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1970 – O ANO DA MORTE DE CARLOS PORFÍRIO

A 25 de Novembro de 1970, falecia em Faro, com todo o desconhecimento, o maior pintor nascido no Algarve, de todos os tempos. Digo, pelas informações recebidas, dado a minha ausência do país. O professor Joaquim Magalhães, figura destacada nos meios culturais da cidade de Faro, a poucos dias de completar o seu emblemático quadro, “Mãe Soberana”, fora ignorado dos seus mais íntimos amigos. Então, o admirado homem da cultura, que foi Magalhães, escreveu no semanário “O Algarve”, da sua mágoa, pelo Europeu de Paris, no Algarve, aqui em Faro.

Em 1995 a cidade cultural homenageou o pintor, pela passagem do seu centenário (1895-1995), numa exposição de toda a obra que o pintor executou para o “seu” Museu Etnográfico, em Faro, em 21 telas de grandes dimensões, à Goya, como se afirmou. Quadros esses, hoje dispersados pelo Algarve, nem sempre nas melhores condições de conservação. Que nunca entendemos o porquê do capricho do desmantelamento da obra que o genial pintor deixou, nessa marca de Mestre, para o futuro de Faro.

Nessa evocação do centenário, conforme publicação do Catálogo de luxo, escrevi: “Carlos Porfírio – Um Algarvio do Século”.

A Câmara de Faro, com o advogado Botelheiro na sua administração, entendeu, por bem, homenagear o Homem do Futurismo Português.

PORFÍRIO NA CIDADE FUTURISTA

Após seis anos da implantação da República, a cidade de Faro viu surgir o movimento Futurista. Estávamos no ano de 1916. O país não tardaria a entrar nessa 1.ª grande guerra mundial, que a Europa imperialista acendera e contaminara, não só o continente europeu, como outros continentes, EUA inclusive.

Porfírio era um jovem de 21 anos. Já percorrera a Europa central. Já convivera, por Montmartre toda a modernidade artística da cidade de Paris, entre amigos que se fazem numa noite de boémia, em amizades para uma vida.

Porfírio convive com o futuro de todo o futurismo artístico europeu e mundial que se apresentava e se convivia na cidade das luzes: Pablo Picasso, a bailarina Olga Koklowa dos Ballets Russes (que viria a ser mulher de Picasso), Max Jacob, Jean Cocteau, Apollinaire, entre outros. Pela cidade de Paris vivia-se com todo o entusiasmo da juventude, o movimento futurista, iniciado pelo italiano, Filippo Tommaso Marinetti.

E se o jornal novaiorquino “New York Times, no movimento que se vivia na capital francesa, declarava que Picasso era “o diabo em carne e osso”; já por Berlim, o crítico de arte Alfred Stieglitz, vinha na afirmação muito próxima que “Os futuristas eram uma perversão, qualquer coisa de colossal e diabólica”.

A Paris artística, desde Rodin a Renoir, vinham os maiores apoios à nova geração que invadia a cidade magnífica, de todos os acontecimentos.

Quando o nosso pintor regressa a Portugal, com o início da 1.ª grande guerra, nesse entusiasmo, Porfírio, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, Santa Rita-Pintor e outros poucos, dão os primeiros movimentos para que Lisboa seja uma percursora do movimento de Filippo Marinetti. Os artistas conservadores e toda a imprensa lisboeta, em bloco, adjectiva os aderentes de loucos. Tanto que o correspondente em Lisboa do jornal “Mercure de France”, Philéas Lebesque, escrevia que Porfírio, Pessoa, Almada e seus seguidores, eram apelidados de loucos pelos lepidópteros de Lisboa.

Cada país organizou o movimento às idiossincrasias locais (nacionais). Estudando o Futurismo português, nessa modernidade, são homens e mulheres do amor e do pacifismo, pela inteligência, que um país sem cultura morre…

Como Shakespeare afirmou: A memória é a sentinela do Espírito.

Eis, pela recusa em Lisboa, o grupo responsabiliza Porfírio junto do seu professor e artista pintor, Carlos Augusto Lyster Franco, em Faro, todo o apoio à divulgação do “Futurismo” em Portugal. E assim foi. O semanário farense “O Heraldo” esteve na origem do “Futurismo”, que daria a importância cultural e artística, com um Pessoa, um Sá-Carneiro, um Amadeu, um Porfírio. Aqui sendo oficializado.

Durante os anos de 1916 a 1917, com o n.º da revista ” Portugal Futurista”, dirigida por Porfírio e publicada em Faro e anunciada a venda, em simultâneo, Faro/Lisboa. Só a ditadura instalada, com Sidónio Pais, em 1917, impediu a sua circulação, levando a apreensão do maior símbolo do movimento.

Carlos Porfírio repousa no cemitério de Faro, na campa n.º 758-A, ao lado de Olga, a sua 3.ª e última esposa.

Teodomiro Neto

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