Tive oportunidade de estar há dias num encontro, organizado por uma colega, com mães (estavam só mães) de meninos e meninas portadores de deficiências profundas, severas, daquelas que causam comprometimentos sérios que lhes condicionam o dia-a-dia, as atividades de sempre, os passeios, as rotinas de alimentação, de higiene, as autonomias mínimas que já são tão, tão, tão pouquinhas. Deficiências que lhes comprometem a comunicação, a autonomia e a aprendizagem. E “que estão” na escola. Naquela escola que se quer inclusiva e global, seja isso aquilo que for.

Encontrámo-nos para falar, com colegas, da área da saúde, sobre a sexualidade na deficiência. Pretendia-se que, num ambiente mais intimista e informal, aquelas mães se sentissem mais à vontade para pôr questões, falar de si e dos seus filhos, ouvir outras mães que passam pelo mesmo, ao mesmo tempo que tentávamos nós, escola, fazer uma ponte, tirar dúvidas, alargar partilhas, ser um facilitador de todos estes processos tão importantes e determinantes, não só para o papel da escola em tudo isto, mas também para uma vinculação afetiva com a estrutura, para que, depois disto, surja a confiança e o crescimento.

Senti daquelas mães, durante o encontro, ligação afetiva com a minha colega que organizou. Senti referencial e confiança para pôr questões. Senti feedbacks de um trabalho que é diário. Senti falta de medo, ou pudor de não se ser compreendido, como se o à vontade para pôr questões existisse tão naturalmente, como aquele à vontade que temos em casa, com os nossos. Senti cuidado em ouvir, sensibilidade no acolher e assertividade no sugerir. Senti-me muito bem, ali. Foi o momento alto de um dia cansativo, que se repete, atrás de outros dias de cansaço igual, tão igual que me desarma e torna quase constante, um certo desencanto com a estrutura.

Este pedaço de tarde foi assim, como se um pingo de mel tivesse caído numa coisa amarga e me fizesse querer, com a ponta da língua, ou do dedo, tocar-lhe, lambê-lo, saboreá-lo.

A expressividade da linguagem pretende-me devolver e reforçar a sensação de delícia que foi, embora não me tenha tirado a tremenda pequenez que senti, perto daquelas mães. Muito ridícula sou eu, com as minhas queixas diárias, quando comparadas com aquele caminho que aquelas mães trilham, com o peso que aquelas mães carregam. Dia após dia e após dia e após dia.

Senti orgulho naquela colega que faz tanto nesta linha. Que privilegia tanto e que acolhe aquilo que é mais importante. Não a vou identificar aqui, mas ela saberá que escrevo para ela. E também para mim, confesso. Para centrar, uma vez mais e até à exaustão, a minha lente, os meus sentidos, a minha perceção, que às vezes ficam entupidos com tanto ruído inútil de que estamos todos rodeados.

Haja doçura nas escolas! E mel, já agora…