A claridade com que os meus olhos se anunciaram pela primeira vez ao mundo foi como uma descoberta silenciosa, um encontro com tudo o que me rodeava. Tudo era novo, tudo era estranho, e ao mesmo tempo profundamente meu.
Abri, pela primeira vez, os ouvidos ao vento, e todo o ruído me era desconhecido. As vozes, os passos, os ruídos, os sussurros — com o instinto das minhas mãos em concha ouvi as ondas suaves do mar, estava a aprender a amar.
Senti o ritmo lento do bater do meu coração. Acreditem ou não, era puríssimo, sensível e frágil como o peso do algodão. Batia devagar, como se não houvesse tempo, como se tivesse medo de acordar o mundo.
Até hoje nunca mais parou.
Senti, pela primeira vez, o toque de umas mãos inocentes. Talvez fossem mãos cansadas, talvez felizes, talvez maravilhadas com a minha chegada — não sei. As vozes intersetavam-se no vazio do meu silêncio. Pegaram em mim e chorei pela primeira vez. Movimentei desarticuladamente os braços e as pernas e reparei que tinha um corpo estranho, pequeno, desajeitado, com uma barriga desproporcionada ao resto de mim. Tudo em mim era frágil, tudo em mim, estava a aprender a existir.
Chorei.
E tornei a chorar.
Era a única coisa que sabia fazer.
Chorava sem entender porquê, chorava porque o mundo era demasiado grande para mim.
Num instante senti algo diferente, um instante de amor puro. Quando as melhores mãos do mundo me tocaram, foi como se uma chama de amor tivesse acendido dentro de mim. Incendiou todo o meu corpo com um calor sereno e profundo.
Eram as mãos da minha mãe.
Não fui capaz de lhe dizer nada. Nem sabia falar, nem sabia andar, nem sabia ainda amar, mas os seus olhos olhavam-me demoradamente, quase descontroladamente, como se naquele instante tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo. Retive a retina dos meus olhos e compreendi o maior “amor do mundo”
O meu coração desconhecia.
Era um amor intenso. Um amor único.
Senti fome e frio ao mesmo tempo. Chorei outra vez. E então mamei.
O mundo parecia acalmar quando me aproximava dela. O seu coração batia perto do meu, e por momentos senti que ainda fazia parte dela, como se nunca tivesse realmente saído.
Mamei e adormeci no peito da minha mãe.
Uma espécie de sensações e imagens estranhas que nunca tinha visto ilustravam e depositavam-se no meu cérebro — era o primeiro sonho.
Ao meu lado estavam vários meninos. Pequenos como eu, frágeis como eu, recém-chegados a este mundo imenso.
Olhei para eles com os meus olhos inundados de pureza. Não sabíamos falar, não sabíamos andar, não sabíamos nada da vida — mas partilhávamos algo invisível — o amor. Nos nossos olhos só existia amor. Chorávamos a mesma linguagem de amor.
Todos tínhamos acabado de nascer.
Senti que estávamos unidos por um amor silencioso, quase idêntico ao que tinha experimentado minutos antes nos braços da minha mãe.
O mais estranho é que todos sabíamos falar. Tínhamos a mesma mensagem, apenas tínhamos aprendido a dizer:
“Porque não se amam os adultos?
Amem-se uns aos outros”
E por fim acordei.
Era adulto neste mundo louco e disse à minha mãe —“Nascemos puros, o amor vive, o homem perece, mas o amor é eterno e nunca morre“.
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