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Foto © Samuel Mendonça

Rui Vieira Nery disse ao clero do sul do país que, por se valorizar a dimensão do canto comunitário na Igreja, não se deve excluir uma “música sacra mais sofisticada” porque esta segunda componente “reforça” a primeira.

“A possibilidade de termos música dos melhores mestres que compuseram para a liturgia ao longo dos séculos e de termos essa memória viva é ela própria um fator de evangelização. É uma memória da presença viva da Igreja no seio da criação cultural”, afirmou o musicólogo e ex-secretário de Estado da Cultura na atualização do clero das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, que decorreu a semana passada no hotel Jupiter, em Portimão.

Lembrando que “o repertório de música sacra constitui a espinha dorsal de muita da criação musical da cultura ocidental ao longo dos últimos 2000 anos” e que “muito do melhor que se criou em música ao longo dos últimos dois milénios, particularmente do último, foi inspirado pela mensagem cristã”, aquele orador, ao abordar a dimensão musical na primeira de duas mesas redondas que procuraram apontar as “Áreas prioritárias na Ação Pastoral da Igreja”, frisou que “se é verdade que a Igreja, no seu conjunto, é a guardiã da música sacra, isso é duplamente verdade no caso português”.

“Tendo o peso que a Contrarreforma teve na história da cultura portuguesa, de facto – mais do que sucedeu noutros países em que começou a haver uma separação entre a cultura sacra e a cultura laica –, em Portugal a grande maioria dos criadores musicais de qualidade ao longo da história da música portuguesa fizeram música sacra”, justificou Vieira Nery, lembrando as “grandes escolas polifónicas de Évora, de Braga, de Lisboa e de Faro”.

O musicólogo lamentou, contudo, que Portugal tenha sido influenciado pela ideia que disse ter surgido nos países protestantes do norte da Europa “de que a música da Igreja tem de ser uma coisa soturna, deprimente, a invocar constantemente uma espécie de maldição de que não pode haver alegria na participação do ato litúrgico”. “Infelizmente acho que nós fomos contagiados por esta espécie de ideia de que a música da Igreja deve ser depressiva e angustiada e segundo a ideia de que tem de ser toda ela de raiz estritamente comunitária e tem de alinhar pelo menor denominador comum de referência estética”, afirmou.

Não obstante este aspeto, Vieira Nery considerou que “a Igreja, desde muito cedo, percebeu que a presença da música na liturgia era um fator essencial para realizar a função litúrgica, ou seja, que ela não se pode reduzir à sua estrita funcionalidade, que ela ao revestir-se deste aparato de beleza reforça a sua capacidade de penetração e a sua capacidade de mediação com o divino”.

Foto © Samuel Mendonça

Neste sentido, o orador defendeu que “a Igreja foi sabendo criar um modelo de liturgia que representa simultaneamente uma continuidade que sustenta a capacidade de resposta a cada tempo”. “A política da Igreja em relação à música foi sempre gerida por esta dualidade: por um lado, uma vontade de continuidade e, por outra, a capacidade de olhar para cada momento e de perceber o melhor do espírito das artes e da cultura de cada tempo”, afirmou, lembrando que desde os ritos paleocristãos é possível encontrar, “a par com o canto comunitário, a ideia de que pode e deve haver uma música mais elaborada que corrobora a função do canto comunitário”.

“Ao longo da história da Igreja vamos vendo a Igreja funcionar como um pólo inspirador da melhor criação musical humana, da melhor criação musical ocidental, não de uma forma fixa, estacionária e estagnada, mas aberta à inovação, à descoberta e à criação original, aberta a uma mudança constante criada por aquilo que não muda, ou seja, pela presença do Espírito Santo no núcleo duro da criação artística”, sustentou.

Vieira Nery considerou, por isso, que este facto histórico confere uma responsabilidade à Igreja. “Este património é da humanidade, no sentido mais lato, mas também é nosso, dos católicos, porque foi a partir desta mensagem, que assumimos como nossa, que ele foi criado. Portanto, somos responsáveis por ele e se não assumirmos essa responsabilidade esse património musical criado a partir da revelação cristã fica cada vez mais como uma curiosidade restrita a uma elite social que tem capacidade económica e de formação para acesso a ele”, advertiu.

“Há uma responsabilidade formativa da Igreja do ponto de vista do acesso à cultura, do acesso a um património que devia de ser coletivo, e que a estrutura da nossa sociedade tende a restringir às elites”, complementou, considerando que “a Igreja, em muitos aspetos, é um fator fundamental de democratização do acesso à cultura”.

Reconhecendo que nem todas as paróquias terão “meios práticos de assegurar uma liturgia musical sofisticada”, Vieira Nery, apelou a uma “atitude diferente” para “permitir uma diversidade da presença musical na liturgia”. “A ida à Igreja pode corresponder a uma oportunidade de contacto com uma linguagem artística que nos desafia pode também ser uma função evangelizadora. Uma presença, simultaneamente, de formas mais acessíveis e mais elaboradas penso que contribui para essa função que também é e deve ser pedagógica da Igreja a esse nível. A Igreja pode ser também um espaço de aprendizagem do belo, como pode e deve ser da aprendizagem do bom”, afirmou, apontando uma questão prática para que assim seja: “por mais que façamos nunca vamos poder concorrer com o entertainment do show business”.

A atualização do clero das dioceses do sul, que se realizou de 16 a 19 deste mês, tendo como tema “Levar Cristo às periferias humanas e existenciais: os novos areópagos”, contou com cerca de 120 participantes, incluindo, para além dos bispos das quatro dioceses, o bispo emérito da Diocese de Singüenza-Guadalajara (Espanha), D. José Sánchez González, que também esteve presente.

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