a pessoa que escreveu. Pode não ter sido São João a escrever mas aquilo que está expresso no livro é a escola e testemunho do discípulo amado”, afirmou o padre Mário de Sousa, lembrando que o discípulo é “o único dos 12 que se mantém fiel” e, por isso, “testemunha de todos os acontecimentos”. “Foi o único que foi fiel na cruz, juntamente com Nossa Senhora. É o primeiro a ver o túmulo vazio e a acreditar”, sustentou o orador, que defendeu a tese de que o “discípulo amado” acompanhou Jesus desde o batismo até à ressurreição.

O padre Mário de Sousa explicou ainda que “São João pega na teologia das celebrações judaicas para apresentar a pessoa de Jesus” que as celebrava "como bom judeu" e enumerou as quatro “ideias fundamentais” que desenvolve no evangelho sob a forma de quatro temas: tema da hora (morte e ressurreição de Jesus), tema dos sinais (milagres), tema da água (Espírito Santo) e tema da glória (presença de Deus). O conferencista disse ainda que o evangelho em causa, “muito denso de simbolismo”, “está constituído à volta de sete sinais” e que o evangelista da “unidade cristológica” e da “comunidade” evita todos os verbos ou expressões que indiquem divisão. “São João escreve para convidar todos a aceitar Jesus em tudo aquilo que Ele nos deu”, concluiu.

Recorde-se que o padre Mário de Sousa é autor de um livro, intitulado “Os Encontros de Jesus”, composto por 11 exercícios de Lectio Divina (forma aprofundada de oração, a partir da leitura da Bíblia, que exige disponibilidade de tempo e de espírito), para uso pessoal ou em grupo, a partir dos diálogos que Cristo estabelece com sete personagens no evangelho segundo São João.

Samuel Mendonça

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